Brasileirão Série A

Paulo Junior: Nem Palmeiras esperava o 5 a 0, placar que mostra um 2023 que poderia ser, mas não foi

Palmeiras de Abel Ferreira goleou o São Paulo por 5 a 0 no Allianz Parque e mostrou o time que poderia ter sido, mas não foi, em 2023

O Palmeiras, meio do nada, não pela história e pela capacidade do time, mas pelos dois meses de futebol incerto dando no maior baixo-astral dessa era de tantos títulos, encontrou uma goleada histórica, a maior contagem já conquistada sobre o São Paulo, numa noite de clássico que de um lado vale por si só ­– carimbar o rival em 5 a 0 não exige maiores predicados para ser memorável ­–, mas de outro registra, relembra, o ano que poderia ter sido, mas não foi.

Porque mesmo passando longe de seus melhores momentos na temporada passada e atestando que não houve reposição à altura para jogadores negociados ou reforço do banco de reservas, o time está no terceiro lugar com o melhor ataque da tabela, mostrando no Choque-Rei a fluidez de seus grandes dias. Fez cinco, teve um anulado no início, e terminou o jogo, finalizado sem acréscimos no segundo tempo, apertando o campeão da Copa do Brasil em busca de mais um. Agora?

`Palmeiras demorou para finalmente ter sua maior vitória no ano

Tirar a maior vitória da temporada literalmente nessa altura do campeonato aparece como um alívio para tempos turbulentos, dos autoritarismos da presidente-patrocinadora a uma derrota de virada como mandante diante do frágil time do Santos, mas também alimenta um sabor agridoce de euforia que remete à frustração, ainda morando no tapa de Merentiel que achou o gol de Cavani, na absurda defesa de Romero parando o pênalti de Veiga. “No fundo, eu fico mais irritado com o jogo de ontem”, escreveu um amigo palmeirense, ainda no embalo da sequência de seis jogos sem vencer que custou a Libertadores e a longa distância para o sonho do Brasileiro.

Por esses dias, na virada de outubro para novembro, o Palmeiras esperava se preparar para ir ao Rio de Janeiro visitar o Botafogo como um caminhão de farol alto no retrovisor do líder, às vésperas de decidir a América. Não só está fora da final continental no Maracanã como hoje tem nove pontos de distância e um jogo a mais que o favorito, voltando às atenções para se firmar no G4 e pronto, feliz Natal. Nessa curva da rodada 30, o espelho alvinegro tem um pontinho de luz verde bem lá atrás, distante, perdido de vista quase que definitivamente.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

O ano “ruim” de 2023 prova que o Palmeiras pecou no planejamento, como torcida alertou

A temporada mostrou que havia razão no alerta para a falta de contratações que dessem conta da ambição do clube no ano. Danilo, volante convocado à seleção brasileira, jamais teve a ausência realmente suprida, e Artur não deu conta, ao menos por enquanto, de substituir a influência de Scarpa. A lesão de Dudu, a natural oscilação de jogadores como Veiga e Rony, e um impacto apenas comedido, gradual, de jovens talentos no time de cima cobraram a conta no momento em que o ano afunilou.

Para a grande atuação do ano, é verdade que diante de um São Paulo um tanto desinteressado em se mobilizar no campeonato depois de levantar a Copa, Abel Ferreira encontrou com Luan um encaixe que funcionou na variação entre ser o terceiro zagueiro e sair para bote como primeiro volante. Sem um centroavante de fato para marcar, a subida da zaga favoreceu o time triplamente: Zé Rafael e Rios conseguiram dominar o meio-campo com a bola, Mayke e Piquerez deitaram e rolaram como alas pelo corredor (até Marcos Rocha fez o dele por aí), e o trio de frente, Veiga, Endrick e Breno, não precisava recompor tanto acompanhando pelos lados.

Aliás, Endrick vale um parágrafo. Jogando na sua posição de preferência como poucas vezes o fez entre os profissionais – solto, móvel, sendo o camisa nove e também saindo para servir como segundo atacante ­–, fez bom jogo, facilitando demais as tramas do ataque. Precisou de 20 e poucos minutos para amarelar Beraldo, um dos melhores zagueiros do país, e impressiona como é fácil jogar de seu lado. Depois de ir para o banco ainda em março, no mata-mata do Paulistão, finalmente o time tem lampejos de entender como seu jovem craque pode ajudá-lo. Vai para o Real Madrid daqui a umas 40 partidas, se muito, e é inevitável a sensação de que o funcionamento da equipe no ano poderia ter passado mais por quem rendeu sua maior venda em todos os tempos.

O São Paulo correu atrás do Palmeiras: era esse o time que o palmeirense queria

O time de Dorival Junior correu atrás o tempo todo. Como já dito, não pareceu no nível de concentração que um clássico exige, um pouco por não ter grandes ambições na classificação, talvez também pela memória de ter ganhando duas vezes do Palmeiras em recente duelo pela Copa do Brasil. Entre a ressaca e o sossego, sacou Gabriel Neves com meia hora, perdeu Lucas, machucado, na sequência, e ainda teve Rafinha, mais experiente da defesa, expulso e pilhado acima do tom. Noite para esquecer, ou para lembrar que clássico não se leva com a barriga, se exige uma porção a mais de firmeza. Sempre é difícil manter o gás com a medalha no peito.

O São Paulo quer estourar a champanhe e esperar o sorteio da Libertadores (nessa semana Dorival Junior em entrevista já falava sobre que time usar no Estadual). O Palmeiras tem nove jogos para terminar a temporada recuperando a confiança e em melhor paz consigo mesmo. É curioso como a gente fala, fala e fala sobre futebol enquanto quem decide tudo é ele próprio, o jogo, vai saber sob que parâmetros. De um lado do muro, tudo revirado de ponta-cabeça; do outro, a paz de quem vive a lua de mel com sua torcida e sua história; num estalo, um 5 a 0 meio fora do tempo, imprevisível até um nada antes da bola rolar. Seguiremos conversando, mas quem grita é o campo, não nós para ele.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo