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O futebol japonês se despediu nesta semana de um gigante local: o artilheiro Hisato Sato pendurou as chuteiras

A J-League se encerrou no último final de semana, com a conquista do Kawasaki Frontale assegurada por antecipação. Os últimos dias, então, se tornaram de despedida no futebol japonês. E um dos maiores atacantes da história da liga local decidiu pendurar as chuteiras ao término da temporada. Hisato Sato já não atuava na primeira divisão, ao retornar para o JEF United Chiba, onde iniciou a carreira. Ainda assim, construiu uma trajetória respeitabilíssima na elite do Campeonato Japonês. O atacante de enorme qualidade e faro de gol conseguiu três títulos nacionais e transformou a história do Sanfrecce Hiroshima. Além disso, é o segundo maior goleador da história da J-League – com 161 tentos, atrás apenas dos 185 de Yoshito Okubo.

A paixão de Hisato Sato pela bola começou na infância, nas brincadeiras com o irmão gêmeo Yuto – que também se tornaria jogador profissional. Os dois começaram a carreira no futebol escolar do Japão, até ingressarem nas categorias de base do JEF United. Enquanto Yuto era meio-campista, Hisato atuava como atacante, seguindo os passos de seu ídolo Kazu Miura. Membro das seleções de base, Hisato se profissionalizou em 2000 e fez sua estreia na J-League aos 18 anos. Também anotou o primeiro gol naquele ano. Porém, o atacante logo se separaria do irmão. Enquanto Yuto permaneceu lutando por seu espaço no meio-campo do JEF United, Hisato acabou se transferindo à segunda divisão. Jogou por um ano no Cerezo Osaka, onde os problemas de saúde atrapalharam sua sequência, antes de defender o Vegalta Sendai.

Hisato Sato passou duas temporadas em Sendai. Não evitou o rebaixamento do Vegalta no primeiro ano e nem ajudou com o acesso no segundo. Em compensação, seus gols começaram a garantir sua fama e ele acertaria a transferência para o Sanfrecce Hiroshima em 2005. Até aquele momento, os violetas costumavam frequentar o meio da tabela na J-League e tinham passado recentemente pela segundona. O novo atacante causou impacto imediato, com 18 gols na campanha de estreia. Embora o Sanfre não tenha passado da sétima colocação, o artilheiro da equipe foi eleito ao 11 ideal do campeonato e logo ganharia as primeiras chances com Zico na seleção principal.

O desempenho de Hisato Sato se manteve alto no Sanfrecce Hiroshima. O atacante repetiu os 18 gols na segunda temporada, inclusive quebrando o recorde de tento mais rápido da J-League – uma marca que permanece ainda hoje. Porém, acabou de fora na convocação final à Copa de 2006. O consolo viria com a presença na Copa da Ásia de 2007, na qual os Samurais Azuis caíram nas semifinais. Já uma grande decepção no clube aconteceu na sequência daquele ano: apesar do vice na Copa do Imperador, o Sanfre terminou rebaixado à segundona. Mesmo com outras propostas, o artilheiro decidiu ficar em Hiroshima para ajudar na reconstrução.

O Sanfrecce Hiroshima subiu de imediato, com o título da segunda divisão do Campeonato Japonês. Hisato Sato protagonizou a campanha com 28 gols em 40 partidas, tornando-se artilheiro da competição. E a ascensão dos violetas seria marcante a partir de então. Logo na temporada de retorno, o Sanfre terminou na quarta colocação da J-League, o que garantiu a presença inédita na Champions Asiática. Nos dois anos seguintes, o clube repetiu o sétimo lugar, além de ter sido vice na Copa da Liga. Sato mantinha seus dois dígitos no número de gols. Até que o ano de 2012 guardasse o ápice ao goleador.

