Ásia/Oceania

Governo iraniano é acusado de tentar sequestrar Ali Karimi, antigo ídolo da seleção e apoiador dos protestos no país

Ali Karimi vive em Dubai e chegou a ser indiciado pelo governo do Irã por seu apoio aos protestos no país, o que teria motivado a alegada tentativa de sequestrá-lo e levá-lo de volta ao território iraniano

O futebol é um elemento central para discutir os direitos das mulheres no Irã. O debate veio à tona em momentos importantes da seleção, quando a proibição à presença de mulheres nos estádios desencadeou protestos amplos, o governo utiliza liberações parciais às mulheres nos estádios como um paliativo diante das limitações que imperam na sociedade em geral. E nas últimas semanas, com as manifestações no país após a morte da jovem curda Mahsa Amini, reprimida por não usar corretamente o hijab, astros do futebol vieram a público apoiar a luta das mulheres. Entre eles está Ali Karimi, figura histórica da seleção, que teria sofrido uma tentativa de sequestro pelo governo, segundo fontes próximas ao ex-jogador.

A acusação veio à tona nesta semana. Ali Karimi, de 43 anos, vive atualmente nos Emirados Árabes Unidos. O ex-meia, presente na Copa do Mundo de 2006, costuma ter uma postura questionadora sobre as restrições à população e se posicionou após a morte de Mahsa Amini. O veterano chamou a morte da jovem curda de “uma desgraça que nem água sagrada pode limpar” e apoiou os manifestantes que saíram às ruas do Irã. Também passou a utilizar suas redes sociais para auxiliar seus compatriotas no combate à censura. Por conta disso, o astro foi indiciado pelo governo por “encorajar motins” e por “conluio em atentado à segurança nacional”. Uma casa que o futebolista tinha na cidade de Lavasan foi tomada pelo estado. Agora surge a acusação mais grave de tentativa de sequestro.

O próprio Karimi admitiu publicamente que ele e sua família foram ameaçados de diversas maneiras. Já seu amigo Mehdi Rostampour, ao jornal britânico The Independent, afirmou que autoridades do Irã tentaram forçar Karimi a voltar ao país, para que fosse julgado pelas acusações. Uma celebridade iraniana teria, a pedido do governo, marcado um encontro com Karimi na cidade portuária de Fujairah. Conforme Rostampour, seria uma armadilha para que o ex-jogador acabasse sequestrado e levado de volta ao território iraniano.

Karimi iria ao encontro, mas recebeu a mensagem de outro amigo que o avisou sobre a armação. A informação teria vindo do setor de inteligência do governo. Desta maneira, o veterano permanece em Dubai e continua ativo nas redes sociais, com mensagens de apoio aos manifestantes. Entretanto, o ex-meia não comentou especificamente sobre o risco de sequestro.

Muito habilidoso e com ótima capacidade ofensiva, Ali Karimi defendeu a seleção do Irã de 1998 a 2012. Sua estreia aconteceu logo depois da Copa do Mundo de 1998, mas naquele mesmo ano o meia teve papel decisivo na conquista do torneio de futebol nos Jogos Asiáticos. Eleito o melhor jogador em atividade na Ásia em 2004, chegou como destaque do Irã na Copa de 2006, mas uma lesão limitou sua participação. O armador seguiu como um nome de relevo no Time Melli até 2012, quando se aposentou com 127 partidas e 38 gols – terceiro no total de aparições pelo país e quinto em gols. Já por clubes, Karimi defendeu o Bayern de Munique entre 2005 e 2007, embora a maior parte de sua carreira tenha se desenvolvido no Oriente Médio. Foi ídolo no Persepolis, gigante do Campeonato Iraniano, além de atuar nos Emirados Árabes e no Catar.

Embora Ali Karimi tenha os posicionamentos mais fortes, não foi o único veterano da seleção do Irã que se posicionou ativamente nas últimas semanas em apoio aos protestos. Outros nomes históricos como Ali Daei e Mehdi Mahdavikia também postaram mensagens em suas redes sociais. Hossein Mahini, defensor que atuou na Copa de 2014, foi preso sob a alegação de “encorajar motins” nas redes sociais. Já entre os membros da seleção atual, Sardar Azmoun chegou a se manifestar durante a Data Fifa de setembro e depois apagou os questionamentos. Diante da mobilização que continua no país, com mais de 140 mortos, é provável que o assunto venha à tona também durante a Copa do Mundo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo