Brasil

Por que querem (tanto) limitar o número de jogadores estrangeiros no Brasil?

Presença maciça de atletas gringos reacende debate sobre identidade e oportunidades no futebol nacional

Em 2024, o Campeonato Brasileiro contou com uma novidade em seu regulamento. A CBF atendeu a um pedido dos 20 clubes da Série A e aumentou o limite de estrangeiros por equipe de sete para nove jogadores.

A medida, apesar de aprovada por unanimidade entre os times e chancelada pela entidade na ocasião, tem sido motivo de polêmica na atual temporada.

Nomes importantes como Zico, Dunga e Dorival Júnior já se manifestaram publicamente a favor da redução de estrangeiros no futebol brasileiro. A principal justificativa usada por quem defende tal premissa? O número elevado de gringos vem supostamente atrapalhando o surgimento de novos talentos nacionais.

Esse é um grande problema para o futebol brasileiro. Precisamos reduzir o número de estrangeiros e trabalhar mais a base. Precisamos formar mais craques brasileiros para jogar nos times brasileiros — criticou Zico em evento realizado pelo Comitê Brasileiro de Clubes.

Dito isso, se há um ano, nove jogadores estrangeiros por time virava consenso nos corredores da CBF, hoje essa regra pode estar ameaçada. Em março, a pauta voltou a ser levantada no Conselho Nacional de Clubes (CNC). Segundo o “ge”, o debate nos próximos meses deve trabalhar com uma proposta de redução de nove para seis gringos.

Vale frisar que essa possível diminuição se refere aos relacionados para jogos, e não número total no elenco. Cada clube pode ter a quantidade de estrangeiros que desejar no plantel. Caso aprovada, a nova determinação só entraria em vigor a partir de 2027, garantindo tempo para planejamento e adaptação dos envolvidos.

Afinal, limitar estrangeiros é proteger os brasileiros ou evitar a concorrência?

Se o futebol é global, por que o Brasil pensa em “fechar suas fronteiras”? A limitação de gringos realmente protege o talento nacional ou esconde a falta de estrutura para desenvolvê-lo?

Brasileirão 2025 não é a edição com mais estrangeiros na história

No Brasil desde 2015, Arrascaeta é um dos principais jogadores do Flamengo
No Brasil desde 2015, Arrascaeta é um dos principais jogadores do Flamengo (Foto: Imago)

Até esta terça-feira (11), o Campeonato Brasileiro 2025 registra 139 jogadores estrangeiros que compõem os elencos dos 20 clubes. Só na primeira janela da temporada — de 3 de janeiro a 28 de fevereiro —, foram 44 atletas de fora contratados. Essa contagem considera também aqueles que já estavam no futebol brasileiro, como Canobbio (do Athletico para o Fluminense), e retornos de empréstimo, caso de Soteldo — do Grêmio ao Santos (agora está no Tricolor Carioca).

Ainda que alto, o número total (139) fica abaixo dos 164 gringos que atuaram no Brasileirão de 2024, quando o torneio atingiu seu recorde. A marca, no entanto, pode ser ultrapassada no decorrer da temporada, com a reabertura da janela internacional de transferências e a movimentação dos clubes em busca de reforços.

O Grêmio lidera a lista de times nacionais com mais estrangeiros no elenco: 11. Dos 20 participantes da elite, 19 têm ao menos um jogador “gringo”. O Mirassol, recém-promovido à Série A, é a única equipe com elenco 100% brasileiro — considerando que Chico Kim, apesar de ter dupla nacionalidade (brasileira e sul-coreana), nasceu no Brasil.

São ainda 16 nacionalidades diferentes que se fazem presentes no nosso futebol. O país que mais cede atletas ao Brasileirão é a Argentina, com 47, aproximadamente 34% do total de estrangeiros. Na sequência, aparece o Uruguai, com 28 (cerca de 20%).

As outras 14 nações que possuem representantes na primeira divisão brasileira são: Paraguai (15), Colômbia (14), Equador (8), Venezuela (7), Portugal (7), Chile (5), Angola (2), Dinamarca (1), Bélgica (1), Espanha (1), Holanda (1), Peru (1) e República Democrática do Congo (1).

Richard Ríos do Palmeiras no Mundial (Foto: Imago)
Richard Ríos do Palmeiras no Mundial (Foto: Imago)

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Entendendo a migração para o Brasil

São vários os fatores que ajudam a entender a migração de jogadores estrangeiros para o Brasil, sobretudo quando pegamos o recorte da América do Sul. O principal deles, claro, é o financeiro.

