Após denúncias de calote, CBF oferece curso a brasileiros na China com 3 anos de atraso
Quatro profissionais que trabalham com futebol em solo chinês denunciaram condição à Trivela
Quatro brasileiros que trabalham com futebol na China denunciaram à Trivela um suposto calote da CBF Academy, a área de cursos da Confederação Brasileira de Futebol. Eles pagaram cerca de R$ 10 mil cada um por uma capacitação da licença C para técnicos em território chinês, em 2020.
Dividido em duas partes (online e presencial), o curso teve sua primeira etapa realizada sem problemas, no mesmo ano de 2020. A parte prática, no entanto, só aconteceu no ano de 2022, com oito dos 12 alunos da turma.
Os quatro restantes não puderam comparecer porque, mesmo dois anos depois do início da crise sanitária, as regiões onde moravam ainda estavam com rígidas restrições do governo local contra a proliferação da Covid-19. A Confederação, no entanto, não quis adiar a realização para atendê-los.

Os prejudicados fizeram denúncias entre 2022 e 2025, seja direto na Confederação Brasileira de Futebol ou com diretores que organizaram o curso naquele momento, exigindo que lhe fossem oferecidos a chance de terminar a licença. É possível vê-las até na caixa de comentários de publicações da entidade no Instagram.
Inicialmente, a entidade máxima do esporte nacional ofereceu ao quarteto apenas uma licença provisória e a opção de concluir a aula prática no Brasil, recusada por eles porque as idas ao país natal não aconteciam com frequência.

Entre o fim de 2024 e o início de 2025, a Trivela tentou contato com três profissionais que trabalharam na organização das licenças realizadas na China e diretamente com a assessoria de imprensa da entidade.
Alguns dias após essas tentativas, em fevereiro deste ano, os quatro alunos relataram à reportagem que foram procurados pela CBF Academy (sob outra gestão, diferente da que ofereceu o curso antes) para, finalmente, finalizarem suas licenças para técnicos. Eles receberam orientações, correção de trabalhos e, no fim, o certificado de conclusão.
Curso da CBF na China era ‘assunto tabu’ para alunos que denunciaram calote
Deveria ser a realização de um sonho. Técnicos brasileiros, na China, tendo a oportunidade de se capacitar e ter no currículo o diploma da entidade que tem uma Seleção dona de cinco títulos mundiais. A experiência, no total, virou um trauma e motivo para tristeza por muito tempo para o quarteto.
Mágoa e ressentimento foram algumas das palavras ouvidas pela reportagem da Trivela no contato com os profissionais. O assunto era quase um tabu e difícil de ser abordado.
— [Foi] Um lamento profundo que tenha acontecido isso porque quando surgiu essa oportunidade para nós, brasileiros aqui fora, foi um prazer e uma alegria muito grande. Porém, acabou se tornando essa frustração por todos esses acontecimentos — revelou, sob condição de anonimato, um dos quatro alunos que só conseguiram concluir a licença em 2025.
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A organização do curso foi problemática, diz ex-funcionário da CBF

Também sob anonimato, um ex-funcionário que trabalhou na CBF Academy e esteve envolvido nos desdobramentos do curso em solo chinês contou à Trivela todo o processo.
A realização das licenças era parte de uma parceria entre a Confederação Brasileira e a empresa chinesa Kingdomway Sports. Anunciado em janeiro de 2019, o acordo previa 15 anos de duração e seria como uma parceria para troca de informações e formação de profissionais em solo chinês. A CBF, que recebeu um aporte financeiro da companhia asiática, demorou até colocar em prática os cursos.
Após pressão de representantes da Kingdomway, a organização se viu na necessidade de mostrar algo aos chineses e decidiu anunciar, em plena pandemia, os cursos para técnicos em julho de 2020, incluindo até proposta de enviar professores do Brasil para o país asiático.
O profissional ouvido pela reportagem opinou que a CBF errou ao vender as licenças sem uma data firmada para realização da parte presencial, deixando, basicamente, nas mãos dos alunos um período para que o curso acontecesse.
Com o passar do tempo e a queda nos casos da Covid-19, os alunos passaram a pressionar a organização para realização da parte prática, o que fez a CBF contratar uma profissional que morava na China e já tinha as licenças para ser a professora. Após uma série de cancelamentos por conta da impossibilidade de alguns alunos, foi firmada uma data, que virou até caso de polícia.

Tradução: “Declaramos para os devidos fins que o aluno está devidamente matriculado no Curso Licença C (Turma da China/2020), que faz parte do Programa de Qualificação Profissional da Confederação Brasileira de Futebol. Afirmamos que a componente digital foi realizada de 04 de agosto a 15 de setembro, com carga horária total de 65 horas-aula. A conclusão do curso ocorrerá com o cumprimento da carga horária total: 150 horas-aula.”
Realização da parte prática da licença teve até intervenção da polícia local
A parte presencial do curso iria durar uma semana, mas terminou com apenas dois dias porque a polícia chinesa foi ao local para impedir a realização de aglomerações e atividades físicas em grupo. Os oito alunos que estiveram nos dois dias de prática receberam suas licenças, três anos antes do quarteto.
O caso foi relatado por um dos alunos e confirmado por uma fonte que trabalhava na CBF Academy.
— Não estava permitido nenhuma aglomeração esportiva naquele momento. O curso era totalmente clandestino perante às autoridades e à Federação Chinesa de Futebol. Não tinha nenhum embasamento com o governo, não perguntaram se poderiam realizar o curso lá — disse um dos ex-alunos.
Com a conclusão dessa parte prática, a CBF depois descontinuou o acordo com a Kingdomway já na gestão de Ednaldo Rodrigues (o contrato foi firmado pelo ex-presidente Rogério Caboclo, afastado do cargo em 2021 após denúncias de assédio moral e sexual) por uma série de descumprimentos dos chineses.
A ideia de cursos na China, no entanto, pode ser retomada pelo setor educacional da entidade do futebol brasileiro e tem sido debatida neste momento pelos executivos, segundo apuração da Trivela.
O que diz a CBF?
Em mensagem enviada pelo gerente da CBF Academy, Davi Felques, a entidade destacou que os dois anos de pandemia “tornaram o processo longo” pela exigência de atividades presenciais na formação de treinadores.
O executivo ainda destacou que ofereceu aos alunos que não puderam comparecer à parte prática, em 2022, a possibilidade de concluir a licença no Brasil e, posteriormente, buscou resolver os casos pendentes “sem deixar nenhum treinador desamparado”.



