O Catar muda de direção por completo e anuncia Carlos Queiroz para o comando da seleção
Carlos Queiroz representa uma quebra em relação a Félix Sánchez, mas tem um histórico com o Irã que fala por si e vai tentar conquistar a Copa da Ásia sediada pelos catarianos em 2023
A péssima campanha do Catar na Copa do Mundo resultou na compreensível demissão do técnico Félix Sánchez. E a federação catariana resolveu mudar totalmente de direção no anúncio do próximo comandante que orientará a equipe nacional. Carlos Queiroz foi anunciado oficialmente como novo treinador nesta segunda-feira. O português traz consigo uma ótima bagagem, de quem trabalhou em quatro Mundiais e liderou um processo histórico à frente do Irã. Porém, em termos de ideias de jogo, o veterano representa também uma cisão naquilo que se praticava (ou se tentava praticar) com Sánchez. Sua primeira grande responsabilidade será na Copa da Ásia de 2023, que será sediada no próprio Catar.
Ao longo de sua preparação à Copa do Mundo, o Catar abraçou a filosofia espanhola em sua seleção. Vários profissionais da Espanha foram importados às estruturas do futebol catariano a partir de 2010. Muitos deles participaram dos processos formativos, que envolviam em especial a Academia Aspire, principal instituição local para o desenvolvimento de atletas. Era nesse contexto que Félix Sánchez se inseria. Antigo treinador da base do Barcelona, o catalão dirigiu as seleções de base do Catar e acompanhou uma geração até assumir o time principal em 2017. Tinha uma proposta de jogo, dentro das naturais limitações, de valorizar o trato com a bola.
A conquista da Copa da Ásia em 2019 foi essencial para referendar o trabalho de Félix Sánchez e mantê-lo até a realização da Copa do Mundo. De fato, o título continental representava um salto até inesperado para a seleção e provava o talento de uma geração preparada com cuidado. Contudo, os resultados pioraram com o passar dos anos. O Mundial marcou exatamente o fundo do poço, de uma equipe que já não parecia mais funcionar em suas estratégias e se tornou previsível, além de muito frágil na defesa. Félix Sánchez não conseguiu reinventar o time, com pouco material humano, já que alguns futebolistas entraram em descendente.
Depois da realização da Copa do Mundo, era natural que o Catar desmontasse pelo menos parte de seu projeto. A demissão de Félix Sánchez reforçava essa impressão, depois das três derrotas na fase de grupos. E a intenção dos catarianos não é seguir uma filosofia de jogo. Carlos Queiroz costuma representar o oposto, ao pensar primeiro na defesa e depois no ataque. Em compensação, é um técnico acostumado a trabalhar na Ásia e que conhece atalhos rumo ao Mundial. O Irã se beneficiou demais da capacidade do português, sobretudo em sua primeira passagem, de 2011 a 2019.
Aos 69 anos, Carlos Queiroz possui um currículo excepcional. O treinador se projetou na virada dos anos 1980 para os 1990, quando conquistou duas edições do Mundial Sub-20 à frente de Portugal. Depois disso, Queiroz dirigiu brevemente o time principal de Portugal e passou a rodar por várias equipes sem emplacar. Levou inclusive a África do Sul para o Mundial de 2002, mas entrou em conflito com a federação e pediu demissão meses antes da Copa. Ganhou moral quando se tornou auxiliar de Sir Alex Ferguson no Manchester United na década de 2000, embora não tenha se dado bem em sua breve passagem pelos galácticos do Real Madrid.
O renome de Carlos Queiroz como treinador de seleções se consolidou nos últimos 15 anos. Primeiro, ele substituiu Felipão em Portugal e levou o time para a Copa de 2010, com desempenho tímido. Já em 2011, começou sua revolução à frente do Irã. Os persas ganharam um time bastante competitivo, baseado numa forte defesa, que também aproveitou bem os talentos revelados no período. As participações nas Copas de 2014 e 2018 foram dignas, apesar das quedas na fase de grupos. Todavia, Queiroz teve dificuldades depois. Sua passagem de 18 partidas pela Colômbia foi desastrosa, entre 2019 e 2020, exatamente com uma quebra de identidade. Também não cumpriu as expectativas no Egito, em 20 partidas. Apesar do vice na Copa Africana de Nações de 2022, perdeu a vaga no Mundial.
Dá para dizer que Queiroz atrapalhou as ambições de Colômbia e Egito rumo à Copa do Mundo. Porém, ganhou a oportunidade de assumir o Irã às vésperas do torneio, após a controversa demissão de Dragan Skocic pela federação local. O técnico enfrentou um cenário bastante turbulento diante do contexto político no país, que afetou diretamente o elenco. O lusitano bancou a permanência de Sardar Azmoun, apesar dos rumores de que o atacante seria cortado por apoiar as manifestações contra o governo. Por outro lado, o veterano acumulou conflitos com a imprensa quando perguntado sobre temas políticos. No fim, o Irã até fez uma campanha razoável pelas circunstâncias e se recuperou da péssima estreia, mas não passou de fase.
Sem muito clima para continuar no Irã, Carlos Queiroz estava livre no mercado. E o treinador deixou expresso que não se importava muito com seus patrões, desde que pagassem um bom dinheiro. É o que o Catar oferece. Obviamente, o material humano que o lusitano encontrará é bem pior do que o oferecido pelos iranianos. Por outro lado, sua maneira de conceber o futebol se sugere mais adequada que a de Félix Sánchez para as debilidades dos catarianos. Pode dar liga. A reconquista da Copa da Ásia soa difícil, mesmo em casa, mas repetir a classificação para a Copa do Mundo é possível, considerando o aumento de vagas no Mundial de 2026.
A partir de 2026, a Ásia passará a contar com oito vagas diretas para a Copa do Mundo. Ainda que exista uma elite consolidada no continente, não parece complicado para o Catar se inserir numa das vagas restantes e alcançar o feito inédito em campo. Antes disso, o primeiro desafio do técnico acontecerá na Copa da Ásia de 2023, que será realizada no Catar. Ainda não há data certa para o início da competição, que seria sediada pela China, mas mudou de país por causa da crise de COVID-19. A princípio, o pontapé inicial deverá ocorrer no fim de 2023. A derrota para o Japão na semifinal da Copa da Ásia de 2019, inclusive, encerrou a primeira passagem de Queiroz pelo Irã. O torneio é a principal lacuna em seus feitos pelo continente.
OFFICIAL: Carlos Queiroz is the new head coach of #AlAnnabi ????
We wish the Portuguese coach all the best with our national team ? pic.twitter.com/ZSN2dCUdGj
— Qatar Football Association (@QFA_EN) February 6, 2023



