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Paulinho, ex-Vasco, conta como é jogar na segunda divisão japonesa

Com apenas três anos como profissional, o Tochigi é uma das atrações da segunda divisão japonesa. Após 25 rodadas, o clube ocupa a sexta colocação na tabela, com 42 pontos, e ainda luta por uma vaga na J-League em 2012, pois o Tokushima Vortis, terceiro colocado e último da tabela de classificação, soma 45, apenas três pontos a mais. Ainda restam 13 partidas para o fim do campeonato.

Um dos destaques da equipe vinha sendo o volante brasileiro Paulinho, ex-Grêmio e Vasco, que recentemente sofreu uma lesão e desfalca o time por algumas rodadas. Jogador voluntarioso e com boa técnica, Paulinho foi capitão do tricolor gaúcho na conquista do Campeonato Brasileiro sub-20, em 2008, e participou, no ano seguinte, do título do Vasco na Série B. Em entrevista à Trivela, ele fala um pouco mais sobre a carreira, e sobre o desafio de jogar a segunda divisão japonesa. Confira.

Como foi o processo de adaptação dentro de campo ao futebol japonês, e fora dele, à cultura do país?
Não foi fácil em relação à comunicação, e pelo fato de ser a primeira vez que jogo fora do Brasil, mas por outro lado, a vida no Japão é muito boa, a qualidade de vida que qualquer pessoa tem aqui é espantosa para um brasileiro. A calma, a educação, e o respeito são muito diferentes do que vemos por ai todos os dias! E aos poucos a gente vai se adaptando à comida, ao idioma, você vai processando melhor, mas hoje digo que a minha adaptação foi muito tranquila, meu estilo de vida combina muito com o que encontramos por aqui.

Você começou a carreira atuando mais avançado, como meia, depois passou a ser volante e chegou a ser lateral no Vasco em algumas oportunidades. Qual a sua real posição, onde você se sente mais à vontade?
Realmente eu jogava mais adiantado, como atacante ou meia, mas em uma oportunidade no Grêmio, no meio da partida o técnico Julinho Camargo (na época nos juniores do tricolor gaúcho) precisou de um volante, então me usou na posição. Fui muito bem, dei uma resposta muita positiva. Aconteceu de novo, ele precisou e me usou, novamente fui bem, ele me chamou e falou que gostaria de tentar me adaptar ali, eu gostei da ideia, pois como eu era meia, e o meia joga muito de costas, e o volante pega todas as bolas de frente, então pra mim foi muito produtivo e pro time também. Além disso, quando eu jogava de meia sempre ajudei muito na marcação, então era só corrigir alguns posicionamentos. Minha melhor fase no Grêmio foi jogando de volante, fomos campeões do Trófeu Dossena na Italia, da Taça BH e do Brasileiro sub-20, sendo que nas duas últimas eu fui capitão. No caso do Vasco, jogar de lateral foi uma “quebrada de galho” da minha parte, pois, os laterais estavam machucados e então me pediram para ajudar, e eu fui, mas não é a minha posição. Então respondendo a pergunta, eu sou volante, é onde me sinto bem em campo.

Ao contrário de outros jogadores que não tiveram oportunidades no Brasil, você atuou por Grêmio e Vasco antes de sair do país. O que te fez aceitar uma proposta da segunda divisão japonesa?
Na minha opinião, tudo tem seu tempo. Passei uma ótima fase no Grêmio, na base, subi para o profissional, e estava muito bem e muito confiante, mas até hoje eu não sei o que aconteceu direito, mas não me deram a chance que eu queria naquele momento, então fui para o Vasco, como uma aposta, disputando posição com jogadores que tinham nome no cenário nacional, então eu teria que fazer muito mais do que aqueles que estavam lá. Em alguns momentos achei que merecia chances, mas elas não vieram. Em outros vieram e aproveitei. Em alguns jogos também não consegui jogar o que eu queria, mas para mim foi muito boa a passagem pelo Vasco, um time de massa, um time que temos que sempre respeitar pelo seu tamanho, me deu muita bagagem, conviver com pessoas mais experientes no meio do futebol, ver e ouvir coisas da bola, isso faz a gente crescer. Aceitei a proposta por ser um desafio pra mim, subir o Tochigi SC e também me superar, morando em outro país, aprendendo outro idioma, conhecendo outras culturas, e creio que o Japão está evoluindo muito, o futebol daqui é bem parecido com o europeu, pois é rápido e muito tático, é uma boa experiência para quem sabe uma ida para a Europa.  Estou aprendendo muito por aqui e não me arrependo em nada do que fiz.

O Tochigi foi fundado em 1953, mas joga profissionalmente apenas desde 2008. Como está o clima no clube atualmente com a perspectiva de promoção para a J-League?
O clima não poderia ser melhor, todos na cidade estão empolgados com o time, pois o clube está realizando um trabalho excepcional, como você falou são três anos apenas de futebol profissional e ja está na briga para subir para a J1, a diretoria pensa grande e isso é muito importante, eles não se contentam em ficar na J2, querem crescer, querem algo a mais. E isso a gente vê muito claro por aqui, com pequenas melhoras no dia-a-dia, com busca por reforços, tanto jogadores quanto patrocinadores, hoje o Tochigi SC é um candidato muito forte pra subir pelo trabalho que todos vêm desempenhando, um conjunto de fatores que vem dando certo e tem tudo pra fechar com chave de ouro.

