Ásia/Oceania

Kessié seguia com mercado apesar da efemeridade no Barça, mas opta pelo Al-Ahli

Kessié saiu do Milan como um dos grandes talentos do clube e não emplacou no Barça, indo parar na Arábia Saudita aos 26 anos

Franck Kessié vestiu algumas das mais pesadas camisas da Europa em sua carreira. Depois de estourar na Atalanta, o meio-campista virou um dos protagonistas do Milan. Brilhou na conquista do Scudetto e, de certa forma, deixou uma lacuna nos rossoneri. A passagem do marfinense pelo Barcelona, no entanto, foi meteórica. Kessié ficou apenas uma temporada no Camp Nou, sem emplacar com Xavi, mesmo com a conquista de La Liga. Não tinha muito espaço na escalação blaugrana e virou moeda de troca, especialmente pelas limitações financeiras do clube. Desta maneira, sua venda se tornou bem-vinda, e o volante também ganhará uma boa grana: assinou com o Al-Ahli, recheando um pouco mais o Campeonato Saudita.

Kessié custa €12,5 milhões aos cofres do Al-Ahli, com contrato assinado por três temporadas. Não é o negócio mais lucrativo para o Barcelona, mas o clube ganha um dinheiro após ter buscado o marfinense sem custos. Além disso, o alívio na folha de pagamentos será importante. Neste momento, o Barça tem apenas 11 jogadores inscritos em La Liga. O clube precisa reduzir suas contas para permitir outras inscrições, sobretudo dos novos reforços. A venda de Kessié era esperada, neste sentido. Os blaugranas têm que se enquadrar no restrito Fair Play Financeiro da competição local, o que gerou problemas em outras temporadas.

Já o Al-Ahli amplia suas possibilidades, depois de voltar da segunda divisão. O time treinado por Matthias Jaissle garantiu bons reforços nesta janela de transferências. Édouard Mendy é o novo goleiro, enquanto o ataque poderá contar com uma trinca formada por Allan Saint-Maximin, Riyad Mahrez e Roberto Firmino. Outros estrangeiros que já estavam no clube são Modou Barrow, Ryad Boudebouz e Ezgjan Alioski. De todos os novatos, Kessié se sugere como aquele com mais tempo em alto nível.

Fica apenas o lamento pela maneira como Kessié deixará de viver anos importantes de sua carreira no centro dos holofotes. Aos 26 anos, o meio-campista seguia com mercado nos principais clubes da Europa. Não seria difícil de arranjar um contrato com algum time da Serie A ou mesmo se transferir para a Premier League. Ele mesmo preferia uma mudança para a Inglaterra e aguardava uma proposta favorável. Entretanto, em termos financeiros, a oferta da Arábia Saudita era irrecusável. O volante vira uma das estrelas do campeonato, enquanto ainda tem tempo de voltar à Europa em boa forma física ao final de seu contrato. Sua decisão se assemelha às de Rúben Neves e Sergej Milinkovic-Savic.

Kessié não aconteceu no Barcelona

Kessié foi um dos melhores jogadores do Milan na reconstrução recente do clube. O meio-campista disputou 223 partidas com os rossoneri, somando 37 gols e 16 assistências. As mostras de talento vistas na única temporada com a equipe profissional da Atalanta se confirmaram em Milão. Tornou-se um jogador de bom passe em profundidade, chegada ao ataque, potência física e capacidade imensa de preencher o meio-campo. Poderia ser um dos donos do time por muito tempo, mas preferiu buscar novos rumos ao final de seu contrato.

Kessié não é um jogador que se encaixa tão bem na filosofia do Barcelona. Todavia, não se nega que era um ótimo negócio de ocasião. Os blaugranas poderiam contar com um jogador de excelente nível, numa transação sem custos e num momento de dificuldades financeiras. As alavancas acionadas pelo Barça facilitaram a chegada do marfinense, num mercado até abastado pelas limitações dos catalães. Entretanto, quem tinha dúvidas sobre o encaixe do meio-campista terminou com a razão.

Kessié disputou 43 partidas pelo Barcelona, com três gols e três assistências. Teve alguns bons momentos, mas no geral esquentou o banco e ficou como opção para o segundo tempo. Sua presença não evitou a eliminação na Champions League e nem na Liga Europa. Já na conquista de La Liga, virou um coadjuvante de luxo. O momento realmente notável aconteceu durante o clássico contra o Real Madrid no Camp Nou, em que entrou no final e marcou o gol da vitória por 2 a 1 nos acréscimos. Não fez muito mais do que isso depois.

Xavi tem outras ideias para o meio-campo do Barcelona. Kessié não seria o substituto de Busquets, e foi para isso que Oriol Romeu chegou. Já na sua faixa do campo, o treinador conta com opções bem mais técnicas: Frenkie de Jong, Gavi, Pedri. A contratação de Ilkay Gündogan sem custos transformou a presença de Kessié ainda mais supérflua dentro do elenco. E influencia ainda mais a situação econômica do clube, precisando vender jogadores. Parece muito mais interessante aproveitar algum jogador da base do que manter o marfinense no grupo.

Kessié é mais um muçulmano na liga saudita

Dos quatro clubes sauditas que recebem investimentos do governo, o Al-Ahli é o menos cotado para uma grande campanha. Natural, após os alviverdes terem sido rebaixados de maneira surpreendente e voltarem só agora à primeira divisão. Kessié terá um papel importante nessa reconstrução. O marfinense ganha no meio a companhia de Abdullah Otayf, volante da seleção que chegou do Al-Hilal.

Pensando na concorrência, o Al-Ahli também não é o mais badalado dos times que recebem a injeção de dinheiro. Contudo, pode ser um dos mais perigosos de se enfrentar, pela maneira como o montante foi investido. Encarar uma linha de frente composta por Mahrez, Firmino e Saint-Maximin será tarefa árdua. Kessié poderá se valorizar ainda mais pela forma como precisará criar ocasiões e também pelas chances de aproveitar os espaços.

A mudança de Kessié para a Arábia Saudita não deve ter tanto impacto em sua carreira pela seleção, diante da importância que possui na Costa do Marfim. Enquanto isso, os sauditas aumentam sua área de influência na África. A população marfinense é mais uma de maioria muçulmana, tal qual o próprio meio-campista. É mais um que se une à lista de islâmicos em atividade no Campeonato Saudita, com a fé servindo também de fator em muitas das transferências – embora nada tão gritante quanto a influência do dinheiro.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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