Brasil

Contratado pelo Atlético Mineiro, Diego Costa se encaixa bem no estilo de Cuca

Cuca sempre gostou de um jogador forte no ataque, capaz de vencer duelos pelo alto e segurar a bola, tudo que Diego Costa oferece

A contratação de Diego Costa pelo Atlético Mineiro é daquelas que chama muito a atenção. O jogador é uma estrela internacional, mas estava sem clube desde que rescindiu com o Atlético de Madrid. De um Atlético a outro, o hispano-brasileiro chega para ser um reforço que tem tudo a ver com o estilo de jogo que o técnico do clube, Cuca, gosta de jogar. Melhor até do que Hulk nessa função — mais do que isso, complementar ao camisa 7.

Cuca é um técnico que gosta de jogar com um time que se aproxima rápido no ataque, resolve as jogadas e transforma erros do adversário em gols. O Atlético é agressivo, vertical, que tem muitas opções ofensivas de velocidade para chegar ao ataque e tentar abrir defesas adversárias. A força de Hulk é explorada, mas por vezes ele precisa fazer um papel que Cuca aprecia nos seus times: o de pivô. Não é a forma que ele mais gosta de atuar.

Mesmo assim, ele tem conseguido fazer isso eventualmente e ainda jogar como gosta, com liberdade, caindo pelos lados e jogando como um segundo atacante — mesmo quando não há um primeiro, já que o time joga sem um camisa 9 típico. Nomes como Eduardo Vargas e Savarino, por exemplo, entram em diagonal e aparecem na área para marcar os gols. Os meio-campistas também, como Nacho Fernández fez contra o River Plate no jogo de Buenos Aires e como Matías Zaracho fez em Belo Horizonte no jogo de volta.

Apreço por um camisa 9

No seu título brasileiro pelo Palmeiras, em 2016, Cuca vivia uma situação similar à do Atlético antes da chegada de Diego Costa: tinha muitos bons jogadores de ataque sem um camisa 9 típico. Foram vários jogadores usados na função: Lucas Barrios, Leandro Pereira e mesmo Rafael Marques. Nenhum deles se firmava, então quem jogavam eram os jogadores mais rápidos, especialmente dois deles: Dudu e Gabriel Jesus.

Em 2017, quando voltou ao clube, teve um jogador que conseguiu oferecer o que ele queria: Deyverson. Miguel Borja, a grande contratação da temporada, não vingou como se esperava, mas Deyverson se tornou um jogador importante para o time, especialmente pelo bom papel que podia fazer no ataque. Naquele ano, não veio o título brasileiro.

O trabalho no São Paulo foi ruim, mas no Santos o técnico voltou a conseguir fazer um bom trabalho. Por lá, embora não tenha encontrado um camisa 9 tão típico e físico quanto Diego Costa, conseguiu achar um jogador técnico, capaz de abrir espaço, ganhar a bola aérea e fazer gols, claro: Kaio Jorge, que agora foi para a Juventus. Embora não seja o que foi Deyverson, ele foi capaz de ser uma referência no ataque, mesmo sendo ainda jovem.

No Atlético, ele ainda não encontrou esse jogador. Vargas foi usado por ali, assim como Eduardo Sasha. Marrony também chegou a ser utilizado ali, assim como Diego Tardelli, dois jogadores que já deixaram o clube. Nem Sasha, nem Vargas exerceram bem esse papel. Com Hulk sem conseguir engrenar atuando pela ponta, ele foi deslocado para o meio. As coisas melhoraram, o atacante se tornou um dos melhores do país e o desempenho (e os resultados) melhoraram muito. Está embalado no Campeonato Brasileiro, onde é líder, e está na semifinal da Libertadores, depois de eliminar com autoridade o River Plate. Tudo isso ainda sem Diego Costa. Pode melhorar com o novo camisa 19.

Com Diego Costa, um jogador físico no ataque

Diego Costa é apresentado pelo Atlético em frente às obras da Arena MRV (divulgação)

Com Diego Costa, o Galo ganha uma opção de romper as defesas adversárias com bolas longas, disputas pelo alto e um jogador que gosta de atuar de costas, segurar a bola e preparar jogadas aos companheiros ao seu redor. Hulk já declarou que gosta de ser um segundo atacante, atuando com um centroavante típico. É assim que ele deve entrar no time.

Chegamos a outro ponto, então: como o time será armado? Isso, claro, é tarefa de Cuca, mas a mudança não precisará ser brutal. O que será necessário, para o equilíbrio do time, é saber como organizar o meio-campo. É possível fazer um losango no meio, com Nacho à frente, encostando em Hulk e Diego Costa. É possível fazer um 4-3-3, mas com Hulk encostando mais em Diego Costa e o outro atacante recuando para fechar um dos lados do campo. Há opções e jogadores para se pensar isso.

