Alexsandro revela bastidores da Seleção, ‘resenha’ com Ancelotti e sonho com clube brasileiro
Em entrevista exclusiva à Trivela, zagueiro do Lille conta bastidores da sua chegada à Seleção e até sonho de jogar no Flamengo
Da base do Flamengo à frustração de testes sem sucesso Brasil afora, Alexsandro Ribeiro foi encontrar respiro e a oportunidade da vida na terceira divisão de Portugal, aos 19 anos. Agora, a sete meses da Copa do Mundo, é um dos zagueiros que mais impressionou na Seleção sob o comando de Carlo Ancelotti.
Em entrevista exclusiva para a Trivela, Alex fala com orgulho de sua trajetória nada convencional no futebol. Descreve com detalhes a escalada árdua pelas divisões inferiores de Portugal, como chegou ao Lille por meio de um “bico” de olheiro do então desempregado Paulo Fonseca e os bastidores de um novato na seleção brasileira.
Alexsandro foi de camisa 10 a zagueiro em Portugal
Se Alexsandro é um zagueiro que impressiona pela qualidade com os pés e tem uma ambidestria que nem mesmo os bancos de dados de futebol conseguem decifrar, parte importante disso se deve às ruas do Rio de Janeiro. Antes de ter seus 1,92m de altura e ser uma força defensiva, foi o clássico menino carioca que jogava bola na rua.
“Eu me encontrei zagueiro com 14 para 15 anos, quando eu fui para o Flamengo“, começa. “Mas, antes disso, eu comecei como lateral-esquerdo, depois fui meia, jogo de 10, jogo de 11, enfim. Já joguei em todas essas posições e gostava”.
Como muitos garotos que crescem na puberdade e ficam mais fortes que os colegas, foi recuando cada vez mais. E quando se estabelece na zaga, leva a capacidade que adquiriu nas ruas. “Se eu não tivesse jogado muito futebol na rua e na quadra, isso não me daria a qualidade que eu tenho hoje”, diz o zagueiro.
A batalha para ser jogador profissional foi árdua. Um dos primeiros passos foi muito promissor, na base flamenguista, mas os seguintes quase o tiraram da rota — na verdade, apenas recalcularam. E ele foi para o outro lado do Oceano Atlântico:
“Eu rodei todo o Brasil fazendo testes e avaliações e as coisas não estavam acontecendo. O Léo Percovich (ex-treinador do Fluminense sub-20) me ajudou. Foi através de um amigo dele, que comprou uma porcentagem da SAD do Praiense. Decidiram me levar para para Portugal e aí começa a minha aventura lá, na terceira divisão”.
Foi uma aventura difícil, mas essencial e com muitos aprendizados. Mesmo com a pouca idade, entendeu como a vida de um jogador da terceira divisão portuguesa teria menos privilégios do que quando era uma joia da base carioca.
“Era diferente do que eu tinha quando eu jogava no Flamengo. Lá era muito confortável, vivendo um sonho. E saindo do meu país, onde tinha meus amigos e minha família… Sair daquele conforto foi o que me fez crescer”, conta Alex.
Ter ido para a Europa foi a melhor coisa que aconteceu com Alexsandro, segundo o mesmo. Fala com tranquilidade sobre a experiência, por mais difícil que tenha sido: do Praiense, na terceira divisão, foi ao Amora no ano seguinte e, depois, ao Chaves — quando ascendeu à primeira divisão de Portugal.
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Da segunda divisão portuguesa ao estrelato no Lille…
O salto foi direto. Não teve o progresso a uma prateleira intermediária. Alexsandro foi de jogador da segunda divisão em Portugal a jovem destaque do Lille, que havia sido campeão francês um ano antes da sua chegada.

Quem o levou à França foi, curiosamente, um português: Paulo Fonseca. Depois de deixar a Roma, o técnico passou um ano desempregado, mas não longe do futebol — foi a vários jogos, de todas as divisões portuguesas, identificar talentos. Foi assim que fisgou Alex e convenceu a diretoria do Lille a contratá-lo quando chegou ao clube, em 2022.
“Ele viu uns jogos meus, gostou e quando veio para o Lille, ele conversou com meus agentes e teve o interesse de me trazer. Conversou com o presidente e pronto“, conta o zagueiro, lembrando com um sorriso.
A relação com o treinador foi sempre amigável. “É um cara muito profissional, sério, muito rigoroso no dia a dia”, conta. Alex não mede palavras para elogiar o atual comandante do Lyon:
“Taticamente, é algo surreal. Não é à toa que quando você vê dentro de campo, o jogo dele é limpo. É uma qualidade fora do normal. O que ele traz para a gente, ele clareia muito dentro de campo, não tem como ficar perdido porque tem sempre conexões entre zagueiro, volante, atacante…”.
Seleção brasileira: surpresa e destaque
Em toda a sua carreira, Alex foi dirigido quase que só por portugueses. Bruno Genésio, francês e atual comandante do Lille, foi o primeiro a quebrar essa regra. O segundo foi Carlo Ancelotti, na seleção brasileira.
A chegada à Seleção, no entanto, foi uma surpresa completa. O zagueiro conta à reportagem os bastidores: sua única informação prévia veio do presidente do Lille, Olivier Létang, amigo de Ancelotti, que o avisou sobre a observação do italiano.

