Vasco da Barreira: hoje atacada, comunidade fez parte do processo de popularização do clube
Formada nos arredores de São Januário há quase cem anos, Barreira do Vasco sofre com a interdição de público nos jogos do clube no estádio
No começo da década de 1930, o Vasco já era um clube popular e vivia os primeiros anos com o recém-inaugurado São Januário, então maior estádio da América Latina e construído com o apoio financeiro e braçal de seus torcedores. Mas, naquele período, outro fator foi determinante para a popularização ainda maior do clube: a formação do que viria a ser a Barreira do Vasco. Quase cem anos depois, em meio a um ataque elitista e preconceituoso contra a comunidade e o clube, pode-se dizer que um não vive sem o outro.
Formada inicialmente em um terreno doado pelo então presidente Getúlio Vargas para a Igreja Católica construir casas populares, a Barreira do Vasco surgiu na colina que dá o apelido de Gigante da Colina ao Vasco. Aliás, na extinta colina. O terreno elevado que ficava perto de São Januário foi demolido e planificado para a construção das casas, que foram ocupadas por operários, pescadores (na época, a Baía de Guanabara chegava próximo de São Januário), e funcionários, jogadores e ex-atletas do clube.
— O Vasco já era um clube popular, predominantemente negro, e ele se consolida na década de 30. Por ser um clube popular, logo se liga a Barreira. A comunidade vai ser composta em parte por ex-jogadores, trabalhadores e funcionários do clube. A Barreira era uma comunidade projetada. Depois ela vai aumentar muito, vai sofrer um processo de favelização posterior. A princípio era pra ser algo como um conjunto habitacional. Depois cresce muito. A Barreira retroalimenta a popularização do Vasco. Pela história e pelo que está se repetindo hoje, só reforça que a Barreira é uma parte inseparável do clube – afirmou o historiador Gabriel Siqueira, que é vice-presidente do Conselho Municipal de Favelas e diretor da Federação das Associações de Favelas, à Trivela.

O que começou como uma área “planejada”, logo cresceu. Recebeu levas de moradores vindos de outras áreas do Rio de Janeiro. Mas sempre seguiu ligada ao Vasco. E o Vasco ligada a Barreira. Na década de 1960, o clube doou o terreno em que foi construída a Escola Municipal João de Camargo, que funciona até hoje em uma rua próxima de São Januário.
— O Vasco sempre buscou estar alinhado e dialogando com a Barreira. Na medida do possível, contribuiu para o desenvolvimento da comunidade. O clube doou uma parte do terreno e o engenheiro do clube foi responsável pela obra da Escola João de Camargo. A construção foi feita pelo clube. A escola recebe crianças que moram na Barreira. Mais do que a proximidade, a relação estabelecida pelo Vasco com a Barreira e da Barreira com o Vasco fortaleceu o DNA vascaíno – disse o historiador Walmer Peres, coordenador do Centro de Memória do Vasco.
— Hoje a Barreira é parte do clube, é um órgão do corpo que é o Vasco da Gama. À medida que é fruto da popularização do Vasco, ela vai popularizando cada vez mais o Vasco. É uma via de mão dupla – completou Gabriel Siqueira.
A Barreira é o melhor lugar do mundo?
?: André Menezes#VascoDaGama pic.twitter.com/9DEA1KHufh
— Vasco da Gama (@VascodaGama) September 24, 2019
Interdição de São Januário afetou economia da Barreira do Vasco
Nos dias de jogos do Vasco, a Barreira – e não só as ruas que cercam São Januário – ficam lotadas de torcedores do clube. A região virou ponto de encontro até mesmo para torcedores que não têm ingresso para os jogos, e que vão para o local aproveitar o já famoso pré-jogo na Barreira. Em caso de vitória do time, o pós-jogo também costuma ser muito agitado.

