Brasileirão Série A

Cruzeiro: Seabra defende escolhas ruins com afinco e convicção vira teimosia

O treinador do Cruzeiro apresentou justificativas para derrota contra o Criciúma, mas prática diferiu do discurso

O Cruzeiro foi derrotado pelo Criciúma, por 1 a 0, na noite dessa quarta-feira (3), no Heriberto Hülse, em partida válida pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro. Com escolhas muito criticadas para a partida, o treinador Fernando Seabra tentou se justificar na coletiva de pós-jogo, mas seus argumentos soaram como teimosia.

Há algumas partidas, Seabra tem que explicar algumas de suas escolhas e convicções, como, por exemplo, a titularidade da dupla Lucas Silva e Ramiro no meio de campo celeste. Outro ponto são as poucas oportunidades a certos atletas em detrimento de outros nomes.

Tem sido cada vez mais difícil sustentar esse discurso, pois o campo acaba falando mais alto, assim como foi contra o Criciúma.

Escolha de Palacios como titular x falta de ritmo de jogadores

A primeira pergunta foi em relação à controversa escolha de utilizar o lateral-direito colombiano Helibelton Palacios como titular.

Seabra deu a mesma justificativa que costuma apresentar quando escolhe um jogador questionado, decisões constantes e que normalmente não dão certo.

— O Palacios, embora pelo tempo que não jogava, vinha trabalhando bem e é um jogador que a gente acompanha bem as métricas de treino dele. Além disso, o Criciúma tem bolas áreas defensivas e ofensivas muito fortes e, para esse confronto específico, era importante a gente ter um jogador de linha que tivesse estatura — afirmou o treinador.

A primeira justificativa já é contraditória pelo fato de que a limitação de Palacios é conhecida e ele jogou apenas uma vez no ano, sem ter se lesionado, porque de fato não tem condições de defender o Cruzeiro.

O próprio Seabra não o utilizou nenhuma vez e quando quis colocar um lateral-direito em campo, colocou Wesley Gasolina.

Em diversas oportunidades, Seabra indicou “premiar jogadores pelos treinamentos”, o que não faz sentido se prejudicar o andamento do time. E Palacios, com dificuldades de se posicionar e temor de tentar algo diferente de passes curtos para trás, atrapalhou a coesão do Cruzeiro, totalmente bagunçado em campo.

Além disso, a bola jogada precisa ser o critério máximo no futebol. A dedicação é, sim, importante e até os craques precisam treinar bem, mas fazer escolhas prejudiciais ao time para provar um ponto não parece uma decisão sábia.

A segunda justificativa, da bola aérea, é um argumento compreensível, mas se torna mais fraco por não ser algo definitivo.

Se William tivesse disponível, a bola aérea não seria um problema comparado ao que ele pode entregar ao time, em especial sem reservas à altura. Com Palacios, isso não pode se sobrepor ao risco que sua escalação traria.

As contradições do discurso de Seabra

Quando questionado pela escolha de deixar Álvaro Barreal, antigo titular, mas que passou por problemas físicos nos últimos dias, no banco de reservas e utilizá-lo somente em meados da segunda etapa, Seabra apontou a queda no ritmo de jogo do argentino.

— O Barreal é um jogador que tem preferência por atacar pelo corredor lateral, mas pode fazer o meio espaço de forma posicional ou alternada. O Álvaro acabou tendo aquele pequeno incidente no joelho contra o Cuiabá e isso quebrou um pouco o ritmo de jogo. Ele poderia já ter retornado com mais minutos, mas no último jogo ele teve a virose também. Num primeiro momento de troca na equipe, a gente usou um jogador que vem numa crescente (Vitinho), que está com um pouco mais de ritmo, pra ele conseguir suportar um nível de intensidade do começo até o final — argumentou Seabra.

Mas esse discurso acabou se contradizendo com a primeira resposta, quando afirmou que mesmo sem ritmo, Palacios foi escolhido.

