Brasileirão Série A

A terceira reinvenção de Renato no Grêmio em 2023

Mesmo sem Renato Gaúcho na beira do campo, novo esquema tático rendeu ao Grêmio a goleada por 3 a 0 sobre o Cruzeiro

A goleada por 3 a 0 do Grêmio sobre o Cruzeiro passou por um aspecto fundamental. Pela terceira vez na temporada, Renato Portaluppi mudou o esquema tático de sua equipe, e com efeito positivo. Depois de uma sequência de más atuações, o Tricolor Gaúcho voltou a desempenhar bom futebol e empolgou a torcida presente na Arena.

A derrota por 2 a 1 para o Santos, na rodada anterior, deixou o treinador gremista inconformado. Durante a semana, Renato conversou longamente com os jogadores. Além de cobrar outra postura da equipe, o comandante entendeu que era momento de mexer em peças e na estrutura do time.

Dois jogadores considerados titulares absolutos até então foram para o banco de reservas: Bitello, que vinha de atuações abaixo do esperado e na última semana recebeu proposta do Feyenoord, da Holanda, recusada pelo Grêmio; e Ferreira, que falhou gravemente no gol da virada do Santos ao parar na jogada, imaginando que a bola tivesse saído pela linha lateral.

Sem os dois, o Tricolor iniciou o jogo diante do Santos sem pontas, no 4-4-2 losango. O meio de campo foi formado por três “volantes” — Villasanti, Carballo e Pepê — e Cristaldo como meia. No ataque, João Pedro Galvão foi o parceiro de Luis Suárez. Sem a bola, o posicionamento da equipe variou ao longo da partida. No início do segundo tempo, o Grêmio se defendeu com duas linhas de quatro, com Carballo recompondo pela direita e Galvão pela esquerda.

O novo sistema tático favoreceu algumas peças. Com mais liberdade, Carballo teve sua melhor partida com a camisa do Grêmio. Participou do primeiro gol ao roubar a bola no campo de ataque, e marcou o segundo em belo chute de fora da área após passe de letra de Suárez. Pepê, em retomada do ritmo de jogo depois de longo período parado por lesão, foi outro meio-campista que apareceu na frente para balançar as redes. Além da assistência, “El Pistoleiro” encerrou o maior jejum de gols da carreira e esteve melhor assistido pelos companheiros.

Alexandre Mendes explica novo esquema tático

Ainda que tenha trabalhado o novo desenho de time ao longo da semana, Renato cumpriu suspensão e não esteve presente na beira do gramado contra o Cruzeiro. O Grêmio foi comandado por Alexandre Mendes, que explicou a mudança tática na entrevista coletiva após o jogo. Segundo o auxiliar, a ideia era povoar o meio de campo, como forma de conter as fortes transições da Raposa, além de aproveitar melhor as características dos jogadores gremistas.

— O futebol é matemático. Quando a gente fala de superioridade numérica, a gente fala de matemática. Seja ela feita pelo lado ou pelo centro do campo. Nós conseguimos juntar três jogadores no setor de meio-campo defensivo, que são jogadores extremamente inteligentes e tem capacidade técnica muito boa. Incluímos nisso o Franco [Cristaldo], que tem capacidade técnica muito boa e é inteligente, e um posicionamento do João Pedro [Galvão]. Nós temos cinco jogadores, teoricamente, no setor de meio-campo. Mas não só no setor de meio-campo. Quando a bola roda pelo lado, nós tínhamos superioridade numérica pelo lado do campo.

Alexandre Mendes também reconheceu que Luis Suárez precisa de “companheirismo”, o que foi oferecido por João Pedro Galvão e pelos meios-campistas. O auxiliar ressaltou a qualidade desses jogadores vindos de trás.

— Quando você fala em volante, ‘ah, jogou com três volantes', você pensa logo na parte defensiva. E na realidade não, nós temos volantes que constroem, e constroem muito bem. Se tornam meias, às vezes se tornam atacantes. A aproximação desses jogadores como forma de surpreender o adversário é importante. O Renato treinou muito bem isso ao longo da semana. Os jogadores entenderam e compraram a ideia.

Mesmo que a ideia tenha funcionado bem, Alexandre Mendes não garantiu que ela será mantida para os próximos jogos. O auxiliar revelou que Renato trabalhou três sistemas táticos antes de enfrentar o Cruzeiro, e que a definição passa muito pela análise do adversário. Ainda ressaltou que as variações podem ocorrer com as mesmas peças.

Terceira reinvenção no ano

Essa não é a primeira vez que Renato reinventa o Grêmio na temporada. Em outras duas oportunidades, carências e oscilações do time fizeram o treinador mudar o esquema tático.

No início do ano, com as lesões de Ferreira e sem condições de contratar Michael, sonho de consumo de Renato, o Tricolor praticamente não contava com pontas de velocidade à disposição. Mesmo que tenha reclamado em várias entrevistas, o treinador foi atrás de soluções.

Primeiramente, sem abrir mão do 4-2-3-1, seu sistema padrão, Renato inovou ao utilizar meias pelos lados — Bitello pela direita e Vina pela esquerda. O esquema funcionou bem na reta final do Campeonato Gaúcho. Com ele, o Grêmio venceu o clássico Gre-Nal por 2 a 1 e passou por Ypiranga e Caxias para conquistar o hexacampeonato estadual.

Porém, os primeiros jogos do Campeonato Brasileiro e os confrontos com ABC e Cruzeiro, na Arena, pela Copa do Brasil, foram de desempenhos abaixo do esperado. No Gre-Nal do Brasileirão, Renato promoveu a segunda reinvenção da temporada. O novo esquema, com três zagueiros, transformou João Pedro e Reinaldo em alas, e aproximou Bitello e Cristaldo de Suárez. O Tricolor venceu o clássico por 3 a 1 e engatou uma sequência de bons resultados nas duas competições.

Com as lesões de Bruno Uvini e Kannemann, o retorno de Ferreira e as chegadas de Besozzi e Iturbe, Renato voltou a utilizar pontas em alguns jogos. Quando não teve Cristaldo, João Pedro Galvão atuou centralizado próximo a Suárez, mas sem mexer no restante da estrutura. Como não houve sucesso, o jogo contra o Cruzeiro marcou a terceira reinvenção do treinador na temporada.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho. Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Antes de escrever pela Trivela, esteve na Rádio Grenal e na RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
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