Brasileirão Série A

Achou que SAFs iam ser soluções milagrosas? Esse Brasileirão tem um recado para você…

Botafogo, Vasco, Bahia e Cruzeiro são exemplos de que SAF não é a solução mágica, como foi vendido por aí, para o futebol brasileiro

A discussão sobre a entrada do modelo profissional ou empresarial de administração no futebol brasileiro gera debates tão acalorados quanto os duelos sobre lances polêmicos das mesas redondas de domingo à noite.

Quando o modelo da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) foi criado, em agosto de 2021, através da Lei 14.193, vislumbrou-se a possibilidade de uma revolução. Muitos torcedores imaginaram rios de dinheiro inundando os cofres de seus clubes do coração, contratações milionárias e o fim da era de vacas magras para alguns gigantes adormecidos ou atordoados.

Brasileirão foi choque de realidade para defensores assíduos das SAFs

A Série A do Campeonato Brasileiro de 2023 foi um choque de realidade para esta fase de implementação. Não existe almoço grátis, como gostam de afirmar os homens e mulheres de negócios, e o benefício pode demorar para aparecer em relação ao custo.

Um olhar maniqueísta e resultadista juramentado poderia condenar a experiência, sob a ótica da paixão de arquibancada. A SAF de melhor resultado no Brasileirão é a que terminará o torneio com a maior derrocada da história. O Botafogo liderou o campeonato da terceira à 33ª rodada, abriu uma vantagem de 13 pontos para o segundo colocado e fechou a penúltima rodada sem chances de ser campeão, além de correr riscos de perder a vaga direta para a fase de grupos da Libertadores.

O derretimento botafoguense certamente terá consequências financeiras para o proprietário da SAF Botafogo, o empresário norte-americano John Textor. Haverá queda de arrecadação em bilheteria, programa de sócio torcedor e a receita em dólares pela primeira fase de grupo da competição continental corre riscos. O impacto orçamentário será inevitável. Afinal, é um negócio. Quem investe busca retorno e se o retorno não aparece, os rumos são corrigidos.

Problema não foi apenas a SAF do Botafogo: longe disso

Outras duas SAF que deixaram torcedores esperançosos estão na berlinda em termos de tabela. O Bahia, adquirido pelo Grupo City, chega à última rodada como principal favorito ao rebaixamento. Um de seus concorrentes é o Vasco, cuja SAF é administrada pelo grupo 777 Partners, classificado como empresa “misteriosa” em reportagem recente do tradicional jornal “New York Times”.

Entre os gigantes do futebol brasileiro que adotaram o modelo SAF quem respirou aliviado a uma rodada do final foi o Cruzeiro. Garantiu-se na Série A, após uma temporada de mais baixos que altos, num modelo ainda cambaleante, que rendeu protestos contra quem dá o rosto ao projeto: Ronaldo Fenômeno.

Cuiabá e Red Bull Bragantino completam o sexteto de SAF na Série A. O Cuiabá foi comprado por uma família de empresários do ramo de borracha em 2009. O Bragantino foi comprado pela Red Bull em 2019 para queimar etapas que o time próprio não alcançava e chegar à Série A por um atalho. O Cuiabá passou sem sustos pelo campeonato, com um desempenho surpreendente. O Bragantino chegou a se candidatar ao título, mas derrapou na reta de chegada, embora esteja garantido na Libertadores de 2024.

Cada modelo de administração tem sua particularidade. A proposta do Bahia é muito diferente da do Cuiabá, a do Vasco não tem nada a ver com a do Bragantino.

Expectativa x realidade das SAFs é frustrante

Fato é que o modelo SAF gerou enorme expectativa de resultados imediatos entre os torcedores dos clubes que aderiram. Natural para quem vê o futebol como paixão. Resta saber se frieza da visão empresarial prevalecerá. John Textor deu alguns pitis de cartola das antigas quando o Botafogo começou a fazer água. O que será do Bahia em caso de rebaixamento? E o Vasco? Qual o projeto do Cruzeiro para 2024? Que rumos terão Cuiabá e Bragantino?

Modelos sem fins econômicos seguem ditando o ritmo no Brasil, o que é absolutamente natural e esperado. A modalidade empresarial precisa se adaptar a um sistema diferente. O paternalismo e a politicagem ainda reinam no futebol brasileiro. Mas o modelo vigente tem casos de sucesso que não podem ser desprezados. Cada um a seu modo. O Palmeiras, às portas de mais um título, acumula sucesso esportivo e financeiro. O Flamengo fatura cada vez mais e segue disputando. Athletico Paranaense e Grêmio têm mostrado administrações interessantes.

O que precisa entrar na cabeça dos torcedores e de alguns cartolas e jornalistas é que SAF não é sinônimo de sucesso. Não basta virar uma SAF no Brasil para decretar o surgimento de um Manchester City Tropical. Empresas também fracassam e fecham as portas. Não basta ser empresário para ter sucesso assegurado.

Outro detalhe: um gênio das finanças ou da administração não é necessariamente genial na gestão de um time de futebol. No Brasil o julgamento sumário de novas ideias é precipitado e cruel. É preciso dar tempo às SAF, mas sem que elas sejam impostas goela abaixo. Nada impede que um clube que siga no modelo sem fins econômicos possa ser bem administrado e ter resultados esportivos e econômicos capazes de sustentar um projeto vencedor em longo prazo.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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