Brasil

Gabriela Anelli: o que a morte da palmeirense ensina sobre responsabilidade

A Trivela ouviu especialistas para entender, sob as óticas do Direito e do Jornalismo, as implicações da pressa para se apontar culpados por crimes

Nada chocou mais o futebol brasileiro nas últimas semanas que a morte de Gabriella Anelli, torcedora palmeirense atingida por estilhaços de uma garrafa horas antes de um jogo contra o Flamengo, no entorno do Allianz Parque.

A violência simbolizada na perda de uma jovem de 23 anos tem sido notícia desde o lamentável episódio na zona oeste paulistana, na tarde do último dia 8, com a morte confirmada na segunda-feira (10).

Paralelamente, o que se sucedeu àquele sábado tampouco poderia acalmar quem pedia por justiça: um jovem foi preso em flagrante sob a acusação de ter arremessado a garrafa contra Gabriela.

A versão repetida em mais de uma oportunidade por César Saad, o então delegado responsável, era de que Leonardo F. X. S., o rapaz detido, havia admitido o crime. Porém, não era verdade: em depoimento à Polícia, o jovem disse ter atirado pedras de gelo durante a briga.

Segundo as investigações do Ministério Público de São Paulo, que pediu a soltura do suspeito para que respondesse em liberdade, o jovem flamenguista não possuía características físicas, nem roupas semelhantes, às do homem que aparece no vídeo utilizado como prova para a prisão. A Justiça acatou o pedido, revogou a prisão preventiva e a juíza Marcela Raia de Sant’anna até chamou o delegado de “açodado e despreparado para conduzir as investigações”.

Àquela altura, no entanto, nome, sobrenome e imagens do suspeito eram divulgados por veículos de mídia, perfis com milhões de seguidores nas redes sociais e por influenciadores. Em resumo, muito antes da conclusão do caso, a imagem do jovem foi rapidamente atribuída ao crime.

Mesmo que os vídeos obtidos indicassem com clareza ser Leonardo o responsável por arremessar a garrafa contra Gabriela, esta conclusão, bem como a punição devida ao autor do crime, caberia aos investigadores e à Justiça.

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Com o rosto conhecido em todo o país, o rapaz deixou a prisão na tarde de quarta-feira (12). O processo seguirá, e, até sua conclusão, o réu responderá em liberdade.

“Ele está bem transtornado por conta do receio, por estar fora do Estado dele. Tentamos falar com ele para acalmá-lo”, afirmou Renan Bohus, advogado de defesa, em entrevista coletiva. Abalada, a família do jovem considera a prisão uma injustiça, e o recebeu na quinta-feira (13).

A Trivela ouviu especialistas para entender, sob duas óticas distintas – a do Direito e do Jornalismo –, as implicações da pressa para se apontar culpados e por que ela é problemática.

Por que casos como este pedem cuidado

A prisão em flagrante e a soltura do torcedor do Flamengo reforçam que a prisão não pode ser a regra e nem ser feita de forma apressada, avalia Roberto Tardeli, advogado e ex-procurador de justiça.

A possibilidade de prisão e condenação de um inocente nos lembra a importância do devido processo legal e dos direitos e garantias fundamentais. Ninguém é a favor da impunidade e é exatamente para que os verdadeiros culpados sejam punidos que precisamos de uma investigação rigorosa e com amplos elementos de informação, e não só delação, por exemplo.”

A ampla divulgação da identidade de um suspeito por parte da mídia e da sociedade como um todo, como no caso de Gabriela, não somente atrapalha a investigação como quebra garantias constitucionais, aponta o advogado, como os direitos à privacidade, ao devido processo legal, à ampla defesa e à dignidade humana.

Tardelli pondera que o enfrentamento à criminalidade não pode passar pela “criação de monstros de laboratório”, mas por oferecer às pessoas comuns a sensação de que não haverá perseguições e injustiças para “justificar uma resposta social”.

“A função da Justiça, fundamentalmente, é impedir o erro judiciário”, comenta o ex-procurador, que destaca positivamente a ação do promotor do MP-SP, Rogério Zagallo, responsável pelo pedido de soltura do torcedor flamenguista. “Estamos vivendo uma fúria condenatória”, conclui.

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Mídia alimenta desejo apressado por justiça

Por serem tão potentes propagadores de informações e pela capacidade de formar opinião, os veículos de mídia, sobretudo os programas policiais de televisão, têm cumprido papel fundamental na divulgação precipitada da identidade de suspeitos. Assim, alimentam na população o desejo de uma resposta rápida para a criminalidade.

A quebra ao direito à privacidade, nestes casos, trata-se de um problema muito sério na mídia, avalia o professor de Jornalismo e de pós-graduação em Mídia e Tecnologia na Unesp Juarez de Paula Xavier.

Uma pessoa ser suspeita não significa que praticou o crime. Neste caso, independentemente da implicação direta da pessoa, deve ser tratada como suspeita, portanto sem a imagem publicada. Não deve ter sua imagem vinculada ao crime. A pessoa passa pelo processo legal e ao final é considerada ou não responsável pelo ato. Ter um cuidado com isso é fundamental.”

