Copa do Brasil

Morumbi resiste como reduto “raiz” de futebol e faz São Paulo se orgulhar de ser popular

Com preços mais baixos e arquibancadas lotadas, Morumbi permite ao São Paulo ser o mandante mais "acessível" entre os grandes clubes do país

Seja por Brasileirão, Copa do Brasil ou Copa Sul-Americana. Seja no sábado, no domingo ou em dia de semana. Até mesmo em horários pouco convidativos. Se tem jogo do São Paulo, o Morumbi está lá, imponente mesmo que balançando ao ritmo de 50 mil pares de pés nas arquibancadas. Um estádio que pulsa como o último reduto “raiz” de futebol na capital paulista.

Nesta quarta-feira (16), o estádio deve ser tomado por mais de 60 mil almas são-paulinas que pretendem conduzir o Tricolor a uma virada sobre o Corinthians a partir das 19h30 (horário de Brasília), no jogo da volta da semifinal da Copa do Brasil. Em tempos de vacas magras, a “torcida que conduz” virou motivo maior de orgulho para um clube tão acostumado a conquistar e que hoje ostenta o rótulo de mais popular do país.

Dizer que o Estádio Cícero Pompeu de Toledo hoje mantém vivo o jeito “raiz” de torcer na cidade de São Paulo não é exagero, nem clubismo. Enquanto os rivais Corinthians e Palmeiras inauguraram recentemente suas modernas arenas, o Morumbi resiste. Reformado e modernizado para ser mais confortável e acessível, é verdade. Mas com a mesma arquitetura e as mesmas arquibancadas de quando foi concluído, em 1970.

 

Clube mais popular do país?

O Morumbi hoje faz o São Paulo se autoproclamar o clube mais popular do país. Um título exibido com orgulho em uma faixa inaugurada recentemente  e afixada diante do escudo no estádio. E dito com ainda mais orgulho pelo presidente Julio Casares sempre que ele se manifesta para convocar o torcedor a comprar ingressos.

Os mais de um milhão de torcedores que já assistiram aos jogos do clube em casa apenas em 2023, com uma média de público de 43.658 espectadores por partida no Morumbi, já seriam bom argumento para sustentar a tese de que o clube é o mais popular do país – ou ao menos, do estado. Mas fujamos da rivalidade e das comparações que a alimentam.

O São Paulo pode se orgulhar, sim, de ser o clube mais acessível, numa comparação com os 12 clubes considerados grandes do país. O ingresso médio para ir a um jogo no Morumbi é o mais barato entre todos os gigantes do nosso futebol.

É o que mostra um levantamento exclusivo feito pela Trivela. Para chegar a este resultado, o cálculo leva em conta o preço do tíquete médio de todos os clubes no Brasileirão, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) per capita mensal em cada uma das cidades que têm equipes na elite nacional. Uma métrica para alinhar valor do ingresso e poder de compra em cada município.

O tíquete médio no Morumbi é de R$ 54,18 para jogos do Campeonato Brasileiro. Um morador da cidade de São Paulo precisa gastar apenas 1,07% do valor do PIB per capita mensal para conseguir comprar uma entrada. A capital paulista tem um PIB per capita de R$ 5.062,50 – o mais alto entre as cidades com times na Série A.

Ranking de ingresso acessível no Brasileirão:*

  1. América-MG – 0.64%
  2. Fortaleza – 0,68%
  3. Coritiba – 0.75%
  4. Goiás – 0.93%
  5. São Paulo – 1.07%
    *(Percentual de PIB per capita mensal necessário para comprar 1 ingresso em cada cidade)

A comparação local evidencia como o ingresso para ir ao Morumbi é barato. O tíquete médio para frequentar a Arena Itaquera é de R$ 63,72. O Palmeiras, por sua vez, tem o tíquete médio mais caro do Brasileirão: R$ 80,07.

Mas isso não quer dizer que a entrada para ir aos jogos do São Paulo em casa esteja entre as mais baratas do Campeonato Brasileiro. O Tricolor está em 16º no ranking de tíquete médio do Brasileirão. O ingresso (muito) mais em conta é o do Fortaleza: R$ 13,71 em média.

