Ásia/Oceania

Uma Copa para a história

No início, parecia um delírio, algo fantasioso. O Qatar, emirado com pouco mais de 11 mil km² e 1,6 milhão de habitantes, se inscreveu para concorrer a sediar a Copa do Mundo de 2022. Com pouca expressão no futebol, a Federação do país apostou em projetos ambiciosos e garotos-propaganda de peso, como Zinedine Zidane, para quebrar o ceticismo dos avaliadores da Fifa e conseguir ser o primeiro país do Oriente Médio a sediar um Mundial.

Dinheiro não seria o problema. Mesmo diante do cenário turbulento na economia mundial nos últimos anos, a candidatura do Qatar manteve-se firme. Estima-se que serão gastos US$ 4 bilhões (R$ 6,8 bilhões) para construir sete novos estádios e reformar outros cinco. Contra o fato de ser o menor país a abrigar uma Copa do Mundo, o Comitê Organizador mostrava projetos suntuosos e um povo apaixonado pelo futebol. A campanha relembrou que nomes consagrados do esporte nas últimas décadas estiveram por lá, atuando na liga local, ainda que em fim de carreira. Dentre outros, Claudio Caniggia, Marcel Desailly, Romário, Jay Jay Okocha, Fernando Hierro e os irmãos Frank e Ronald de Boer,

Contra a candidatura, um problema: as altas temperaturas nos meses de junho e julho, quando o termômetro passa facilmente dos 40º. “A candidatura do Qatar é uma miragem no deserto”, vaticinou a CNN, em maio. Problema? Não para o sonho Qatariano. Estádios climatizados, com temperatura ideal para a prática do jogo, como nunca houve em um Mundial.

Nesta quinta-feira, o que parecia impossível – ou, pelo menos, improvável – aconteceu. O Qatar foi confirmado para sediar a Copa do Mundo de 2022. Em seu planejamento, os estádios construídos terão um legado, não só para o país, como para outras nações em desenvolvimento. Assim como acontece com algumas arenas esportivas que serão utilizadas nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, alguns estádios serão modulares – e partes destes estádios serão doados para a construção de novos estádios em países emergentes, de acordo com a indicação da Fifa.

A comemoração varou a noite em Doha. Muitos não acreditavam na confirmação do país como sede da Copa e vibraram quando Joseph Blatter retirou o papel com o nome do país na solenidade em Zurique. “A festa está muito grande aqui. Eles amam futebol, sabem o quanto uma Copa do Mundo vai mudar o país”, disse Rodrigo Xavier, de 23 anos, jogador de futsal do Al-Sadd, há três temporadas no país. Xavier, que recebeu o passaporte Qatariano este ano, atuou pelo país no Grand Prix de Futsal, em Anápolis, há dois meses.

Para a fisioterapeuta Carla Pereira, também brasileira, a Copa de 22 será um sucesso. “Eles vão dar um espetáculo. Sem contar que é mais provável que as obras de infraestrutura, como novos aeroportos, novas estações de metrô e os estádios fiquem prontas aqui antes que no Brasil”, brincou Carla.

Os desafios

Com a confirmação do Mundial, com nada menos que 12 anos de antecedência, algumas questões precisam ser resolvidas. A primeira delas: fortalecer o futebol local. O país nunca se classificou para uma Copa do Mundo, e mesmo no cenário continental, aparece em um terceiro escalão. A partir do início de janeiro, o país recebe a Copa da Ásia de Nações, e agora, o selecionado de Bruno Metsu tem sobre si ainda mais pressão.

Será a oitava participação do Qatar na competição continental. A melhor campanha foi em 2000, quando o time chegou às quartas de final. As maiores conquistas do futebol Qatariano no continente foram os títulos da Copa do Golfo em 1992 e 2004.

O segundo desafio é o de fortalecer ainda mais a Qatari Stars League, a primeira divisão local. A atual temporada está na metade – 11 rodadas de 22 – e o Lekhwiya, promovido este ano, lidera com 26 pontos, contra 25 do Al Gharafa.

Passa por esse projeto o fortalecimento das categorias de base, para que a seleção principal não seja obrigada a naturalizar estrangeiros – na seleção convocada para a Copa do Golfo estão o brasileiro Montezine (lá, Fábio César) e o argentino Sebastian Soria.

Para muitos, o principal desafio está fora de campo. Apesar de já ter sediado uma Copa da Ásia, em 1984; e o Mundial Sub-20 em 1995; lguns setores mais tradicionalistas torcem o nariz para um evento tão “ocidentalizado” e de tamanho apelo como uma Copa do Mundo. “O que eles farão se uma mulher brasileira na Corniche (uma das principais avenidas de Doha, a capital do país) começar a dançar só de biquíni?”, perguntou um jornalista, preocupado também com os abusos de bebidas alcoólicas, normais em se tratando de torcedores de alguns países.

O xeque Hassan Abdulla al Thawadi, chefe da vitoriosa candidatura do Qatar, disse que o país vai liberar a venda e o consumo de álcool em zonas especiais, criadas para os visitantes.

Outro problema, este já solucionado, é político: apesar de não reconhecer o Estado de Israel, as autoridades do Qatar não vêem problemas em permitir a participação da seleção israelense em uma possível classificação para o Mundial. Em eventos de outras modalidades esportivas, atletas de Israel competem normalmente no país.

A jóia da coroa

O principal estádio do projeto da Copa de 22 é o Iconic Lusail, projetado para abrigar a partida de abertura e a final. Com capacidade para 86 mil pessoas, ele levará quatro anos para ser construído, devendo estar pronto em 2019. O estádio terá um ultramoderno sistema de ar condicionado para atletas e espectadores para diminuir a temperatura em pelo menos 20 graus, e será cercado pela água.

A escolha da Fifa vai ampliar o mercado do futebol do Qatar – e, por tabela, dos países vizinhos – nos próximos anos. Quebra alguns paradigmas, pode modificar com que se enxerga a paixão do povo do “mundo árabe” pelo futebol; mostra como se constrói estádios sustentáveis e com alta tecnologia e vai ao encontro do discurso da Fifa de levar a Copa do Mundo para todos os cantos do planeta.

As distâncias serão curtas, com menos viagens e menor desgaste. O país terá 12 anos para apresentar oportunidades de lazer e entretenimento para quem for visitar o Qatar. Acredito que será uma boa escolha.

Os estádios

Iconic Lusail (em Lusail) – 86 mil lugares
Sports City Stadium (em Doha) – 47,5 mil lugares
Al-Shamal Stadium (em Ash-Shamal) – 45.330 lugares
Umm-Salal Stadium (em Umm-Salal) – 45 mil lugares
Doha Port Stadium (em Doha) – 45 mil lugares
Education City Stadium (em Doha) – 45 mil lugares
Qatar University Stadium (em Doha) – 43,5 mil lugares
Khalifa International (em Doha) – 50 mil lugares (deverá ser expandido para 70 mil)
Al-Gharafa Stadium (em Doha) – 25 mil lugares (deverá ser expandido para 45 mil lugares)
Al-Rayyan Stadium (em Al Rayyan) – 25 mil lugares (deverá ser expandido para 45 mil lugares)
Al-Khawr Stadium (em Al-Khor) – 20 mil lugares (deverá ser expandido para 45.330 lugares)
Al-Wakrah Stadium (em Al Wakrah) – 20 mil lugares (deverá ser expandido para 45.120 lugares)

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Equipe Trivela

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