Avaliando o caso de Gabriela Anelli, o professor defende que o jornalismo especializado em esportes não pode se distanciar das práticas de ética do jornalismo profissional.

Dilcilene e Ettori, os pais de Gabriela Anelli - Allianz Parque
Pais de Gabriela Anelli estiveram no Allianz Parque na quinta-feira (Foto: Eduardo Deconto)

Xavier cita como exemplo o caso da Escola Base: em 1994, proprietários de uma escola paulistana, uma professora e seu marido foram alvos de acusações de abuso sexual de crianças de quatro anos. As notícias falsas, fruto de apurações falhas da Polícia e da imprensa, causaram revolta na população local, que depredou a instituição e ameaçou os donos.

“A Escola Base já deu pra nós uma lição significativa do poder que o Jornalismo tem de destruir pessoas e suas vidas. Neste caso, um risco é a criminalização da pessoa [perante à opinião pública], problema pessoal que se estende à família dela. No caso extremado, a informação má qualificada coloca em risco a vida dessa pessoa”, considera.

Tiago Leifert e críticas a torcidas organizadas

Tão logo a morte de Gabriela Anelli foi confirmada, na segunda-feira (10), o jornalista e apresentador Tiago Leifert fez um comentário com informações falsas, atribuindo à jovem uma espécie de responsabilidade por assumir o risco de estar em um local perigoso – o que não era verdade, cabe pontuar.

“A torcida do Palmeiras foi para cima deles e começou o confronto. Voaram estilhaços de vidro e pegaram nela. Ela é da Mancha Verde. Ela não estava na bilheteria entrando no estádio, estava do lado de fora junto com os torcedores que ficam do lado de fora. Tem uma boa parte da organizada que fica na rua para bater nas pessoas que passam”, disse Leifert durante uma transmissão ao vivo na semana passada.

Ao tomar ciência da desinformação que propagou, o jornalista gravou um vídeo horas depois para se desculpar pelo erro, mas insistiu nas críticas às torcidas organizadas.

“Infelizmente, hoje, quem é de organizada assume um risco. Uma organizada que vai ao estádio assume um risco. Todos os conflitos e confrontos que acontecem, todas as tragédias que acontecem, são com organizadas. Todas. E é disso que nós precisamos conversar”, disse.

Para Juarez Xavier, este comportamento degrada a atividade do jornalismo e a qualidade da informação.

“O princípio do jornalismo é apurar, apurar e apurar. Este caso é mais grave ainda por transformar a ignorância em argumento: se ignorou as informações, a presença dela (Gabriela) no local e a relação dela com a torcida organizada. Não se pode permitir esse tipo de ilação irresponsável”, afirma o professor.

Xavier pontua que, embora os episódios de violência envolvam frequentemente torcidas organizadas, generalizá-las não é papel de um profissional da informação. “Há um esforço por parte das torcidas organizadas em reconstruir suas imagens”, pondera.

Como estão as investigações

Conforme determinado pelo TJ-SP, a investigação prosseguirá com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. 

Porém, segundo o último contato da reportagem com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), na noite de sexta-feira (14), o DHPP ainda não foi notificado da decisão.

O torcedor flamenguista Leonardo F. X. S. continua considerado réu no caso, mas responde em liberdade.

Imagens compartilhadas nas redes sociais mostraram que várias pessoas atiraram garrafas em meio à confusão. Os vídeos chegaram ao MP-SP e à Polícia.

A Justiça acatou o pedido de soltura na semana passada em concordância ao argumento de que o rapaz preso e o homem que aparece nas imagens possuíam características físicas e vestiam roupas diferentes.

“A pessoa que arremessou a garrafa contra os torcedores palmeirenses trata-se de um homem que possui barba, sendo, portanto, fisicamente diferente do autuado, além de vestir camisa clara, diversa da camisa do time do Flamengo que o autuado vestia quando foi preso”, afirmou a juíza Marcela Raia de Sant’Anna, da 5ª Vara do Júri.

Em nota, a SSP-SP reforçou observar que a prisão do jovem suspeito ocorreu “dentro da legalidade”. Confira a nota da secretaria:

“A Polícia Civil do Estado de São Paulo, ciente do seu papel constitucional, com relação aos fatos amplamente divulgados pela imprensa em razão da prisão do suspeito que, em tese, vitimou fatalmente a torcedora, manifesta-se no sentido de corroborar a legalidade do auto de prisão em flagrante realizado pelo Delegado de Polícia diante dos elementos probatórios dispostos naquele momento, tanto que a prisão em flagrante, quando da audiência de custódia, fora confirmada pelo Poder Judiciário e convertida em prisão preventiva.”

Foto de Guilherme Padin

Guilherme Padin

Nascido em São Paulo (SP) e formado em Jornalismo pela Anhembi Morumbi, em 2017, Guilherme Padin escreveu para Footstats, FOX Sports, EL PAÍS Brasil e Portal R7. Participou da cobertura da Olimpíada de 2016, da Copa do Mundo de 2018 e cobriu os Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019, in loco.

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