E mesmo assim, o São Paulo é um dos times que mais leva torcedores ao estádio no Campeonato Brasileiro. O Tricolor tem a segunda melhor média de público do primeiro turno, com 48.549 torcedores por partida. Está atrás apenas do Flamengo, que leva em média 57.693 espectadores ao Maracanã a cada partida.

Todos os números listados acima e nos gráficos desta matéria foram retirados dos boletins financeiros divulgados pela CBF. A entidade ainda não publicou os borderôs da 19ª rodada, cuja última partida ocorreu na noite desta terça-feira.

Paraisópolis vive o Morumbi

De nada adiantaria o rótulo de “mais popular” se nem mesmo aqueles que moram na comunidade vizinha ao Morumbi conseguem frequentar o estádio. E as arquibancadas tomadas por pelo menos 50 mil são-paulinos nos últimos quatro jogos também são casa para alguns são-paulinos de Paraisópolis, na divisa com o bairro considerado nobre.

É o caso do tricolor Rafael Cardoso, de 31 anos. Basta alguns segundos de conversa para ele disparar que é “são-paulino desde pequeninho”. E frequentador assíduo do Morumbi. Ele, inclusive, estará nas arquibancadas na noite desta quarta-feira. Um programa dele e da família. Ou melhor: dos primos.

Rafael costuma ir aos jogos no Morumbi com a prima, Camila, e os pequenos Davi Lucca e Maria Eduarda. Um passeio ao custo habitual de R$ 30 por entrada – contra o Corinthians, o valor saltou para R$ 200. E que, segundo o torcedor, os vizinhos corintianos e palmeirenses não conseguem fazer com tanta frequência.

O são-paulino Rafael com os primos (também são-paulinos, claro), em casa no Morumbi (Arquivo Pessoal)

– Sempre que tenho oportunidade, a maioria dos jogos, vamos eu e minha prima, em todos os jogos. Sempre estamos lá. Torcendo e vibrando. Na minha experiência como torcedor, faz sentido (o Morumbi ser o estádio mais acessível). Eu tenho amigos de outros times que não têm a acessibilidade aos estádios. E por ser próximo da minha casa e por ser mais barato, o Morumbi é um dos locais mais em conta para ver futebol – afirma o são-paulino.

Aos 42 anos, Carlos Eduardo de Jesus da Silva já não frequenta tanto o Morumbi quanto gostaria. Mas do alto da experiência das quatro décadas como são-paulino, o torcedor atesta que o estádio mantém a sua alma, mesmo com o passar do ano e com algumas reformas.

– Eu vejo que o São Paulo não se vende. O clube não se vende tão facilmente. A gente quer (a modernização) como em outros estádios, mas vejo que perderam a essência. O clube do São Paulo conseguiu manter isso aí.  Acredito que é o único que ainda tem isso. Ainda sinto que é a mesma coisa de antigamente. A mesma coisa. Hoje ainda consigo ver muita família, bastante mulher indo ao estádio – ressalta o torcedor.

História reforça rótulo de clube popular

Página do Esporte Ilustrado de junho de 1945 (Reprodução)

Desde que o São Paulo passou a se autointitular “o mais popular”, muitos torcedores rivais fizeram provocações em referência ao que seria um reposicionamento forçado de marca do clube. De novo: esta matéria não pretende imergir em clubismo ou acirrar comparações que afloram rivalidades. Mas registros históricos comprovam que o Tricolor era um clube popular na capital paulista já em suas origens.

Conforme o volume 1 do livro Onde a Moeda Cai em Pé, publicado pelo clube em 2020, o São Paulo já registrava recordes de público muito antes do Morumbi. O Tricolor foi campeão de bilheteria no Campeonato Paulista em oito dos primeiros 12 anos de Pacaembu, inaugurado em 1940. É o que mostram registros de boletins e jornais da época. Os documentos contabilizam apenas a renda das partidas, e não o público.

