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O Al-Hilal buscou uma diferença de 16 pontos dos líderes para, pela primeira vez, se sagrar tricampeão saudita

O Al-Hilal era o quarto colocado restando mais dez rodadas, 16 pontos atrás do Al-Ittihad, mas conseguiu uma reviravolta incrível sob as ordens de Ramón Díaz

O Al-Hilal atravessa um período hegemônico no Campeonato Saudita. Nesta segunda-feira, os azuis comemoraram o inédito tricampeonato nacional, com o quinto troféu da liga nas últimas seis temporadas. Ainda assim, essa conquista será especialmente lembrada por suas dificuldades. Há quatro meses, o clube de Riad parecia fora do páreo. Terminou o primeiro turno na quinta colocação e, a dez rodadas do fim, chegou a ficar 16 pontos atrás do primeiro colocado, ainda que tivesse jogos atrasados. Ramón Díaz chegou para dirigir o Al-Hilal e garantiu uma impressionante guinada, com 12 vitórias nos últimos 13 compromissos. Após assumir a ponta há duas rodadas, a equipe derrotou o Al-Faisaly no último jogo e ratificou a façanha.

O Al-Hilal conta com o elenco mais forte da Arábia Saudita, especialmente diante do aumento de vagas para estrangeiros nos últimos quatro anos. Os Azuis começaram a trazer mais jogadores de qualidade do exterior, somados à base da seleção local. Tal investimento, assegurado com apoio do próprio governo, possibilitou um domínio no Campeonato Saudita e também sucessos repetidos na Liga dos Campeões da Ásia, com as taças recentes faturadas em 2019 e 2021. Todavia, existia o claro risco de ver essa escrita se quebrar em 2021/22.

Levado pelo clube para a atual temporada, Leonardo Jardim conquistou a Champions Asiática no segundo semestre de 2021, mas acumulou tropeços no início do Campeonato Saudita. Enquanto isso, protagonistas deixaram o time neste intervalo, incluindo Bafétimbi Gomis e Sebastian Giovinco. Mesmo com o investimento alto em jogadores como Matheus Pereira, os Azuis flertaram com uma campanha modesta para os seus padrões na liga nacional.

O Al-Hilal chegou a ocupar a liderança na segunda rodada do Campeonato Saudita, mas os deslizes de início o afastaram da briga principal. O time passou grande parte do primeiro turno variando entre o quarto e o quinto lugar, dormindo na oitava rodada até mesmo na sétima posição. Enquanto isso, o Al-Ittihad se tornava o principal candidato a assumir o trono, sob as ordens de Cosmin Contra e com uma legião brasileira estrelada por Marcelo Grohe, Bruno Henrique e Romarinho. A tempestade perfeita contra os Azuis ainda continha uma série de partidas adiadas, por causa da fase final da Champions Asiática e do Mundial de Clubes.

Em fevereiro, Leonardo Jardim acabou demitido pelo Al-Hilal. O treinador não resistiu à goleada por 4 a 0 sofrida diante do Al Ahly na decisão do bronze no Mundial de Clubes. Enquanto isso, a situação no Campeonato Saudita era duríssima. Os Azuis somavam 31 pontos, contra 47 do líder Al-Ittihad. Tudo bem que as três partidas atrasadas da equipe ofereciam uma chance de recuperação, mas ainda assim era insuficiente. A aposta para a guinada viria em Ramón Díaz, treinador de reputação imensa por suas conquistas e que tinha deixado sua marca em Riad no passado. Em 2016/17, ele tinha sido o responsável por iniciar a série recente de troféus do Al-Hilal, ao encerrar um jejum de seis anos na liga nacional. O clube também se reforçava em campo, com as compras de Michael e Odion Ighalo para o ataque.

Ramón Díaz iniciou sua empreitada no Al-Hilal com uma série de quatro partidas decisivas pelo Campeonato Saudita. Em três delas, a equipe enfrentou os três concorrentes logo à frente na tabela. Derrotou o vice-líder Al-Shabab por 5 a 0, antes de enfiar 4 a 0 no terceiro Al-Nassr. Então, veio o primeiro confronto direto com o Al-Ittihad, relativo ao duelo atrasado no primeiro turno. Os Azuis também prevaleceram, com o triunfo por 2 a 1. Os multicampeões se reavivaram na disputa, mas ainda estavam 11 pontos atrás dos líderes.