Recentemente, você declarou que pretende ficar no Japão ainda por muito tempo. O que mais te chama a atenção positivamente e negativamente por aí?
Minha vontade de ficar aqui é muito grande, me identifiquei muito com o país. Positivamente eu posso ficar aqui escrevendo páginas, mas o principal é: respeito (da população em geral, no transito, no estádio, no supermercado, respeito com idosos etc) ,educação, limpeza das ruas, povo acolhedor, profissionalismo, seriedade em tudo que se faz, e por aí vai. O futebol, falando do nosso trabalho, é uma coisa impressionante, temos que cumprimentar a torcida antes e depois dos jogos, ganhando ou perdendo a torcida aplaude, entende que isso é um trabalho como outro qualquer e tem dias que dá certo e dias que não dá. Eles entendem também que é um lazer, um esporte, vão ao estádio, vibram, torcem, gritam, mas quando acaba, eles se levantam e vão embora tranquilamente, sem brigas, sem empurrões, sem qualquer gesto de indisciplina. Negativamente na minha opinião, o calor, para nos adaptarmos por aqui não foi fácil, e ainda não é, o clima é muito úmido, não tem vento, para jogar e treinar é muito pesado, fica muito abafado e o ar se torna muito “pesado”. De negativo é só isso, terremotos eu nem vou citar, porque o pais é muito preparado para isso, só um tsunami para destruir o país, como aconteceu, mas agora com esse ocorrido já estarão preparados para uma próxima vez, tenho certeza.

Quais são as suas principais lembranças de Metropolitano, Grêmio e Vasco, clubes em que você atuou aqui no Brasil?
Os três clubes me trazem lembranças muito boas. O Metrô é o time que eu torço, é o clube da minha cidade, é o clube que um dia se puder eu quero ajudar, quero vê-lo bem no cenário nacional! E foi o clube onde o futebol profissional começou pra mim, foi pouco tempo, mas foi um tempo muito feliz! O Grêmio foi onde fiquei por mais tempo, foram quase quatro anos, de alguns altos e baixos, mas tive bons momentos por lá também, fiz grandes amigos e realizei um trabalho de base que todos deviam ter no Brasil, um trabalho que me dá estrutura até hoje E o Vasco eu diria que foi aonde eu cresci mais, mas como pessoa, ganhei experiência e base para lidar com certas situações que antes eu não teria, a oportunidade de jogar um Vasco x Flamengo no Maracanã com 40 mil pessoas foi o que mais me marcou, pela boa atuação que tive e pelo espetáculo que foi.

Você estreou nos profissionais do Metropolitano-SC aos 15 anos de idade. Olhando para trás, você acha que isso ajudou ou atrapalhou em sua carreira?
Na minha opinião ajudou, pois, com 15 anos e convivendo com pessoas de 20 a 35 anos, isso te faz crescer muito, tive que amadurecer “na marra” , aproveitava muito as conversas e os conselhos, ouvia muito mais do que falava, e com certeza o Metrô ajudou e muito a formar o caráter que tenho hoje. Eu sou cristão e acredito muito em Deus,  ele sabe a hora certa de tudo acontecer, talvez se eu continuasse no meio do futebol profissional e não tivesse um trabalho de base, poderia sim me atrapalhar, mas com a minha lesão, dei alguns passos para trás, mas hoje enxergo que valeu a pena, pois ganhei força (nos dois sentidos) nesses quatro anos de base no Grêmio.

Em 2008, você foi campeão brasileiro sub-20 com o Grêmio, num time que tinha Bruno Renan, Mithyuê e Rafael Martins, entre outros jogadores promissores. Apenas o Bruno Collaço, porém, teve uma sequência de jogos nos profissionais. Por que, na sua opinião, isso aconteceu?
Pra mim foi uma questão de oportunidades e também de política, pois, naquele ano, houve trocas na direção e na comissão técnica, e alguns jogadores foram “esquecidos” porque os novos comandantes não os conheciam. Mas hoje cada um está buscando seu rumo, muitos estão fora do país, e jogando, é isso o que importa.

Nesse tempo em que você está no Japão, já houve propostas de algum time da primeira divisão? E do Brasil? Algum time já te procurou para te repatriar?
Até onde eu sei não houve, os times japoneses são muito discretos em relação a isso. Mas eu creio que em breve teremos algumas propostas sim. Procurar fazer as coisas certas, sempre com humildade e muito empenho que as coisas acontecem naturalmente.

No início do ano, o Japão passou por uma grande tragédia natural, o tsunami que matou milhares de pessoas e gerou também consequências a longo prazo, como o vazamento radioativo. Em algum momento, você pensou em voltar por causa disso?
Foi uma situação que nos assustou, porque a gente não sabia o que estava acontecendo ao certo, as informações vinham pela metade, o governo demorou a falar e era difícil para o japonês, imagina para os brasileiros. Sabíamos das notícias que saíam nos sites aí do Brasil. Ficamos com medo sim, medo da explosão da usina que seria uma catástrofe fora do comum, uma situação em que você não pode fazer nada. Eu e o Lobo, o outro brasileiro que joga no time, decidimos pedir para ir para o Brasil até a poeira baixar, até porque o Lobo mora com sua família aqui, filha e esposa, então a preocupação era maior. O clube topou e fomos para o Brasil, mas uma semana depois voltamos com tudo se normalizando, um receio em relação à usina, mas que logo se foi, pois conseguiram contornar toda a situação. Em nenhum momento pensei em não voltar mais, passados seis meses da tragédia o país já está voltando ao normal, dizem que para reconstruir tudo levará cinco anos, mas se tratando de japonês eu aposto em três anos ou menos.

FICHA

Nome: Paulo Roberto Gonzaga
Data de nascimento: 26/janeiro/1989, em Blumenau (SC)
Clubes: Metropolitano-SC (2004 a 2005), Grêmio (2005 a 2008), Vasco (2009 a 2010) e Tochigi-JAP (Desde 2010)
Títulos: Campeonato Brasileiro sub-20 (2008) e Série B (2009)

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Equipe Trivela

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