Ampliar torcida única atesta falhas do Estado e fere direitos da população
O que dizem especialistas sobre a (nova) tentativa de coibir a violência entre organizadas
A morte da torcedora Gabriela Anelli, 23, em confronto entre as torcidas de Palmeiras e Flamengo, nos arredores do Allianz Parque, reacendeu o debate sobre a expansão da torcida única no futebol paulista. O tema se arrasta há mais de sete anos, e ganha os holofotes a cada novo episódio de violência, sempre com o cenário de tragédia como pano de fundo.
Após a morte de Gabriela, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) passou a discutir a ampliação da proibição de torcedores visitantes para os chamados “clássicos nacionais”.
No início de abril de 2016, o MP-SP e a Secretaria de Segurança Pública se reuniram para pedir uma medida urgente que impedisse torcidas de dois times irem a um mesmo estádio em clássicos estaduais.
A ação aconteceu no dia seguinte à morte de um torcedor, envolvido em uma briga de organizadas no metrô, na estação Brás. O confronto entre torcedores aconteceu no dia de Palmeiras x Corinthians, Dérbi pela 14ª rodada do Paulistão, no Pacaembu.
Episódios violentos também aconteceram no entorno do estádio, antes e depois da partida, e quase 60 integrantes de torcidas organizadas foram detidos. Em 2019, 15 pessoas foram condenadas pela Justiça de São Paulo pela situação e outras sete absolvidas.
A medida anunciada pelo então secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), tinha previsão de durar até o fim daquele ano, mas se estende desde então para partidas envolvendo Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos.
Agora, após ter sido estendida a outros sete estados e o Distrito Federal, sua ampliação é debatida. A medida, segundo especialistas ouvidos pela Trivela, aponta falhas do Estado em assegurar segurança à população e fere o direito ao lazer.
Torcida única é a solução para a violência no futebol?
Os episódios de violência continuam acontecendo mesmo a quilômetros de distância dos estádios.
Das 384 mortes ligadas ao futebol no Brasil desde outubro de 1988, contabilizadas em levantamento do jornalista Rodrigo Vessoni, 373 (97%) ocorreram fora do estádio e 11 (3%) foram dentro. Em dias de jogos, foram 221 (58%). Nas datas sem partidas, 163 (42%).
Raquel Sousa, cientista social que se debruça sobre futebol, violência e segurança pública, aponta à Trivela que a medida da torcida única é limitada, não resolve o problema e nem observa para além do perímetro dos estádios, “como se os conflitos se limitassem aos dias e locais dos jogos”.
Restringir as partidas a apenas uma torcida, segundo ela, somente desloca as brigas a outros locais, e atrapalha a busca por uma solução efetiva. Isto porque, ao se criar esta limitação, há um movimento inverso ao que deveria se apresentar na sociedade, impossibilitando a coexistência respeitosa com aquilo que – e quem – é diferente.
— Faz com que os torcedores não convivam com os torcedores adversários no mesmo ambiente. A adoção da medida é a admissão de que o poder público é incapaz de assegurar algo simples, como a presença de duas torcidas no mesmo estádio — avalia.

O deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT) realizou uma audiência pública na Alesp, em 2016, com o tema “torcida única é bom para o futebol?”. A audiência ouviu especialistas em Segurança Pública, Direito, além de representantes dos clubes e das federações, para estudar a convivência pacífica, no mesmo estádio de futebol, de torcidas rivais quando seus times se confrontam.
“Particularmente, acho que essa questão de torcida única não é a solução. Torcida única é dizer não ao futebol, dizer que o Estado falhou. Quem tem que fazer a segurança é a Polícia Militar. A polícia tem que ter inteligência para se antecipar a esse tipo de coisa, mas não tem pessoal, não tem tecnologia”, disse Luiz Teixeira à Trivela.
Em setembro de 2016, ano em que a medida de torcida única entrou em vigor, Daniel Jones Veloso, 22, foi a primeira vítima fatal. Torcedor do Corinthians, ele foi espancado com barras de ferro por um palmeirense, em Itapevi, na região metropolitana da capital.
— Esse acidente se deu fora do campo e não dentro do campo. Ou seja, o problema não é a torcida no estádio. Por que na América, na Europa, no mundo se tem torcida mista? Essas medidas são preguiçosas e basicamente afirmam que o Estado não quer ter trabalho com a segurança pública — afirmou Teixeira.
— Quando o MP-SP propõe a torcida única nos clássicos, ele diz que o futebol não tem capacidade para fazer a gestão, regulamentar e organizar os espetáculos. Quando você pega um jogo de time grande, olha o valor do ingresso… E ainda assim você não dá garantia? Se fosse num show, o promotor do show seria responsabilizado. O estado deixa de cumprir a função que é proteger a população. As pessoas têm o direito ao lazer e direito à segurança.
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Expandir a torcida única seria erro grave, diz especialista
Além do caso de 2016, quando a medida entrou em vigor, outros atos violentos ocorreram longe dos estádios desde então.
Raquel Sousa cita o episódio de fevereiro deste ano, quando uma emboscada de membros da Mancha Alviverde contra torcedores do Corinthians culminou em uma briga que, entre outros feridos, deixou dois em estado grave.