O Al-Hilal venceu as 12 primeiras partidas sob as ordens de Ramón Díaz. Foram seis triunfos pelo Campeonato Saudita, além das classificações nas quartas de final e na semifinal da Copa do Rei Saudita, superando Al-Nassr e Al-Shabab. Em abril, a liga parou para a realização da fase de grupos da Champions Asiática numa bolha em Riad. As rodadas da competição continental aconteceram em sequência, com mais quatro vitórias dos Azuis até empatarem com o Sharjah. Perderam a primeira com o treinador argentino na rodada final, diante do Al Rayyan, mas a classificação na primeira colocação estava garantida. Então, o Campeonato Saudita recomeçaria.

O Al-Hilal teve a chance de diminuir a desvantagem em relação aos líderes com uma partida atrasada contra o Al-Fayha, mas acabou derrotado. O time recuperou sua sequência ao bater o Damac, antes de ganhar mais um embate adiado, contra o Al Ittifaq. Faltando mais quatro rodadas para o fim da liga, enfim, os Azuis tinham o mesmo número de compromissos de seus concorrentes. Al Nassr e Al Shabab já tinham ficado para trás, mas o Al Ittihad sustentava uma vantagem de seis pontos sobre a equipe de Ramón Díaz. Nesta pausa, aconteceu a final da Copa do Rei Saudita. O Al-Hilal terminou surpreendido de novo pelo Al-Fayha, que segurou o empate por 1 a 1 e venceu nos pênaltis por 3 a 1, para levar o primeiro título de elite em sua história. Nem tudo eram flores aos poderosos.

Restava ao Al-Hilal juntar os cacos no Campeonato Saudita. E o próximo compromisso era exatamente o duelo contra o Al-Ittihad, na casa dos aurinegros. Os Azuis começaram a se reerguer com a virada por 3 a 1, em que Michael fez dois gols. A diferença caía para três pontos. Então, na antepenúltima rodada, o Al-Hilal venceu o Abha por 2 a 0 e viu o Al-Ittihad perder para o Al-Tai por 1 a 0. Graças a isso, o time de Ramón Díaz igualou a pontuação dos concorrentes e assumiu a liderança pela vantagem no confronto direto. Porém, o suspense se arrastaria mais um pouco, com a Data Fifa postergando as duas últimas partidas por três semanas.

Quando a penúltima rodada finalmente aconteceu, o Al-Hilal derrotou o Al-Fateh por 3 a 0 e se manteve no topo, mesmo com o Al-Ittihad também ganhando seu jogo. Por fim, o desfecho da reviravolta dos Azuis se deu nesta segunda-feira, contra o Al-Faisaly. Os líderes venceram por 2 a 1 e confirmaram a taça. Ighalo anotou os dois tentos, com duas assistências de Michael. O Al-Ittihad amargou o vice sem sequer ganhar o último compromisso, com o empate por 1 a 1 diante do Al-Battin. Ficou dois pontos atrás. Foram dez pontos perdidos nas últimas cinco partidas dos aurinegros, que custaram caríssimo. O único consolo para o Al-Ittihad ficaria com o rebaixamento inédito do rival Al-Ahli, um dos clubes mais tradicionais do país e dono de três troféus da liga.

O papel de Ramón Díaz no título é inegável. O argentino conquistou 12 vitórias em 13 partidas pelo Campeonato Saudita, responsável direto pelo milagre do Al-Hilal. Sai ainda maior para a história do clube. Já em campo, as estrelas do elenco fizeram a diferença. Nomes como Salem Al-Dawsari, Moussa Marega e Matheus Pereira garantiram gols e assistências essenciais nesta disparada. Michael não foi tão efetivo, mas apareceu exatamente em duas partidas centrais à conquista. Já Ighalo é quem merece a principal menção: o centroavante trocou o Al-Shabab pelo Al-Hilal na janela de inverno e, logo na estreia, marcou dois gols contra o antigo clube. Foram 12 tentos em 13 partidas pela nova equipe, que ainda valeram a artilharia da liga com 24 tentos totais – quatro a mais que Romarinho e Anderson Talisca.

O Al-Hilal chega a 17 títulos no Campeonato Saudita e consolida sua posição como maior campeão do país. Os Azuis agora têm o dobro de taças que o rival Al-Nassr, segundo maior vencedor do Campeonato Saudita. A dinastia recente é a mais marcante da história da liga, com o atual tricampeonato repetindo o feito até então único do Al-Shabab no início dos anos 1990 – em célebre equipe estrelada por Saeed Al-Owairan. É esse o tamanho do domínio que o Al-Hilal atinge, sem perspectiva de terminar e com um time motivado para deslanchar também na reta final da Champions Asiática.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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