O Brasil tem a maior economia do continente, e isso se reflete na capacidade dos clubes daqui de oferecerem salários mais altos e contratos mais atrativos do que times de países vizinhos. É o que explica Marcelo Paz, CEO do Fortaleza, à Trivela.

— Temos uma moeda mais valorizada diante dos demais mercados, e conseguimos fazer bons negócios, abaixo do valor do mercado interno do Brasil, que acredito estar também superfaturado, tanto em relação ao valor do “passe”, quanto em relação a contratos e salários.

Ainda no aspecto financeiro, as premiações pagas pelas ligas nacionais ilustram perfeitamente essa disparidade insana entre nações. O Botafogo, ao conquistar o Campeonato Brasileiro de 2024 e encerrar um jejum de 29 anos, recebeu R$ 48,1 milhões de bonificação.

Já a LDU, campeã do Equador na mesma temporada, embolsou US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6,9 milhões na cotação atual). O Peñarol, por sua vez, arrecadou US$ 750 mil (R$ 4,2 milhões) pelo título do Campeonato Uruguaio — atualmente a terceira liga sul-americana com maior premiação.

O Brasileirão não só é o torneio nacional mais valorizado do continente em termos de direitos de TV, premiação e patrocínios — gerando receitas gordas para os clubes —, bem como é considerado uma das ligas mais difíceis e equilibradas do mundo. Isso atrai jogadores que buscam visibilidade (os que vislumbram uma transferência para a Europa) e evolução técnica na carreira.

Fora a infraestrutura de alto nível se comparada ao restante da América do Sul. Boa parte das equipes da Série A do Campeonato Brasileiro dispõem de centros de treinamento modernos, departamentos médicos avançados e uma estrutura de apoio profissionalizada.

E não são só jovens promissores que desembarcam aqui. Além desse perfil jovial, os clubes brasileiros vêm direcionando seus investimentos a atletas com maior bagagem internacional, sobretudo aqueles com experiência no futebol europeu. No ano passado, por exemplo, o Corinthians contratou o holandês Memphis Depay, de 31 anos, maior artilheiro da história da seleção de seu país.

Livre no mercado no momento da negociação, o atacante, que acumula passagens por Barcelona, Manchester United e Atlético de Madrid, acertou com o Timão graças ao auxílio de um patrocinador. Para garantir um salário dentro dos moldes europeus aos quais a estrela estava habituada, a equipe paulista precisou recorrer a tal “engenharia financeira”.

Engenharia essa, que não vem conseguindo honrar os pagamentos junto a Depay. O camisa 10, inclusive, chegou a notificar o Corinthians em relação a dívidas — especialmente os R$ 4,7 milhões referentes à premiação pelo título do Campeonato Paulista.

Depay celebra gol pelo Corinthians
Depay celebra gol pelo Corinthians (Foto: Imago)

Mais estrangeiros = Brasileirão mais atrativo?

Essa “internacionalização” do Campeonato Brasileiro nos últimos anos levanta a seguinte questão: o aumento de estrangeiros tem deixado o Brasileirão mais competitivo e atrativo? Para muitos, a resposta é sim.

O CEO do Fortaleza, Marcelo Paz, considera nove estrangeiros um número justo, e lembra que nas competições da Conmebol (Libertadores e Sul-Americana) não há limite para tal. Segundo ele, no final, o que importa é a qualidade do jogador e a liberdade de escolha do treinador.

— Tenho muito contato com outros dirigentes, acho que nove estrangeiros é uma quantidade boa no futebol brasileiro. Na Libertadores e Sul Americana podem jogar 23 estrangeiros, não há limite. E nas demais competições (da CBF), com o limite de nove jogadores, não necessariamente todos os estrangeiros estarão disponíveis naquele dia. Tem lesão, tem convocação, tem opção técnica do treinador. Não é algo que nos causa um problema, acima de tudo o que a gente quer é qualidade de jogador.

Questionado se não considera um nacionalismo exacerbado nesse debate, Marcelo disse entender o protecionismo com jogadores brasileiros, porém, recusa a ideia de que os estrangeiros dificultam o desenvolvimento dos locais.

Futebol brasileiro é competitivo o suficiente para que surjam novos talentos, e os jogadores possam se sobressair. Entendo que pode ser vista como uma medida protecionista, mas o critério atual limitante é o suficiente. E como disse, nem sempre todos irão jogar, apenas teremos essa opção no elenco.