— Se essa medida fosse efetiva, casos assim não ocorreriam depois de tantos anos. A expansão da torcida única seria um erro grave, que não soluciona o problema por atuar somente em seus efeitos e não na raiz. Desvaloriza a cultura torcedora e descola conflitos para outros espaços da cidade — afirma a cientista social.
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Raquel pondera que a violência entre torcidas não se pode resolver somente com o braço do policiamento e fechando o espaço para o convívio entre duas torcidas, pois se trata de um “fenômeno complexo que envolve paixões, emoções, demonstração de poder e masculinidade”.
Alternativas à medida
Muito embora seja um consenso entre especialistas que encerrar a violência no futebol trata-se de uma ideia muito distante, talvez utópica, isto não quer dizer que soluções não possam ser pensadas para enfrentar e ao menos amenizar o problema.
— Em suma, a maioria das medidas até o momento são tomadas para uma resposta rápida para a população, mas não resolveremos esse problema com soluções simples ou punições coletivas. É preciso atuar preventivamente e, caso haja algum conflito, é necessária uma investigação séria pelos órgãos competentes e a responsabilização individual — afirma Raquel Sousa.
A especialista sugere caminhos possíveis para, em âmbitos distintos, se enfrentar o problema dos casos de violência entre torcidas:
- observatório para o acompanhamento real desses conflitos, com produção de dados confiáveis sobre os casos;
- grupos integração entre as torcidas (do mesmo time e adversárias) para a convivência com o “outro”, inclusive em dias em que não tem jogos;
- espaços culturais em que as torcidas possam ocupar e diálogos sobre temas como racismo, machismo e homofobia no ambiente esportivo. Algo similar ocorreu no futebol alemão;
- organização em conjunto dos eventos esportivos, feita em colaboração entre clubes, torcida, polícia, guarda municipal e outros órgãos públicos.
Mortes nas últimas três décadas
A morte de Gabriela Anelli foi a 384ª ligada ao futebol desde outubro de 1988 no Brasil, segundo o levantamento de Rodrigo Vessoni. De modo geral, as vítimas são homens e jovens, com maior concentração de casos na última década.
As mortes foram causadas, em maioria, por armas de fogo (272). Agressões físicas, ataques com facas, bombas ou atropelamentos resultaram nos outros 112 óbitos.
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Gabriela Anelli: polícia trabalha com suspeitos de ambas as torcidas
Neste momento, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, investiga o caso e busca descobrir quem foi o responsável por arremessar uma garrafa contra Gabriela Anelli, que morreu no dia 10.
A princípio, um torcedor do Flamengo foi preso em flagrante. Mas, devido à fragilidade das provas, o jovem foi solto pela Justiça após pedido do Ministério Público paulista.
Segundo disse ao Manhã Bandeirantes a chefe do DHPP, Ivalda Aleixo, na segunda-feira (17), imagens de câmeras de segurança e de moradores do entorno do Allianz Parque mostram garrafas atiradas por ambas as torcidas. E as duas possibilidades são consideradas.
— A pessoa que joga a garrafa do lado da torcida do Flamengo é um torcedor cadastrado, estava na organizada? Precisamos saber disso e identificar o momento em que a garrafa sai [das mãos dele]. Foi jogada uma garrafa também, até como um revide e quase ao mesmo tempo, por alguém do lado do Palmeiras, em direção à torcida do Flamengo, e essa garrafa bate no portão. Como o espaço de tempo é muito pequeno, algo de segundos, temos aí um problema: ambas quebram. E agora? Qual foi o estilhaço [que matou a jovem]? — questionou a delegada.
Dilcilene e Ettori, os pais de Gabriela Anelli, vieram ao Allianz Parque para seguir o legado da filha: “Isso aqui é a vida dela. Em cada canto que a gente passa, a gente sente a Gabriela” pic.twitter.com/iUZAu88bYS
— Eduardo Deconto (@eduardodeconto) July 13, 2023
O homem de cinza que aparece em um dos vídeos – citado pelo MP-SP como argumento para diferenciá-lo do jovem flamenguista preso na data da confusão – está entre os suspeitos, confirmou Aleixo.
— Pode ser, sim, o autor. Mas identificamos outras pessoas levantando com uma garrafa na mão, e temos o problema de duas garrafas terem sido arremessadas quase que ao mesmo tempo. Por isso a [importância da] reconstituição virtual dos fatos — completou.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que não há a confirmação de que o autor foi identificado.
— A polícia continua ouvindo testemunhas e analisando todas as imagens registradas no dia para identificar a autoria do crime — escreveu a pasta.
A prisão do jovem flamenguista, aliás, ocorreu de forma precipitada, segundo especialistas, e o suspeito teve sua imagem, nome e sobrenome expostos em mídias de todo o país, embora fossem frágeis as provas contra ele. A ampla exposição do rapaz, que agora responde em liberdade, também foi criticada.
— Outro ponto essencial é que não haja um punitivismo, sem a devida investigação, em que culpabiliza qualquer torcedor para dar uma resposta para a sociedade. Um jovem de classe baixa entrou no sistema de justiça criminal por conta de um erro de investigação — comenta Raquel Sousa.



