Gabriel Carneiro: a foto de Falcão que viralizou não quer dizer nada
Paulo Roberto Falcão viu os minutos finais de Wimbledon na zona mista do Morumbi antes do clássico contra o São Paulo e isso criou uma crise gratuita
Assim que você entra no estádio do Morumbi pelo portão principal, o do letreiro, o que sempre acontece com as delegações dos times que vão jogar por lá, existe um corredor em curva que dá acesso aos vestiários. As delegações desembarcam dos ônibus e passam por esse corredor todo estilizado para chegar ou no próprio vestiário, se continuarem andando reto, ou então numa sala que funciona como zona mista, onde passam e interagem funcionários dos clubes e imprensa antes, durante e depois dos jogos. Nessa zona mista há TVs ligadas, assentos, água e café disponíveis.
É uma dinâmica muito própria do Morumbi aquela que faz com que membros das delegações dos times batam o olho nas TVs depois de terminarem a curva do corredor e às vezes comentem algo sobre um jogo de futebol ou outro esporte que esteja passando. Normal, é sempre assim, segue a vida.
Só que parte da torcida, formadores de opinião e até do Conselho Deliberativo do Santos resolveram criar uma crise onde não tem.
O repórter do ge Eduardo Rodrigues flagrou o momento em que Paulo Roberto Falcão, coordenador de futebol do Santos, estava sentado num banco nessa zona mista assistindo o último set da final do torneio de tênis de Wimbledon. Os comentários do post do Eduardo no Twitter falam em “desrespeito”, “inadmissível”, “sem foco”, “não liga pro Santos” e muito mais.
Cena curiosa aqui na região da zona mista do Morumbi. Toda a delegação do Santos chegou, foi para o vestiário e Falcão sentou em uma das cadeiras pra ver o último set da final de Wiblendon pic.twitter.com/kwtvpzkaEw
— Eduardo Rodrigues (@eroliveira_) July 16, 2023
O caso foi o seguinte: o Santos chegou ao Morumbi, fez a curvinha da zona mista e quase toda a delegação entrou direto no vestiário. Falcão notou a TV ligada e em vez de seguir para o vestiário decidiu puxar um banco e ver o fim do jogo. Era o quinto set de Alcaraz x Djokovic, placar 5 a 3. Terminou 6 a 4. Dez ou 15 minutos depois, encerrada a final, levantou, cumprimentou um ou outro jornalista que estava por ali e caminhou em direção ao vestiário.
Gente que trabalha em clube me diz que esses primeiros minutos logo após a chegada da delegação a um estádio, de modo geral, é meio de organização: os jogadores conferem os armários, uniforme, roupa de aquecimento, chuteiras e começam a se trocar antes de subir para o gramado. Comissão técnica faz o mesmo, conversa entre si e, olha só, até para para assistir algum jogo que esteja passando na TV. Depois, é conduzido para a tradicional entrevista pré-jogo.
E dirigente… bom, dirigente fica de prontidão para cumprimentar dirigentes do time adversário ou fazer alguma ação institucional. Não tem função definida, pelo menos nesse primeiro momento de chegada ao estádio.
Depois do aquecimento dos jogadores, na preparação final minutos antes do jogo, há dirigentes que gostam de abordar jogadores, dar uma moral, alguma dica ou conselho. Mas isso depende muito do perfil do profissional.
O que eu quero dizer com todos esses bastidores do dia a dia comum de um time de futebol é que a cena de Falcão vendo os minutos finais de Wimbledon não quer dizer nada. É um julgamento vazio e descontextualizado esse de que o dirigente não está focado no trabalho porque viu o finzinho de um jogo de tênis, o que até entendo quando parte do ponto de vista do torcedor, bravo com a fase do time. Mas quando é formador de opinião e principalmente conselheiro do clube se posicionando fica difícil de engolir e abre margem para que se pensem outras coisas, essas verdadeiramente inadmissíveis, depois de uma goleada num clássico.
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Falcão no Santos: trabalho não parece bom
Minha crítica à reação da foto não significa que eu ache o trabalho de Falcão bom. Pelo contrário. Até agora, ainda que eu não tenha domínio do que são as funções de um coordenador de futebol dentro da estrutura do futebol profissional do Santos, considero altamente problemático.
Primeiro porque Falcão sustentou por muito tempo o ainda mais fraco trabalho de Odair Hellmann no comando técnico. Depois do Paulistão estava claro que não tinha dado match. Para substituí-lo, escollheu um Paulo Turra que até agora entregou muito discurso e pouco resultado. O quadro piora quando as informações dão conta de que o presidente Andrés Rueda centraliza decisões e Falcão às vezes nem fica sabendo.
A impressão muitas vezes é de que Falcão está boiando no que acontece nos bastidores do Santos. Aliás, nem é impressão, é informação: Falcão mostra no dia a dia do clube estar alheio à emergência da luta contra o rebaixamento. Mesmo assim, é defendido por Andrés Rueda e seu comitê de gestão e por enquanto não corre risco de perder o cargo.
O resumo aqui é: o gesto de Falcão seria interpretado de outra forma se a fase do Santos fosse outra. Oportunismo e crise gratuita são as últimas coisas que o Santos precisa no momento.



