Brasileirão Série A

Posição do Palmeiras sobre paralisação seria a mesma se o Allianz estivesse alagado?

Diretor do Palmeiras usou comparações assimétricas, em falas que contrariam posições anteriores do clube como instituição

— A Sociedade Esportiva Palmeiras entende que não se deve parar o Campeonato Brasileiro.

Esta foi a frase do diretor de futebol do Alviverde, Anderson Barros, na zona mista de Palmeiras 0 x 2 Athletico-PR, pelo Campeonato Brasileiro, no domingo (12).

Barros foi escalado para ser o porta-voz de um posicionamento que deverá ser uníssono entre os membros da Libra, da qual fazem parte Corinthians, São Paulo, Flamengo, Atlético-MG e Red Bull Bragantino, entre outros.

As justificativas para a posição do Palmeiras foram muito desencontradas. Barros se complicou na explicação. Usou, por exemplo, uma lamentável falsa simetria ao equiparar o sofrimento dos rio-grandenses com dissabores que a paralisação do torneio poderia trazer.

Questão financeira não pode sobressair

— Será que todas aquelas pessoas que dependem do futebol seriam capazes de suportar um período de não futebol? Será que todos os trabalhadores que dependem do que está em torno do futebol seriam capazes de suportar o momento? Tivemos um exemplo recente e sabemos quanto os clubes sofrerem quando pararam — disse.

Não restam dúvidas de que paralisar o futebol pode trazer um desequilíbrio nos caixas dos clubes. Mas se há um clube que provou que é possível conciliar atitudes humanitárias com o balanço financeiro, esse clube é o Palmeiras.

Na época presidido por Mauricio Galiotte, o Palmeiras orgulha-se, com razão, de não ter deixado de pagar os colaboradores, e de tampouco ter feito demissões, durante a pandemia.

— Será que a melhor forma será com a paralisação do futebol? O Palmeiras deu exemplo na pandemia e estamos sempre preocupados com o que representa o futebol para todos. Essa tragédia poderá ser superada só com muito trabalho e dedicação — disse o dirigente.

Pois o exemplo dado naquele momento foi totalmente contrariado pelo novo posicionamento. E em uma comparação descabida.

Cenário é muito diferente

Na pandemia de covid, o futebol parou totalmente por 93 dias, cerca de três meses, portanto, entre 2020 e 2021. E, quando retornou, voltou sem público por mais 664 dias — 1 ano e nove meses. Consequentemente, sem arrecadação com ingressos. Que foi o que ampliou os rombos financeiros.

O cenário de 2024 é outro. A tragédia, desta vez, é concentrada em um só estado da União. E não se trata de algo que possa ser transmitido.

A paralisação no Brasileirão também certamente seria menor. A estimativa das autoridades do Rio Grande do Sul e de especialistas avaliam que a enchente vá durar cerca de 20 dias. Com um nível aceitável de normalidade retornando a Porto Alegre em um mês.

–- Acho que o mais importante nesse momento são as pessoas, todos que estão em torno do futebol. Que nós possamos estar sempre criando condições para os que estão em torno do futebol continuem e não percam. Imagine se todos forem prejudicados? — indagou Barros.

O discurso ignora, porém, que há mecanismos para que os tais sofrimentos sejam mitigados. Que fundos de auxílio podem se criados. Que assim como na pandemia, a Federação Paulista, a CBF e até a Fifa podem contribuir financeiramente com repasse de recursos. Caixa não falta para nenhuma das entidades.

A impressão que fica, traduzindo a fala de Barros, é que o sofrimento deve ficar concentrado apenas em Internacional e Grêmio. E que os demais clubes não devem ser impactados por uma tragédia que não os acometeu.

É por conta de pensamentos deste tipo que uma liga autônoma de verdade, na qual todos têm que pensar em todos, é uma mera utopia.

O que Abel diria?

O fato de dois clubes da Série A estarem sem condições de competir em pé de igualdade com seus pares, levando-se em conta os recursos individuais próprios, já é motivo mais do que suficiente para se parar o torneio. Se não há isonomia, não pode haver disputa.

Abel Ferreira reclama todas às vezes em que o Palmeiras tem de sair do Allianz Parque para jogar. Minutos depois de Barros falar com a imprensa, o treinador deu entrevista coletiva na qual usou o deslocamento e o jogo em Barueri — distante 33 quilômetros da casa palmeirense — como uma das justificativas para a derrota.

Diante disso, para usar o mesmo tipo de pergunta hipotética usada por Barros, será que o Palmeiras teria a mesma posição se o gramado do Allianz Parque estivesse submerso? Se parte de sua torcida estivesse desabrigada, e outra parte tivesse perecido por conta de uma tragédia?

Será que Abel aceitaria se mudar para o CT do Grêmio ou mandar jogos no Beira-Rio, por exemplo, para o campeonato não ter de parar e os outros clubes não perderem receita. O que diria Leila Pereira?

Nem é preciso usar muito a imaginação para se ter uma resposta, ainda que hipotética.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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