Toda essa movimentação impacta na economia da Barreira do Vasco e de outras comunidades nos arredores do estádio, como Tuiuti, Arara e até da Mangueira e do Caju, que ficam um pouco mais afastadas. Assim, há 82 dias, essa população vem sofrendo com a proibição da presença de público em São Januário. E a interdição se deu em uma decisão polêmica e baseada num relato preconceituoso de um juiz. No relato de Marcello Rubioli, juiz de plantão no dia da confusão na partida contra o Goiás, no fim de junho, ele cita supostos “estampidos de disparos de armas de fogo”, que ocorreriam “comumente” na região, além de críticas as “ruas estreitas” do local o fato dos torcedores “se embriagarem”.
Apesar do juiz ter citado que “disparos de armas” são comuns na região, um levantamento da plataforma Fogo Cruzado mostrou que os arredores de São Januário tiveram o mesmo número de tiroteios da região do Maracanã. E os tiroteios na Barreira do Vasco representam uma parcela muito pequena do total das ocorrências no Rio de Janeiro.
Será que São Januário é mais perigoso que os demais estádios do Rio? Um juiz do TJRJ alegou que São Januário não tinha estrutura para jogos e disse que o estádio é cercado pela Barreira do Vasco, “onde disparos de armas do tráfico” geram “insegurança". pic.twitter.com/pqOTNasMq5
— Instituto Fogo Cruzado (@fogocruzado) August 17, 2023
De acordo com a Associação de Moradores da Barreira do Vasco, aproximadamente 18 mil pessoas foram, direta ou indiretamente, afetadas com a proibição de jogos com público em São Januário. Ainda segundo o Observatório do Trabalho Carioca, da Prefeitura do Rio de Janeiro, 92,8% dos “buscadores de emprego” da região têm renda familiar de até dois salários mínimos.

Além disso, ainda segundo o relatório do Observatório, os comerciantes da região tiveram uma queda de até 60% da renda mensal desde a interdição do público em São Januário. E até 300 trabalhadores, que costumam ser contratados por “diárias” nesses comércios em dias de jogos também perderam essa renda. E cerca de 550 vendedores autônomos, que chegam a arrecadar até R$ 8 mil por dia de jogo, também foram prejudicados. Para Vânia Rodrigues, presidente da Associação de Moradores, essa proibição marginaliza os moradores da Barreira.
— Se o Ministério Público conhecesse nossa comunidade, não haveria essa interdição. Esse tipo de situação também ocorre em outros estádios como o Maracanã e o Engenhão, mas não houve o mesmo tipo de decisão. Milhares de famílias estão sendo prejudicadas porque não tem jogo do Vasco e vivem sem trabalho e sofrendo discriminação – afirmou Vânia em Audiência Pública na Alerj, na última segunda-feira.
Horário Júnior, vice-presidente de Responsabilidade Social e História do Vasco, também reforçou que, agora, o principal prejudicado pela proibição do público é a população da Barreira. Afinal, sem punição do STJD, o clube pode mandar seus jogos com torcida em outros estádios.
— O Vasco já cumpriu a parte esportiva. Essa interdição pelo MP é preconceituosa e agora atinge mais a Barreira do que o Vasco. O Vasco vai ter receita no Nilton Santos (no clássico com o Fluminense, no sábado), teve no Maracanã contra o Atlético-MG. Quem sai mais prejudicado são os moradores. 18 mil pessoas são afetadas. Pessoas perdendo 60% da renda mensal, as pessoas estão sendo demitidas. Com argumentos totalmente preconceituosos – afirmou Horácio.
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Vasco mantém projetos sociais para a população da Barreira
Mas o envolvimento do Vasco com a Barreira está longe de ser apenas econômico. Ao longo dos anos, o clube teve diversos projetos sociais envolvendo a população da Barreira. Atualmente, a Associação mantém três projetos voltados para crianças, adolescentes e idosos. Quase 200 pessoas participam das atividades, que acontecem dentro de São Januário.
O Vasco oferece aulas de tênis, natação e polo aquático nas instalações do Complexo de São Januário para crianças e adolescentes. Além disso, o clube também tem o Ciclo de Oficinas, com aulas de dança, teatro, produção audiovisual e música. Dentro das oficinas, na parte da dança, os idosos também podem participar.