Com um centroavante como Diego Costa como referência, a bola longa para ele será certamente uma opção, seja saindo de um dos defensores, como o lateral Guilherme Arana ou o zagueiro Junior Alonso, seja por um dos seus ótimos meio-campistas, como Allan ou mesmo Nacho.

Diego Costa é um jogador raro. Não há muitos centroavantes como ele nos principais times do Brasil. Gabigol, por exemplo, mal pode ser chamado de atacante: é um jogador bastante completo tecnicamente que atua como 9. Pedro, seu reserva, é mais centroavante, mas não é um jogador de imposição física como Diego Costa. Devyerson tem a mesma característica, mas tecnicamente está bastante abaixo.

Dúvidas sobre o seu físico

Diego Costa não conseguiu jogar bem na sua volta ao Atlético de Madrid, em janeiro de 2018. No seu retorno, foram 21 jogos, cinco gols e três assistências. Entre lesões e suspensões, acabou perdendo muitos jogos. Perdeu também espaço no clube naquela temporada 2018/19.

Na temporada 2019/20, foram 30 jogos, cinco gols, cinco assistências e novamente não conseguiu mostrar o jogador que foi na primeira passagem pela Espanha e nem no Chelsea, quando liderou o ataque dos Blues que conquistou a Premier League em 2014/15 e em 2016/17.

Já um reserva, Diego Costa tinha expectativa de atuar ao lado de Luis Suárez. Chegou a brincar que seria ele pegando e o outro mordendo. Era setembro de 2020, ainda na empolgação da chegada de Luis Suárez aos Colchoneros. Só que isso não durou. Foram só sete jogos do atacante, com um total de 204 minutos em campo, média de pouco mais de 29 por partida. Muito pouco. Sem jogar, Diego Costa decidiu rescindir em dezembro.

Desde a sua saída, ele foi especulado em diversos clubes. O Arsenal foi um deles, além de sondagens de times do Oriente Médio, que nunca se concretizaram. Havia uma dúvida sobre a questão física de Diego Costa e o quanto ele teria capacidade de continuar entregando o bom futebol que o caracterizou e fez arrastar defesas. O desempenho no Atlético de Madrid suscitava essas dúvidas.

O Besiktas foi o último a tentar levar o atacante. Não conseguiu convencê-lo e ficou com Michy Batshuayi, do Chelsea, por empréstimo. O Atlético conseguiu convencer Diego Costa a fechar. O projeto ambicioso, o bom salário e a possibilidade de jogar em um clube que parece capaz de ganhar todos os títulos que disputa são realmente atraentes. Além disso, poderá atuar ao lado de Hulk, um jogador de alto gabarito e com quem combina bem em estilo, ao menos em tese.

A torcida do Atlético tem motivos para se empolgar. Mesmo com todas as dúvidas sobre a questão física, o Campeonato Brasileiro é uma liga de menos intensidade do que, por exemplo, a Premier League. O Galo avaliou a questão física do jogador para fechar e acredita nele. Se olharmos para o que aconteceu com Hulk atuando por aqui, a perspectiva é muito boa.

Questão financeira

É preciso fazer um alerta, porém. A folha salarial do Atlético Mineiro é a terceira maior do país, atrás de Flamengo, a maior, e Palmeiras, segunda maior, como mostra informação do blog de Rodrigo Capelo no ge.globo. A folha é de cerca de R$ 206 milhões por ano e a preocupação existe porque o total de receitas foi de R$ 127 milhões em 2020. Há expectativas de aumentar esse número em 2021.

A maior parte da dívida do Atlético, que passa de R$ 1,3 bilhão, é justamente com os investidores. São os chamados “quatro R’s”: Rafael e Rubens Menin (MRV Engenharia, Banco Inter), Renato Salvado (Hospital Mater Dei) e Ricardo Guimarães (Banco BMG), que colocaram R$ 400 milhões no clube, sem qualquer cobrança de juros, segundo Rubens Menin.

Não há motivo para preocupação imediata, porque os empresários não cobram juros e nem cobram o retorno imediato dos valores colocados no clube. Em análise no seu blog em relação às contas de 2020 do Atlético, Rodrigo Capelo alertou que há uma preocupação em relação a receitas e despesas e aumento da dívida que não pode ser ignorado. Há dívidas de curto prazo que precisarão ser renegociadas. A aposta é que o desempenho em campo compensará e as negociações seriam bem-sucedidas.

De qualquer forma, a preocupação do Galo não é a financeira neste momento, mas não pode ser abandonada, porque isso pode custar mais à frente.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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