Copa do Brasil

Paulo Junior: A bola de Nestor viajou o Morumbi para corrigir a sala de troféus

Com o título da Copa do Brasil, São Paulo finalmente preenche sua galeria de títulos com a taça que faltava

Faltava uma. O torneio criado lá no final dos anos 1980 e que já consagrou tantos times e personagens copeiros país afora estranhamente rejeitava logo o tricampeão da América e do Mundo, a camisa que venceu jogos eliminatórios contra tanta gente graúda no Morumbi, em Santiago, Tóquio, Yokohama. Até esse domingo.

Do melhor jeito possível, num caminho ao gosto das maiores vitórias que seu torcedor poderia pedir aos santos do Clube da Fé, o São Paulo é campeão da Copa do Brasil, finalmente, passando por Palmeiras, Corinthians e Flamengo para ser consagrado em sua casa numa temporada de comunhão total com seu estádio e seus seguidores.

É fato que grandes quadros da parede tricolor não puderam disputar o torneio nos anos em que os corredores da Libertadores eram impedidos por regulamento de alinhar na Copa local. Também é verdade que ainda assim eram 22 participações em 34 anos do mata-mata nacional e até ali uma riquíssima coleção de frustrações, como o dolorido gol de Geovanni que tirou a taça das mãos de Rogério Ceni e Raí na virada do século ou as quedas recentes que fizeram a camisa levar mais de duas décadas para voltar à decisão. Sempre houve uma rusga, dissolvida num bate-pronto de Rodrigo Nestor, nascido um mês depois daquela amarga derrota de 2000.

O chute de perna esquerda firmou o brilho do jovem jogador, o ponto técnico mais lúcido do time em toda a final disputada em dois jogos, a bola na cabeça do centroavante na ida e na bochecha da rede na volta. Cravou também que dessa vez o São Paulo não dava pistas de que poderia vacilar, porque ainda que o Flamengo tivesse feito um bom primeiro tempo e criado as melhores chances, o empate na viagem da bola de Nestor veio logo poucos minutos depois do gol de Bruno Henrique, e melhor, ainda antes do intervalo. Não deu tempo para que o duelo pudesse especular uma disputa por pênaltis e já tratou de devolver a responsabilidade para o lado de lá.

É que por mais que o são-paulino tivesse todos os motivos do mundo (e como entendem de mundo) para confiar no título – a boa atuação seguida de vitória no jogo de ida, a má fase do adversário, a casa cheia (há meses), o elenco descansado no meio de semana –, são anos de movimento mais tímido na sala de troféus do Morumbi. A última conquista de elite, de um primeiro escalão ao nível da grandeza do clube, remete a 2008, com o impressionante terceiro Brasileiro seguido com Muricy Ramalho. Vieram a Copa Sul-Americana em 2012, no jogo não terminado contra o Tigre, e o Paulista de 2021, num Choque-Rei de estádios fechados por pandemia, e só, muito pouco, em prateleira e quantidade, para corredores tão ocupados. Haveria então razão para uma suspeita, uma espera pela resposta definitiva de que, sim, o São Paulo voltou a subir nos grandes pódios.

Será justo lembrar da festa do torcedor, da volta de Lucas para atropelar o Corinthians, da autoridade sobre o Palmeiras no Allianz Parque, do gol de Calleri no Maracanã, das bolas de Nestor, da liderança de Rafinha, das defesas de Rafael, da excelência de Beraldo… Mas fico com Dorival Júnior como a perfeita síntese do momento. Em poucos jogos nesta nova passagem pelo clube, ele encaixou o time, por exemplo, achando Alisson no balanço do meio-campo, e deu a sobriedade necessária para os grandes momentos, diferente daquele peso de seca de grandes conquistas que atormentou em campanhas anteriores. Dificuldades aqui e ali, claro, mas um time que nessa sequência enfrentando três rivais e grandes campeões da Copa sempre soube o que queria da vida, nunca pareceu caminhar para as velhas quedas dos anos passados.

