Ásia/Oceania

Jong Tae-se se despede do futebol com mais de 150 gols e uma cena emblemática na história das Copas

O "Rooney Coreano" fez sucesso em clubes de diferentes países, embora seja lembrado mesmo pelas lágrimas no hino norte-coreano contra o Brasil

A Copa do Mundo transforma a história de inúmeros jogadores, e nem precisa ser craque para se tornar uma figura eternizada no torneio. Jong Tae-se passaria despercebido do resto do planeta, não fosse a chance que recebeu em 2010. O atacante contribuiu à classificação da Coreia do Norte para o seu primeiro Mundial em 44 anos e ganhou as manchetes. Não necessariamente por seu talento, ainda que o “Rooney Coreano” fosse o principal talento a serviço dos Chollima. Mais lembradas que qualquer lance do camisa 9 são as suas lágrimas durante a execução do hino nacional norte-coreano. Jong Tae-se virou, instantaneamente, um personagem das Copas. Que se despede do futebol de maneira silenciosa, aos 38 anos, na segunda divisão japonesa. Curiosamente, pouco antes que outro Mundial volte a consagrar novos personagens.

O caminho de Jong Tae-se no futebol poderia ser bastante diferente. E a política sempre esteve envolvida em seus passos, desde a infância. O atacante nasceu em Nagoia, no Japão, filho de pais coreanos. O pai tinha nacionalidade sul-coreana, mas se via como norte-coreano. Já a mãe também se dizia norte-coreana e fazia parte dos chosen-seki, um grupo de coreanos étnicos em território japonês sem registro de cidadania – muitos deles por laços com a Coreia do Norte, que não possui relações formais com o Japão. Jong Tae-se, embora herdasse o registro sul-coreano pelo lado paterno, por incentivo da mãe, professora de música, estudou em escolas fomentadas pelos norte-coreanos no Japão.

Desta maneira, Jong Tae-se tinha a possibilidade de escolher qualquer uma das Coreias em sua trajetória nos gramados. Sua formação na escola e em casa guiou sua opção. “Nasci como norte-coreano e fui para uma escola norte-coreana, assim como muitas pessoas no Japão e muitos dos meus amigos. Minha mãe é da Coreia do Norte. Meu pai foi criado no Japão e estudou numa escola japonesa, mas apesar disso ele se considerava norte-coreano”, contaria em 2010, ao jornal The Guardian.

Foi na Universidade da Coreia em Tóquio, instituição ligada ao governo norte-coreano, que Jong Tae-se se destacou nas ligas universitárias do futebol japonês. Pinçado pelo Kawasaki Frontale, o atacante se juntou ao time da J-League aos 22 anos, depois de concluir sua formação em educação física. E não demorou a se transformar num destaque local. Depois de uma temporada como reserva em 2006, Jong emplacou como um dos principais jogadores do time em 2007, autor de 12 gols no Campeonato Japonês. Também disputou a Champions Asiática pela primeira vez.

Os números de Jong Tae-se se tornaram ainda melhores pelo Frontale em 2008, com 14 gols na J-League. O centroavante combinava explosão e presença física para anotar os seus tentos. Logo a seleção da Coreia do Norte aproveitaria o talento à sua disposição, apesar das dificuldades burocráticas para legalizar a situação do atacante junto à Fifa – pelas relações rompidas entre japoneses e norte-coreanos, ele não tinha passaporte do país. A estreia do camisa 9 aconteceu em junho de 2008, pelas Eliminatórias da Copa de 2010. Curiosamente, os dois primeiros gols vieram em empates contra Japão e Coreia do Sul, pelo Campeonato da Ásia Oriental, enquanto ainda deu uma assistência na derrota para a China. O atacante virou nome frequente nas partidas do Chollima.

(STEPHANE DE SAKUTIN/AFP via Getty Images/One Football)

Os gols de Jong Tae-se continuaram vindo aos montes na J-League, de novo com 14 tentos na temporada 2009. Ele chegou a fazer um período de testes no Blackburn pouco depois, mas não foi aprovado. O Rooney Coreano era um titular óbvio da Coreia do Norte pela fama que construía. No entanto, sua contribuição à campanha dos Chollima nas Eliminatórias foi mais tímida, num time dependente de seus pivôs e da forma como abria espaços na defesa por sua força. Mesmo presente em toda a caminhada, anotou somente um gol na jornada que levou o país de volta à Copa do Mundo pela primeira vez desde 1966. De qualquer maneira, o camisa 9 era visto como um protagonista. E chegou com moral na África do Sul, especialmente depois de anotar dois gols num amistoso contra a Grécia e outro diante da Nigéria.