O Almanaque Esportivo, publicado em 1945, mostra outro dado que atesta a popularidade crescente do São Paulo nos primeiros anos após sua fundação, em 1930, tem a ver com o quadro social são-paulino. O clube saltou de 2.271 sócios em 31 de dezembro de 1940 para 17.027 sócios em 31 de dezembro de 1945. Em comparativo, o Palmeiras liderava o ranking com 17.294 associados. Ao passo que o Corinthians aparecia atrás, com 15.354 integrantes em seu quadro social.

Bairro ganha as cores para contar a história do clube

O Morumbi sempre foi a casa do São Paulo – ou ao menos, desde 2 de outubro de 1960. Mas é só agora que o bairro começa a ganhar as cores do São Paulo. Começa a virar um reduto identificado com o clube e que guarda e conta a história do Tricolor em suas paredes.

Tudo iniciativa de Alan Salles, frequentador assíduo das arquibancadas e artista que usa o grafite para espalhar as glórias do São Paulo pelo bairro do Morumbi. O grafiteiro é o idealizador do projeto “Morumbi Grafitti”, uma iniciativa que conta com doações de torcedores para colorir as ruas do entorno do estádio com as cores e momentos marcantes do Tricolor.

– A gente sempre participou de caravana pelo São Paulo, e a gente ia para a Argentina, para o Chile e via os muros do entorno pintado. E sempre foi um incômodo o Morumbi ser muito impessoal em dia que não tinha jogo. A gente criou o projeto, que a gente pede ajuda para o próprio torcedor ajuda, e a gente vai financiando muro a muro. Já estamos batendo nos 20 muros feitos – conta Alan.

Artista pinta a história do São Paulo pelos muros do bairro do Morumbi (Foto: Eduardo Deconto)

O artista conversou com a reportagem da Trivela enquanto dava vida a um mural em homenagem a Ademar Ferreira da Silva, atleta do São Paulo bicampeão olímpico no salto triplo. Um exemplo de como o projeto pretende não apenas colorir o bairro, mas contar a história do clube. Há homenagens a Leônidas da Silva, ao tri do Brasileirão consecutivo, aos títulos mundiais… E até uma expectativa de poder eternizar a atual equipe de Dorival Júnior nos muros do bairro.

– Não era só colocar as cores. Mas resgatar a história. Tem muita gente importante. Desde o Leônidas, o Diamante Negro, que transformou o São Paulo, conseguimos quebrar a hegemonia do Palmeiras e do Corinthians. A gente veio na sequência trazendo a Pâmela (Rosa), do skate, uma são-paulina ilustre, e Ademar Ferreira da Silva, homem negro bicampeão olímpico. Queremos colocar toda a história do São Paulo, para que a molecada que está vindo agora, não pensar que o São Paulo é essa última década. O São Paulo é muito mais do que isso. O São Paulo é gigante, porque a história ainda sustenta essa robustez – conta o grafiteiro

Sócios enfrentam problemas e acionam Procon

Mesmo com um estádio tão acolhedor quanto o Morumbi, alguns sócios-torcedores do São Paulo têm enfrentado problemas para assistir aos jogos do clube. Mais exatamente, ao duelo decisivo com o Corinthians, nesta quarta-feira. Uma reportagem do portal Futebol Na Veia revelou que sócios do clube entraram com reclamações contra o clube no Procon, órgão responsável pela defesa do consumidor.

O motivo é o esquema de venda de ingressos para o Majestoso. O clube anunciou que a comercialização seria aberta de forma simultânea para associados dos planos Branco, que é mais caro, e Vermelho, mais barato. Além disso, o clube informou que as entradas com benefícios para associados estavam esgotadas.

O problema é que o termo de uso do programa Sócio Torcedor garante que todos os associados têm direito a desconto para compra de ingressos nos jogos no Morumbi. O desconto é de 70% para quem é do plano Branco e de 50% ao plano Vermelho. Os torcedores do plano Branco também têm prioridade de compra. Nada disso foi assegurado pelo clube nos procedimentos para o jogo contra o Corinthians.

Os protestos contra a Total Acesso, plataforma responsável pela venda de ingresos do Tricolor, são frequentes. Inclusive com cartazes no entorno do Morumbi antes dos jogos. Um estádio “raiz”, que permite ao São Paulo ser um clube popular, mas que não está imune aos problemas.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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