Ghalesteghlal!

Teerã está coberta de azul com o título iraniano do Esteghlal, treinado por Amir Ghalenoei. Foi a sexta conquista nacional da história do ‘Es-Es’, apenas duas atrás do arqui-rival Persepolis.
Com cerca de 20 milhões de adeptos espalhados pela região, o clube da coroa azul ergueu o troféu na última rodada ao bater o Payam por 1 a 0 em Mashhad, cidade que costuma receber 20 milhões de peregrinos anualmente, curiosamente o mesmo número estimado de torcedores do Esteghlal…
Com os mesmos 66 pontos que o Zob Ahan, o clube de Teerã foi beneficiado pela derrota do surpreendente time da Siderúrgica de Esfahan para o Foolad por 4 a 1 e fechou com um saldo superior. O feito foi comemorado em contornos dramáticos que duraram até o último segundo da competição.
Uma temporada sucateada
Esse título se configurou num panorama favorável ao Esteghal. O rival Persepolis atravessa instabilidade política, notável falta de comando e crise técnica, Sepahan e Saba Battery foram irregulares, enquanto Saipa, Aboomoslem, Pas e Esteghlal Ahvaz explicitaram seus problemas administrativos que culminaram em campanhas pífias.
Para cerrar os punhos e mostrar os dentes para o Esteghlal somente o esforçado e travesso Mes Kerman e o organizado, mas limitado Zob Ahan. Mas houve argumentos recheados de méritos para o campeão, que teve de trazer o treinador Amir Ghalenoei, o mesmo da última conquista em 2005/6. Como de praxe, o ex-jogador do clube mostrou que sabe montar equipes em curto prazo.
O quebra-cabeças do mago de Teerã
Com excelente transito e bagagem no clube, o técnico Amir Ghalenoei teve de encaixar rapidamente os reforços dentro do seu projeto e conseguir resultados imediatos e aí reside seu sucesso. No ‘onze’ do Esteghal, apenas os defensores Montazeri e Koushki, o atacante Borhani e mais as bandeiras Vahid Talebloo e Ghorbani estavam há mais de um ano no clube. Além de Kazemi e Arkbarpour que retornaram, todos os outros chegaram no ano passado.
Num ambiente de pressão constante, principalmente pelo último título ter sido conquistado pelo rival figadal Persepolis, o trabalho do treinador de 44 anos foi louvável. O júbilo veio na derradeira rodada do certame, mas com o melhor ataque e a melhor defesa do campeonato. Fatos que falam por ele.
Como encaixar Heydari, Kazemi, Majidi, Januário e Beikzadeh?
Com seus principais elementos do plantel concentrados no meio-campo, Ghalenoei recorreu a um esquema com três centrais (Koushki-Ghorbani-Montazeri) para armazenar a zona central com o que tinha de melhor. Plantou Hossein Kazemi (o melhor volante em circulação na terra dos aiatolás) a frente da defesa para iniciar as transições ofensivas com fluidez.
O experiente capitão Farhad Majidi recua junto com Hashem Beikzadeh, um exímio cobrador de faltas revelado na base do Moghavemat Sepasi, uma das mais prolíficas do país. Eles formam o trio de médios (Kazemi-Majidi-Balikzadeh) quando a equipe está sem a bola. Nessa dinâmica, Khosro Heydari escapa pela direita carregado de ousadia e capacidade de penetração. Deambulando entre o meio e o corredor esquerdo do campo, o brasileiro Fábio Januário, que veio do futebol português, um meia cerebral, foi recordista de assistências e já é ídolo da torcida. Foi dele o gol do título num arremate de fora da área.
Com tantas peças valorizadas por lá, não é fácil encaixá-las num mesmo setor sem ferir egos e as aptidões e ambições pessoais de cada um. Ponto para Ghalenoei.
Agredir com mobilidade e temperamento
Muitos achavam que eles iam até brigar ao longo da temporada, mas Siavash Arkbarpour e Arash Borhani fizeram uma explosiva dupla de ataque. Sim, o adjetivo ‘explosivo’ é o que melhor define o caráter desses predadores do deserto. Arkbarpour, chamado de “Eto´o persa”, cometeu um erro na carreira ao passar uma temporada longe das taças no modesto Al-Dhafra, dos Emirados Árabes. Mas seu retorno ao ninho foi fundamental principalmente para seu parceiro ofensivo, Borhani, artilheiro da liga com 21 gols.
Ambos perigosos e muito móveis, dificultando a marcação adversária. Cobiçados por clubes do Golfo, Egito, Bélgica, Portugal e Turquia, os temperamentais avançados azuis não deverão ficar muito tempo em Teerã…mas poderão voltar ao país rapidamente também devido a vulnerabilidade psicológica da dupla.