Na rodada anterior, contra o Flamengo, no Maracanã, Lucas Villalba, que vinha entrando nos jogos, perdeu a disputa pela vaga de Zé Ivaldo para Neris, que não vinha atuando, e que inclusive sentiu câimbras durante a partida.

Por que Lucas Silva saiu no intervalo?

Lucas Silva é um dos titulares mais criticados no Cruzeiro e mais uma vez fez uma partida ruim, o que tem sido algo constante. Foi substituído no intervalo e Seabra, ainda que o tenha tirado cedo, elogiou, com uma pequena crítica embutida.

— Eu identifiquei no Lucas um nível de desgaste muito grande, que estava prejudicando o nível de desempenho dele. Nesse sentido, ele teve um período útil de jogo num bom nível, mas menor do que ele é capaz de fazer — justificou o treinador celeste.

Era evidente o jogo ruim de Lucas e, ainda que Seabra não veja ganho em criticar seus jogadores publicamente, acaba passando uma impressão de teimosia.

O meio do Cruzeiro sofre com Ramiro e Lucas Silva, em especial nas transições adversárias.

Ainda que ocupem espaços, são pouco firmes na marcação, deixam espaços e erram tecnicamente em excesso.

E se o discurso fosse esse, mas, na prática, houvesse mudanças, a situação passaria despercebida. Mas o que acontece é que Seabra insiste nessa formação, mesmo contra adversários frágeis, e mesmo com Lucas Silva, segundo o próprio treinador, sentindo forte desgaste.

O que se viu foi um primeiro tempo perdido com a atuação do jogador e uma defesa do técnico que fica constrangedora após a bronca dada por Lucas Romero em seu capitão após uma das tantas não-contribuições de Lucas Silva com a defesa celeste.

Assista:

E sem abrir mão de sua dupla de volantes, Fernando Seabra acaba prejudicando o excelente Japa, um dos melhores jogadores do elenco e grande esperança de futuro, que já possui rodagem no profissional, com o próprio treinador.

Japa se recuperou de lesão há algumas semanas e entrou muito pouco depois disso. O ritmo que Seabra tanto valoriza para jogadores específicos e nem tanto para outros se torna mais um argumento para que o jovem não seja utilizado. Ainda que Palacios seja.

O que mais impactou na derrota do Cruzeiro?

Seabra também reclamou dos gols perdidos e da falta de um camisa 9, já que Juan Dinenno e Rafa Silva estão machucados.

Bem, Arthur Viana, de 20 anos, estava no banco, e entrou somente aos 43. Seabra não mente a dizer que se trata de um atleta que está chegando ao profissional agora, mas não viu problemas em escolher o sem ritmo e voltando de lesão Mateus Vital antes do garoto.

E olha o treinador acertou na análise de que o jogo do Cruzeiro pedia um centroavante, mas novamente mostrou confiar pouco nos seus ex-comandados do sub-20 celeste.

Além disso, é preciso responsabilizar os jogadores. Salvo exceções como Lucas Romero, os titulares da Raposa não tiveram um quinto da vibração que mostram quando jogam no Mineirão.

Talvez isso explique a ótima campanha em casa e os péssimos resultados fora.

Sem a torcida para lembrar os jogadores que eles não ganharão o jogo quando quiserem, as coisas não acontecem.

Não foi a primeira vez que os atletas da Raposa atuaram num ritmo abaixo do que o Brasileirão pede, fora de casa. Situação que não acontece no Gigante da Pampulha.

Enquanto os jogadores precisam de entrega em todo o tempo, Seabra precisa rever alguns critérios. Como dito anteriormente, treinamentos, liderança, quilômetros corridos tem sua importância. Mas o campo precisa falar mais alto. Quando não fala, critérios e convicções viram pura e simples teimosia. E todo mundo sai perdendo.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa é mineiro, formado em Jornalismo na UFOP, em 2019. Passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas, antes de se tornar setorista do Cruzeiro na Trivela.
Botão Voltar ao topo