E a contribuição em campo também era importante para aproximar Jong Tae-se de seus companheiros da Coreia do Norte. No Japão, o centroavante era visto como uma estrela e participava de comerciais inclusive na Coreia do Sul, ao lado de Park Ji-sung. Não tinha problemas em aparecer na TV cantando músicas pop sul-coreanas, em escrever colunas na imprensa do país ou em sair na capa da versão local da revista FourFourTwo, mesmo se dizendo norte-coreano na manchete. Todavia, segundo relatos da época, seu estilo de vida totalmente diferente criou barreiras culturais com o elenco limitado à realidade norte-coreana. A abertura teria acontecido gradualmente, até que o camisa 9 se colocasse como uma liderança.

No trato com a imprensa, Jong Tae-se optava por evitar assuntos políticos e declarações mais incisivas sobre os países em guerra. Sua imagem foi usada pelo regime norte-coreano e ele tinha consciência disso. Entretanto, preferia preservar certa neutralidade por ser um coreano com origens de ambos os lados da fronteira, e ainda nascido e crescido em outro país. Ao mesmo tempo em que se dizia norte-coreano, mostrava apreço pelos sul-coreanos. Admitiu torcer também pelo sucesso da Coreia do Sul na Copa de 2010 e esperava a realização de uma Copa do Mundo nos dois países, por acreditar que o “esporte pode unir as pessoas e contribuir para a paz na península”. Posteriormente, chegou a se referir até com certa mágoa por, na Coreia do Sul ou na Coreia do Norte, ser tratado como alguém nascido no Japão e não necessariamente um local – enquanto era visto como coreano pela sociedade japonesa. Nada que diminuísse seu orgulho por estar na Copa.

O jogo da vida de Jong Tae-se aconteceu na estreia da Coreia do Norte na Copa do Mundo de 2010. E o Brasil era um adversário especial não apenas pelos craques do outro lado ou pela mística da Seleção. O camisa 9 norte-coreano tinha amigos brasileiros no Frontale e aprendeu a falar português com seus companheiros. Sabia também que uma boa apresentação contra a Canarinho poderia ser a vitrine para uma transferência internacional. Aos 26 anos, o centroavante ambicionava esse salto.

E se a Copa do Mundo era um sonho para Jong Tae-se, o atacante transformou seus sentimentos em lágrimas antes que a bola rolasse contra o Brasil. Chorou copiosamente durante a execução do hino norte-coreano, algo que já tinha feito em compromissos anteriores, mas nada com a exposição do Mundial. Era uma cena sobretudo humana, mesmo que carregasse também uma conotação política e uma discussão ampla sobre o assunto. “Eu imaginava esse dia desde que comecei a jogar futebol, e fico feliz por ter podido jogar contra o Brasil, o melhor time do mundo, nesse grande estádio”, declararia Jong, depois da partida.

Quando a bola rolou, porém, Jong Tae-se não perdeu o foco. Deu trabalho para a marcação brasileira. O camisa 9 partiu para cima dos zagueiros, emendou dribles, fez boas jogadas individuais. Pecou bastante nos passes e nas finalizações, é verdade, mas conseguiu descolar uma assistência, num lançamento escorado de cabeça que gerou o gol de honra da Coreia do Norte na derrota por 2 a 1.

A sequência da Copa de 2010 seria bem mais dura para a Coreia do Norte e para Jong Tae-se. O atacante passou em branco na África do Sul, enquanto o time levou uma goleada por 7 a 0 de Portugal e tomou de 3 a 0 contra a Costa do Marfim. Os norte-coreanos passariam longe de repetir o milagre protagonizado pelo país no Mundial de 1966. Entretanto, a própria classificação para a Copa já era um grande feito dentro das limitações do país e do status do futebol local. Um dos três únicos do elenco a atuar fora da liga norte-coreana, Jong capitalizaria com o renome que ganhou.