Alexsandro esteve na última pré-lista antes da chegada de Ancelotti ao Brasil, e era isso que mantinha suas esperanças de um chamado. Humilde, ele nem mesmo imaginava que poderia jogar na sua primeira convocação, quem dirá ser titular e destaque:
“Foi incrível ser convocado e ter estreado, porque não era algo que eu esperava também. Eu entendo que tem os caras que estão na minha frente, está tudo bem. Vou estar ali, ter oportunidade, vou dar meu melhor. E acabou que eu jogo os dois jogos da Eliminatória, ajudo a classificar para a Copa do Mundo, e sou eleito um dos melhores em campo nos dois jogos. Foi algo mágico para mim”.
O público brasileiro que não acompanhava Alex no Lille ficou surpreso com seu desempenho. Ele, no entanto, não. Sem modéstia e nem soberba, reforça: trabalhou tanto para chegar nesse momento que não esperava fazer diferente. Mas não vê problema em ser “desconhecido” — ao menos por agora:
“Eu ajo com naturalidade, porque é normal. Comparado com todos os caras que vão para a Seleção, todos jogam no PSG, Real Madrid, Arsenal, Manchester City e outros. E eu jogo no Lille, é normal que as pessoas não olhem, não me conheçam. A única coisa que muda é o escudo do clube”, reforça o zagueiro.
Resenha com Ancelotti, tática e bastidores da Seleção
Ancelotti tem uma mística que paira sobre sua figura. Uma aura misteriosa para quem não tem contato com o treinador. Alexsandro, no entanto, trata de desmistificar isso — seu contato foi puramente “normal”:
“Pelo menos comigo não, não tive resenha nenhuma com ele. Meu primeiro contato foi no jantar. Cheguei: ‘Boa noite, tudo bem? Prazer’. Falei da mesma forma com todos. Depois no outro dia teve treino e assim, normal, nada demais“, brinca o defensor.
O mistério, por outro lado, segue com os jogadores: Alex diz que, durante os treinos, o elenco não sabe quem vai jogar. “Ele monta, bota colete, tira colete, então, eu só soube um dia antes do jogo ou no dia do jogo de manhã”, explica.
“Eu, particularmente, não sabia de nada, não sabia que ia ser convocado. Na minha segunda convocação também. E as pessoas acham que a gente está fingindo. E não: eu não sabia na primeira convocação, não sabia na segunda, eu não sabia que ia jogar, eu não sabia se ia jogar na segunda convocação também“, revela Alexsandro.
Nas análises recentes da Seleção com Ancelotti, é possível notar a importância dos zagueiros no modelo de jogo do italiano. São eles os responsáveis por dar passes que quebram as linhas e gerar dinâmicas de terceiro homem para o time progredir pelo meio.
À Trivela, Alex revelou bastidores de como funciona a ideia do treinador: não houve uma comunicação direta com o zagueiro dizendo quais seriam as suas demandas, mas o modelo de jogo já se tornou natural pela qualidade do elenco.
Ele fala sobre a linha de três na construção e como, na maioria das vezes, um defensor deve ficar livre por superioridade numérica. Segundo o astro do Lille, é isso que o time tenta explorar.
“Todos os jogadores que estão na Seleção têm essa qualidade de progredir, de ganhar campo, dar passe entre linhas, então é algo natural que a gente trabalha no dia a dia. A gente vê os pontos mais frágeis do adversário e trabalha em cima disso. E muitas vezes sobra para a gente (zagueiros) essa responsabilidade, que eu gosto: ter a posse, dar um passe que vai quebrar linhas, que vai deixar meu companheiro em uma posição favorável”.
E como novato na Seleção, ficar impressionado com quem está ao lado é fácil. Alex não precisou pensar muito para dizer quem mais o deixou de queixo caído:
“O Vini! Tá doido. Aquele cara ali para marcar no treino é um absurdo. Tem o Raphinha que eu gostei muito também. E eu gostei muito do Luiz Henrique, o nosso Pantera. Monstro demais”.
Copa do Mundo, sonhos e volta ao Flamengo
Alexsandro foi convocado nas Datas Fifa de junho e setembro. Em outubro e novembro, lesionado, ficou fora. A impressão que fica é que, se não fosse a lesão na coxa, estaria mais vezes no time. Participar na Copa do Mundo ainda é seu maior sonho — e ele vive a dualidade da apreensão pela lesão, mas o trabalho mental de não deixar nada fugir do controle.
“(O sonho) é a Copa do Mundo, é o que eu mais quero. Esse momento de lesão me deixa mais estressado, ansioso. Acredito que se não fosse a lesão, poderia ter possibilidade de voltar mais vezes, mas preciso focar na minha recuperação. Se eu ficar pensando muito nessa situação, não vou conseguir me recuperar bem, porque, querendo ou não, é muito mental, tudo é mental”, desabafa o zagueiro.

O amor de Alex pelo Brasil é evidente. Na forma como ele fala da Seleção, o tempo que teve no Rio de Janeiro quando criança e até a forma de se vestir: atendeu a reportagem com um shorts de jogo da seleção brasileira, com seu número 15. Até houve a chance de jogar por Portugal, mas virou motivo de zoação entre os amigos.
O zagueiro está em processo para tirar seu passaporte português, mas não para ser companheiro de Cristiano Ronaldo — e sim para se tornar cidadão europeu e não ocupar vaga de estrangeiro no elenco. “O Brasil é o Brasil, tá doido?”, brinca o zagueiro ao rechaçar a chance de defender outro país.
E para quem nunca jogou no Brasil, viveu seus melhores anos na Europa, mas fala com tanto amor sobre o país: bate a vontade de voltar? A resposta é clara e o motivo tem nome: Flamengo.
“Claro, quero voltar para o Flamengo. Matar essa essa vontade, esse sonho, que eu tenho desde criança. Daqui uns aninhos, as coisas dando certo, a ideia é voltar para o para o Brasil. E gostaria de voltar para o Flamengo“.
Alex não esconde a paixão quando fala do Brasil. Seja a Seleção, o país ou o clube que quer defender. E o sorriso largo se despede acompanhado de um desejo: para voltar, por que não com uma Copa do Mundo na bagagem?



