O Ventforet Kofu, da segundona, transformou a Copa do Imperador em seu conto de fadas ao levar a taça
O Ventforet Kofu faz uma campanha ruim na segunda divisão japonesa, mas atormentou os adversários da elite e ficou com o título inédito

A Copa do Imperador costuma consagrar o primeiro campeão do ano, com a realização da final tradicionalmente em 1° de janeiro. Por causa da Copa do Mundo, o calendário japonês adiantou os trabalhos e a decisão ocorreu neste final de semana. Coroou uma equipe bastante surpreendente, que se coloca nos livros da competição. O Ventforet Kofu faz uma campanha sofrível na J-League 2, a segundona do Campeonato Japonês, no modesto 18° lugar entre 22 times. Por mais que os tricolores não corressem mais riscos de rebaixamento, vinham de uma sequência de 11 rodadas sem vitórias na liga, com seis derrotas consecutivas. Pois a equipe virou a chavinha na Copa do Imperador e buscou o título inédito. O Ventforet tinha eliminado quatro adversários da elite nas fases classificatórias, até a decisão contra o Sanfrecce Hiroshima, que se destaca na J1. Os azarões se deram melhor ainda assim, com a vitória nos pênaltis por 5 a 4 após o empate por 1 a 1 na final, realizada em Yokohama.
O Ventforet Kofu é um clube de projeção limitada no Campeonato Japonês. Desde a profissionalização da liga nos anos 1990, os tricolores permaneceram grande parte do tempo na segunda divisão. A estreia na elite aconteceu em 2006, mas o time nunca passou de um 13° lugar. Estabeleceu-se como um ioiô, com oito campanhas na primeira divisão, entre quedas e subidas. Depois de cinco anos consecutivos na primeira prateleira, porém, o descenso em 2017 resultou numa estadia na segundona que dura desde então.
Embora o Ventforet costume frequentar a parte superior da tabela na segundona, a campanha atual passa longe dos melhores momentos do clube. O atual 18° lugar é a pior colocação da história da equipe na J2 desde que se profissionalizou. Até por isso, uma trajetória marcante na Copa do Imperador parecia difícil. Nunca o Ventforet havia passado das quartas de final na competição. Mesmo assim, conseguiu surpreender os oponentes da primeira divisão, fase após fase.
Nos 16-avos de final, a primeira vitória do Ventforet Kofu contra um oponente da elite veio com os 2 a 1 sobre o Hokkaido Consadole Sapporo. O Sagan Tosu se tornou vítima nas oitavas, com o triunfo dos anfitriões por 3 a 1 em Kofu. A zebra se tornou maior nas quartas, fora de casa contra o Avispa Fukuoka, em 2 a 1 selado na prorrogação. Já nas semifinais, a magia dos azarões se tornou ainda mais expressa com o 1 a 0 sobre o Kashima Antlers em Ibaraki. Restava só mais um compromisso para a consagração.
O oponente na final demandava respeito. O Sanfrecce Hiroshima tem três títulos da Copa do Imperador em sua história e oito do Campeonato Japonês. Mesmo fora da briga pelo título, é o terceiro colocado na atual J-League. É verdade que os violetas não conquistam a copa nacional desde 1969, nos tempos em que ainda se chamavam Toyo Kogyo – empresa que se tornaria a Mazda e que permanece no controle do clube. Desde então, o Sanfrecce acumularia oito vices na Copa do Imperador, cinco deles nos tempos de J-League. De qualquer maneira, este parecia o momento mais propenso a mudar essa história.
O Estádio Nissan, em Yokohama, recebeu 38 mil torcedores para a decisão – a maioria deles saindo de Kofu. E o Ventforet começou a indicar que a zebra era possível aos 26 minutos, com o gol de Kazushi Mitsuhira. No segundo tempo, quase o brasileiro Willian Lira ampliou, em foguete que bateu no travessão. O Sanfrecce Hiroshima conseguiria o empate aos 39 da etapa final, em passe do também brasileiro Ezequiel para um chute forte de Takumu Kawamura. Já na prorrogação, o Ventforet sobreviveu ao drama. No primeiro tempo extra, Makoto Mitsuta mandou uma bola no travessão para o Sanfrecce, em cobrança de falta. Já no segundo tempo, os violetas ganharam um pênalti. Mitsuta mirou o canto, mas o goleiro Shuhei Kawata espalmou e garantiu a sobrevida ao seu time.
A definição do campeão da Copa do Imperador viria mesmo nos pênaltis. Os brasileiros Willian Lira e Getúlio converteram as duas primeiras batidas do Ventforet Kofu. As duas equipes balançaram as redes nas três primeiras séries, até que o Sanfrecce Hiroshima desperdiçasse seu quarto chute, quando Kawamura parou em mais uma grande defesa de Kawata. Toshiki Ishikawa botou o Ventforet na frente, Mitsuta empatou ao Sanfrecce e o título acabou confirmado no último tiro dos tricolores. A honraria coube a Hideomi Yamamoto, uma bandeira em Kofu. O defensor de 42 anos está no clube desde 2003 e sublinhou seu papel histórico, antes de erguer o troféu como capitão.
Quatro brasileiros participaram do título do Ventforet Kofu. O zagueiro Eduardo Mancha, ex-Guarani, foi titular na defesa. Já no segundo tempo entraram o lateral Foguete (base do São Paulo), o centroavante Willian Lira (de passagem mais recente pelo Ferroviário) e o atacante Getúlio (que defendeu o Vasco neste ano, após longa passagem pelo Avaí). Ainda vale citar Bruno Paraíba, autor de dois gols na classificação diante do Sagan Tosu nas oitavas de final, mas que deixou o clube em setembro, ao final de seu empréstimo junto ao Figueirense.
Para se ter uma ideia do tamanho da raridade do feito alcançado pelo Ventforet Kofu, desde a criação da J-League, apenas uma vez um time da segunda divisão tinha conquistado a final da Copa do Imperador. Foi em 2011, quando o FC Tokyo bateu o Kyoto Sanga numa final entre oponentes da segundona. Em 101 anos de história do torneio, considerando também os tempos amadores, apenas quatro vezes um time do segundo nível ergueu a taça. Mesmo assim, nas três vezes anteriores que isso tinha acontecido, o campeão também selou o acesso à elite na mesma temporada. Nem de longe é o caso do Ventforet.
A façanha do Ventforet Kofu está gravada, mas o time garante outro grande momento para 2023: o campeão da Copa do Imperador herda uma vaga na Champions Asiática. Será a estreia da equipe na competição continental. O desafio deve ser ainda maior pelo fato de conciliar a disputa internacional com a segundona mais uma vez. De qualquer maneira, a possibilidade oferece ares mais fantásticos ao conto de fadas concluído neste final de semana em Yokohama.
And emotional Kofu supporter witnesses his team win its first major title. This is why we love the beautiful game ??????
pic.twitter.com/xtcLWtmQ9z— J. Football Now (@j_football_now) October 16, 2022