Logo depois da Copa do Mundo, Jong Tae-se deixou o Kawasaki Frontale. Assinou com o Bochum, para atuar na segunda divisão do Campeonato Alemão. E o centroavante não fez feio na nova equipe. Foram dez gols na campanha que levou os alviazuis para os playoffs de acesso, apesar da derrota decisiva para o Borussia Mönchengladbach. Ao final da temporada 2010/11, Jong voltou a um palco internacional com a Coreia do Norte, mas a equipe sucumbiu logo na fase de grupos da Copa da Ásia. Ficaria mais meio ano em Bochum, até ser levado para a elite alemã: tornou-se reforço do Colônia no inverno de 2012.

Jong Tae-se não mostrou tanto nível na primeira divisão da Bundesliga. O norte-coreano disputou apenas dez partidas pela competição, num Colônia capitaneado por Pedro Geromel e que tinha Lukas Podolski como estrela em seu ataque. O centroavante permaneceu com os Bodes por apenas um ano. E daria um passo que riscou as possibilidades de seguir defendendo a seleção norte-coreana: transferiu-se para o Campeonato Sul-Coreano. Nunca mais seria convocado, depois de 15 gols em 33 aparições pela equipe nacional, colocando-se como o segundo maior artilheiro da história dos Chollima. Sua última aparição foi em uma vitória sobre o Japão nas Eliminatórias para a Copa de 2014, na qual Jong criticou publicamente as vaias dos torcedores norte-coreanos ao hino japonês por avaliar que “a política não justificava tal ato”.

(JUNG YEON-JE/AFP via Getty Images/One Football)

Em janeiro de 2013, Jong Tae-se assinou com o Suwon Samsung Bluewings. O símbolo da Coreia do Norte na Copa de 2010 se transferiu à liga da Coreia do Sul. Mesmo que pudesse ser inscrito pelos norte-coreanos nas competições da Fifa, ele não tinha renunciado à cidadania sul-coreana e matinha os dois passaportes. Na Champions Asiática, por exemplo, acabava inscrito como atleta da Coreia do Sul. Tal movimento dizia muito sobre a mentalidade do centroavante e sua tentativa de se afastar do embate político, por mais que uma citação elogiosa ao ditador Kim Jong-il tenha gerado uma investigação do governo sul-coreano. Ainda assim, não atrapalhou sua trajetória na K-League.

Foram três temporadas de Jong Tae-se no Suwon Samsung Bluewings. O atacante teve bons desempenhos, com 28 gols e nove assistências em 85 partidas disputadas. Chegou a ser vice-campeão da K-League, mas não levou nenhuma taça. Já em 2015, o veterano retornou ao Japão para viver alguns de seus momentos mais brilhantes com o Shimizu S-Pulse. Apesar de rebaixado em seu primeiro semestre, Jong liderou o acesso da equipe de volta à elite da J-League. Terminou como artilheiro da segundona em 2016, com 26 gols e 10 assistências em 37 partidas. O centroavante ainda permaneceu por mais três temporadas completas no Shimizu. Despediu-se com 49 gols e 21 assistências em 127 jogos, figura importante na história recente da agremiação.

A partir de 2019, Jong Tae-se rebaixou seu nível e passou a figurar em times da segunda divisão da J-League. Ficou uma temporada no Albirex Niigata, artilheiro da equipe, mas sem subir. Por fim, as duas últimas campanhas aconteceram com a camisa do Machida Zelvia no meio da tabela da J2. Sem muito alarde, aos 38 anos, era hora de parar. Somando clube e seleção, o Rooney Coreano anotou 158 gols como atleta profissional. É um número respeitável. Foram 110 nas duas divisões principais da J-League. E uma cena bonita aconteceu no último final de semana, quando Jong voltou à velha casa como torcedor e apoiou o Frontale na reta final da J-League. As lágrimas voltaram a rolar no rosto do veterano quando, com um megafone, ele puxou os cânticos com a torcida. Foi ovacionado na volta olímpica.

A dimensão das memórias sobre Jong Tae-se, entretanto, pouco tratarão sobre seu sucesso esportivo. O Rooney Coreano deixou uma impressão para as Copas do Mundo que sobrepõe o que realizou em campo. Há um debate político inerente, mesmo que o centroavante preferisse se afastar disso. Mas também há uma representatividade do que é o Mundial que se traduz nas lágrimas de Jong, acima de qualquer fronteira.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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