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O futebol de Butão fez história no cinema muito antes do que nas Eliminatórias

O Butão viveu uma história digna de cinema nos últimos dias. A pior seleção do Ranking da Fifa iniciou sua primeira participação na história das Eliminatórias com uma façanha. Por mais que o Sri Lanka não seja bem uma grande seleção, os butaneses derrubaram os favoritos. Venceram por 1 a 0 em território inimigo e ratificaram a classificação para a segunda fase do torneio nesta terça, com mais um triunfo, desta vez por 2 a 1. Roteiro digno de Hollywood. Ou melhor, do próprio cinema do Butão. Afinal, primeiro filme produzido pelo país asiático falava justamente sobre futebol.

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Lançado em 1999, “A Copa” (ou Phörpa, o nome original) conta a história de um garoto de 14 anos. Fanático por futebol, ele veste camisas da seleção brasileira com o nome de Ronaldo (na realidade, uma camiseta amarela com inscrições feitas com caneta hidrocor) por baixo das túnicas budistas. E fica em transe com o início do Mundial de 1998, transformando o futebol em febre no mosteiro onde vive. Há um choque com e os costumes rígidos do local, a ponto de alguns garotos fugirem para assistir aos jogos em casas da vila mais próxima. O filme ainda trata sobre questões mais amplas, como a relação com os budistas tibetanos e a ocupação chinesa no Tibet – na comédia, o menino torce pela França, porque o país é o único a reconhecer como legítima a causa tibetana.

A história foge do formato típico das películas esportivas, mostrando com extrema simplicidade como o futebol pode fascinar um grupo de pessoas, a ponto de provocar mudanças culturais em uma pequena comunidade. No fundo, o esporte aparece como indutor do processo de pequenas revoluções no mosteiro budista, o que torna a produção mais ligada à religião. Muito bem recebido pela crítica, o filme do diretor Khyentse Norbu ganhou premiações no Festival de Cannes e também foi indicado na lista preliminar do Oscar, como melhor produção estrangeira. Grande feito para a produção de baixo orçamento e que teve como atores monges budistas de verdade. O garoto que viveu o protagonista, por exemplo, recebeu como pagamento uma viagem à Disney.

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E “A Copa” não é o único filme de futebol relacionado ao Butão. Em 2002, a seleção local disputou um amistoso contra Montserrat: uma antifinal entre os dois piores ranqueados pela Fifa, no mesmo dia em que o Brasil vencia a Alemanha na decisão do Mundial de 2002. O amistoso virou o documentário “A Outra Final”, exaltando a goleada por 4 a 0 dos butaneses – uma versão online do filme pode ser conferida através deste link.

Curiosamente, se o cinema está arraigado no futebol butanês, uma das principais razões apontadas pelos jogadores para a vitória sobre o Sri Lanka é a televisão. Até o final dos anos 1990, o aparelho era banido pelo governo. “Durante essa época, tínhamos que ver as fitas cassetes dos jogos da Copa. Agora temos ao vivo. É um mundo diferente”, declarou Chokey Nima, o técnico do time, em excelente matéria do New York Times.

Importância que se reflete diretamente nos jogadores, como o capitão Karma Shedrup, de 24 anos: “A televisão é uma grande influência para mim. A televisão realmente me ajudou a jogar da maneira como faço hoje. A primeira partida que eu me recordo era da Copa de 1998. Então, o meu jogador favorito é Zidane”. Outra vez, o Mundial da França se relacionou ao país. E a vida imitou a arte no estádio de Thimphu. Afinal, nesta terça, 30 mil pessoas assistiram à maior glória do futebol do Butão deixar as telas para ganhar os gramados, com dois gols de Chencho Gyeltshen. O da vitória, aos 45 do segundo tempo, como manda um bom roteiro.

Abaixo, a versão completa de A Copa, com legendas em espanhol:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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