Hisato Sato com a Salva de Prata da J-League (JIJI PRESS/AFP via Getty Images/One Football)

Pela primeira vez em sua história, o Sanfrecce Hiroshima conquistou a J-League. Somou 64 pontos, sobrando no topo da tabela. E o grande nome da campanha foi mesmo Hisato Sato. O atacante anotou 22 gols, terminando com a artilharia da competição. O capitão violeta também foi eleito ao 11 ideal e ainda por cima recebeu o prêmio de melhor jogador do país. Os números e a liderança expressa dentro de campo enfatizavam sua importância. Mas, aos 30 anos, o atacante também jogava o fino pela qualidade de seus lances. Mais do que um matador oportunista, Sato unia velocidade e muita qualidade para bater na bola. Assim, os golaços eram frequentes, principalmente por suas acrobacias.

Aquele título deu ao Sanfrecce Hiroshima o direito de disputar o Mundial de Clubes, mas a equipe acabou eliminada nas quartas de final. Sato anotou três gols e acabou como um dos artilheiros do torneio. Já em 2013, o Sanfrecce Hiroshima conseguiu o bicampeonato na J-League. Sato não foi tão brilhante quanto na temporada anterior, mas de novo teve papel central com seus 17 gols. E sua importância não se restringia ao clube: naquele mesmo período, o artilheiro também foi escolhido para presidir a Associação de Futebolistas Profissionais do Japão.

Faltou um pouco mais de sorte a Hisato Sato nas copas nacionais, com novos vices na Copa do Imperador e na Copa da Liga. O tricampeonato na J-League também não foi imediato, com a modesta oitava colocação em 2014 – ano em que Sato disputou o Prêmio Puskás. Contudo, o Sanfrecce Hiroshima se reergueu em 2015. O time treinado por Hajime Moriyasu levou seu terceiro título japonês. Hisato Sato contribuiu com mais 12 gols, completando seu 12° ano consecutivo com dois dígitos de tentos no futebol japonês – um recorde na liga local. Os violetas de novo representaram o país-sede no Mundial de Clubes em 2015 e terminaram na terceira colocação, dando trabalho ao River Plate na semifinal. Era o reconhecimento à equipe que, além de Sato, contava com outros nomes expressivos – como Toshihiro Aoyama, Tsukasa Shiotani e o atacante brasileiro Douglas.

A partir deste momento, Hisato Sato se tornaria menos frequente entre os titulares do Sanfrecce Hiroshima. Em 2016, frequentando o banco de reservas, viu seus números despencarem e disputou sua última temporada pelo clube. Apesar do desejo da diretoria de que ficasse, Sato preferiu buscar novos rumos à carreira. O atacante se transferiu em 2017 ao Nagoya Grampus e, com 35 anos, contribuiu ao retorno da equipe à primeira divisão. Passaria mais um ano por lá, antes de retornar ao JEF United em 2019. Reencontrou-se com o irmão Yuto Sato, que disputou apenas duas temporadas fora do clube e é um símbolo em Chiba. Juntos, figuraram na segundona, mas sem conquistar o acesso. Foram dez partidas e dois gols de Hisato em 2020, até o adeus aos 38 anos.

Por ter passagens curtas pela seleção japonesa, Hisato Sato não é um nome tão conhecido fora do país. Em compensação, seus feitos na J-League estão na história. Superou as 400 partidas na primeira divisão, com 161 gols. Somando também a segundona, foram 220 tentos pela liga nacional. Além disso, também é o maior artilheiro da história da Copa da Liga, com 29 gols. Tem marcas notáveis e também viveu grandes momentos. Vai como um gigante no Campeonato Japonês, especialmente pela maneira como ampliou os horizontes do Sanfrecce Hiroshima.

Nesta semana, outro grande jogador do futebol japonês a se aposentar foi o goleiro Hitoshi Sogahata, nome histórico do Kashima Antlers e maior vencedor da J-League. Fica a recomendação de leitura ao ótimo blog Futebol no Japão, de Tiago Bontempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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