Os argumentos para defender a não limitação de estrangeiros no futebol brasileiro:

  • Competitividade: Jogadores estrangeiros podem elevar o nível técnico dos clubes e, consequentemente, do campeonato como um todo;
  • Mescla de escolas: A entrada de atletas de diferentes escolas futebolísticas (como argentina, uruguaia e colombiana) enriquece o jogo e torna o produto (campeonato) mais atrativo;
  • Vitrine para exportação: Gringos que desembarcam e se destacam no Brasil podem ser revendidos para o exterior, gerando lucro para os clubes daqui;
  • Parcerias e marketing: Profissionais estrangeiros, especialmente de mercados estratégicos, podem ampliar a visibilidade internacional do clube e atrair novos patrocinadores e oportunidades comerciais.
Vegetti celebra gol pelo Vasco
Vegetti celebra gol pelo Vasco (Foto: Imago)

Gringos atrapalham os talentos nacionais?

Se tem os que defendem a presença maciça de jogadores estrangeiros no Brasil, há aqueles também que são favoráveis a uma redução no número atual.

Tetracampeão do mundo pela Seleção, o ex-zagueiro Ricardo Rocha é um exemplo disso. Em contato com a reportagem, ele, que atuou no Real Madrid entre 1991 e 1993, criticou a política vigente e traçou um comparativo com a época em que jogava.

— Sou favorável (a reduzir o número de estrangeiros). Porque nove estrangeiros dentro de um clube de futebol é muita gente. Eu fui estrangeiro, mas na minha época tinham muito poucos, sou da época que só podia jogar três estrangeiros. Joguei fora também, acho sim que tem que ter o estrangeiro, mas tem que ter um limite. Sou a favor da redução — defendeu.

Quem apoia a diminuição do número de atletas estrangeiros nos clubes brasileiros costuma basear seus argumentos na necessidade de incentivar o crescimento do futebol nacional e dar mais espaço aos jogadores formados localmente (promover os talentos nacionais). Desde o início do debate, a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) se mantém firme e não abre mão desse discurso.

— A Fenapaf tem manifestado sua preocupação com o aumento do número de atletas estrangeiros autorizados a atuar simultaneamente nas equipes do futebol brasileiro. Mantemos esse posicionamento por entendermos que essa medida impacta diretamente na formação e no aproveitamento dos nossos talentos nacionais — pontuou Jorge Borçato, presidente da Fenapaf, à Trivela.

Jhon Arias lamenta chance perdida durante jogo do Fluminense
Jhon Arias lamenta chance perdida durante jogo do Fluminense (Foto: Imago)

Para Jorge, o excesso de estrangeiros no país prejudica a seleção brasileira e favorece o desenvolvimento técnico de seleções rivais. Ele acredita que, ao ocuparem vagas que poderiam ser destinadas a jovens talentos nacionais, os gringos reduzem a minutagem de jogo e atrapalham o amadurecimento técnico desses atletas em início de carreira — interferindo diretamente na renovação e profundidade do elenco da Amarelinha.

— O Brasil sempre foi um celeiro de grandes jogadores, e o fortalecimento das categorias de base deve ser prioridade para garantir não apenas a renovação dos clubes, mas também da própria seleção brasileira. Quando ampliamos excessivamente a presença de atletas estrangeiros, corremos o risco de dificultar esse processo de formação, já que muitos jovens brasileiros acabam perdendo espaço e oportunidade de desenvolvimento em momentos decisivos de suas carreiras.

— Além disso, é importante destacar que, ao treinarmos e desenvolvermos atletas de outras nacionalidades, estamos muitas vezes contribuindo para o crescimento técnico de seleções concorrentes, enquanto enfrentamos desafios internos para renovar o nosso próprio elenco nacional.

Jorge garante que a Fenapaf não é contra a participação de estrangeiros no futebol brasileiro, mas defende uma revisão no limite atual. Segundo ele, embora a presença de atletas de fora seja bem-vinda e traga contribuições relevantes, é necessário buscar um equilíbrio que favoreça (ou ao menos não atrapalhe) o progresso dos jogadores nascidos aqui.

— Entendemos que o limite atual de nove atletas por jogo é superior ao que se pratica em diversas ligas de destaque no cenário internacional. Por isso, defendemos um reequilíbrio, de forma a preservar o espaço dos jogadores brasileiros e garantir um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do futebol nacional, tanto nos clubes quanto na seleção —concluiu Jorge.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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