Irônico que Dorival Júnior, mentor do mais memorável São Paulo em mais de uma década, ainda seja o treinador que sempre carece de melhor reconhecimento, perambulando por passagens curtas ou falta de crédito aqui e ali. Há menos de um ano ele levantava as Copas Libertadores e do Brasil pelo lado rubro-negro, mas com desempenho insuficiente na visão dos dirigentes que preferiram um novo treinador estrangeiro.

E aqui o uso da palavra estrangeiro não é por uma generalização superficial, é porque a busca era exatamente essa, como se o técnico vitorioso não tivesse ideias boas o bastante para uma equipe dominante. “Agradecer ao Flamengo por ter mandado o Dorival embora”, falou Luciano com a picardia de que dorme campeão. O time carioca errou a rota com Vítor Pereira e Jorge Sampaoli, incapazes de atender a projeção utópica de reviver 2019 e no fim das contas treinadores do pior momento dessa geração flamenguista. Também não havia melhorado de Renato Gaúcho para Paulo Souza. Era o Dorival mesmo, por que não?

Em campo, o time visitante até surpreendeu positivamente depois do apagão das últimas partidas, quando, por exemplo, passou o primeiro tempo da final no Maracanã sem nem chutar a gol. Dessa vez Gerson achou jogo aberto na direita e por pouco não fez um golaço. Arrascaeta, voltando longe das condições ideais, até deu um tapa ou outro no meio-campo. O 1 a 0 na ultrapassagem de Pulgar pela direita e rebote do capitão Bruno Henrique surgiu com total justiça naquele fim do primeiro tempo, interrompido pelo pronto empate que não deu ao Flamengo a chance de voltar do intervalo em vantagem. Mas no fim a impressão é de que não haveria gás para levantar a taça. Pedro e Arrasca já pressionavam pouco no início, Luiz Araújo, Gabriel, Everton Ribeiro e Victor Hugo não conseguiram sufocar no fim. Quando Ayrton Lucas cortou para dentro e fez uma última jogada perigosa, a sensação já era de título bem assegurado pelo São Paulo.

Lucas mais uma vez não conseguiu criar e parece até ter sentido os mais de 36 graus na tarde paulistana. A saída são-paulina também foi prejudicada pelos cartões precoces de Alisson, Pablo Maia e Rafinha, todos amarelados ainda antes da parada para hidratação no meio do primeiro tempo. Carelli incomodou como sempre, uma diferença gritante para o lado outro lado do campo no quesito dar trabalho para os zagueiros. No geral, foi um time bem menos envolvente e que correu um pouco atrás do rival, mas que com a tranquilidade do 1 a 1 foi retomando o controle na hora de renovar o gás com Welington, Neves, Michel Araújo e Luciano. Não brilhou, mas não viveu aquele drama de minutos derradeiros de final de taça.

É muito curioso o contraste entre, de um lado, um elenco que encontrou seu treinador ideal para a circunstância, um casamento com Dorival que só viu a confiança aumentar até a partida de total segurança no Rio, um comando com as alternativas na mão, sem grandes traumas para mudar quando se fez necessário; e de outro os rastros de uma relação toda torta que passou por agressão em vestiário, briga em treino, sucessivas mudanças no time, queda drástica do momento individual de vários jogadores e cenas finais da câmera seguindo os abraços do ex-treinador, hoje rival, enquanto o atual, Sampaoli, já descera ao vestiário. “Não plantamos muita coisa e não colhemos nada”, resumiu em poesia sincera um reserva Gabigol.

No domingo em que tudo foi muito – o calor, o preço dos ingressos, o amor do torcedor são-paulino e a diferença de sintonia entre os treinadores e seus elencos –, a beleza da bola de Nestor que fez jus ao Morumbi percorrido até a rede, com o São Paulo corrigindo a falha da sala de troféus e abrindo espaço para uma Copa do Brasil, quem diria. Taça tardia e gigantesca, inesquecível pelas imagens, pela bola jogada e pelo cruzamento da tabela, noites e tardes prontas para sentar na mesa com os maiores causos tricolores mundo afora.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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