Páscoa na Barreira! ??
O elenco do Vasco da Gama se reuniu para realizar mais uma ação social em prol da Páscoa, dessa vez, na Barreira do Vasco!
Que momento incrível para as nossas crianças ❤️
?: Matheus Lima | #VascoDaGama pic.twitter.com/mbvBPLOBPv
— Vasco da Gama (@VascodaGama) April 8, 2023
Além dos atuais trabalhos, o Vasco também está desenvolvendo um projeto de um cineclube em São Januário para atender a população da Barreira, com exibição de documentários e filmes. A primeira edição contará com a exibição de um documentário feito pelo próprio clube sobre o título do Sul-Americano de 1948. E a ideia é também envolver os comerciantes da região.
— Vamos fazer uma exibição dentro de São Januário e vamos chamar os comerciantes para terem uma renda adicional. Vai ser um projeto social novo. Vamos abrir as portas de São Januário e queremos transformar isso em uma coisa regular, pelo menos uma vez por mês, em parceria com os comerciantes locais. Queremos levar cultura para o local – afirmou Horácio.
Vasco e Barreira se mobilizam por liberação de São Januário
Desde a confusão na partida contra o Goiás, pelo Campeonato Brasileiro, no fim de junho, o Vasco vem sofrendo com punições esportivas e pela justiça comum. O Vasco foi punido pelo STJD com quatro jogos sem público – já cumpridos. Já o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro interditou inicialmente o Estádio de São Januário para receber qualquer tipo de evento esportivo. Em seguida, a Justiça liberou o local para receber jogos, mas sem público. O clube recorreu e estava confiante de que conseguiria a liberação, mas, há duas semanas, o TJ manteve a interdição para o público.

Enquanto isso, o Vasco e a população da Barreira iniciaram uma grande mobilização pelo fim da proibição do público no estádio. Vereadores, deputados, senadores, o prefeito Eduardo Paes e, depois de um tempo, o governador Cláudio Castro também se pronunciaram pedindo a liberação. Os deputados estaduais Tarcísio Motta (PSOL) e Dani Monteiro (PSOL) fizeram um abaixo-assinado e conseguiram mais de 16 mil assinaturas solicitando o fim da interdição da Colina. O clube também recebeu o importante apoio da Ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, que se posicionou pela liberação do estádio.
Após a manutenção da proibição de público em São Januário, o Vasco aumentou a mobilização e lançou um manifesto criticando a decisão e pedindo a liberação do estádio. Além disso, há cerca de dez dias, durante a partida contra o Bahia, na Arena Fonte Nova, milhares de torcedores do Vasco se reuniram em São Januário para acompanhar a partida e se manifestarem pela liberação da Colina para a torcida.
A ???? ???? ?❤️
Nosso profundo agradecimento pela incrível festa que mais de ?? ??? Vascaínos fizeram nos arredores de São Januário!
?Av. Roberto Dinamite & Barreira do Vasco
A mais de 1.500km de distância do local da partida contra o Bahia.#VascoDaGama pic.twitter.com/Z1bikv8YL6— Vasco da Gama (@VascodaGama) September 4, 2023
Agora, finalmente, o Vasco parece estar perto de conseguir a liberação de São Januário. Na última semana, o clube teve uma reunião com o Procurador Geral de Justiça, Luciano Mattos, e apresentou uma proposta de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), com uma série de medidas que já tomou e pretende tomar para melhorar a estrutura e a segurança de São Januário, como o aumento no número de catracas, implementação do acesso com biometria e reconhecimento facial e aumento na quantidade de câmeras dentro do estádio. A PGJ está analisando a proposta do Vasco e uma nova reunião foi marcada para esta quarta-feira, às 11h. Este, enfim, pode ser o encontro que vai selar a liberação do público em São Januário, reparando um erro que prejudicou milhares de pessoas da Barreira e das comunidades que cercam o estádio.



