Ásia/Oceania

Futebol japonês sofre

Depois da sucessão de desastres naturais do último final de semana no Japão, a J-League tomou a decisão mais sensata e adiou indefinidamente a continuação da liga no país. No final de semana, muitas equipes estavam em deslocamento ou chegando às cidades onde jogariam a segunda rodada da competição, quando foram surpreendidas pelo violento terremoto que atingiu 8,9 pontos na escala Richter.

O Ventforet Kofu, onde joga o zagueiro brasileiro Daniel, estava chegando a Fukuoka para o jogo contra o Avispa. Poucos minutos depois da equipe chegar à cidade, o tremor e o susto, não só para Daniel, como para toda a equipe – ainda mais porque a cidade sofreu, há seis anos, um terremoto que atingiu 7 pontos na escala Richter e destruiu a prefeitura local.

“Em dois anos aqui, nunca tinha visto nada parecido. O ônibus parecia uma cobra desgovernada no asfalto, de tanto que se movimentava. Fomos procurar abrigo e só depois, soubemos da extensão da tragédia”, disse Daniel, jogador revelado pela Cabofriense, que teve passagens por Paysandu, Ituano, Cruzeiro e São Caetano, antes de ir para o Japão, em 2009. Assim como em diversos pontos do país, a delegação do Ventforet Kofu ficou praticamente um dia inteiro no aeroporto de Fukuoka, até que fosse possível retornar para casa.

Se a J-League suspendeu todas as atividades nas duas divisões por tempo indeterminado, a Confederação Asiática, no entanto, agiu de forma diferente. Neste meio de semana foi realizada a segunda rodada da Liga dos Campeões e, obviamente, os jogos em território japonês foram adiados – o Kashima Antlers receberia o Sydney FC, da Austrália; enquanto o Nagoya Grampus, atual campeão da J-League, enfrentaria o Al-Ain, dos Emirados Árabes.

Já as duas equipes de Osaka tiveram seus jogos mantidos na China. Se foi coincidência ou não, é impossível saber, mas tanto Cerezo quanto Gamba acabaram derrotados para os rivais. O Tianjin Teda bateu o Gamba por 2 a 1 na madrugada de terça-feira. Na madrugada de quarta, o Shandong Luneng fez 2 a 0 sobre o Cerezo (com um gol do zagueiro brasileiro Renato Silva).

A próxima rodada da Champions asiática acontece em 5 e 6 de abril e, espera-se, que a vida comece a tomar seu curso normal no Japão. Apesar disso, a participação da seleção campeã asiática na Copa América, no meio do ano, já corre riscos. A Federação Japonesa ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto, mas a entidade já estava numa queda de braço com a Fifa por conta das datas marcadas para as eliminatórias da Copa de 2014 em julho, praticamente coladas com o torneio sul-americano. A fatalidade acontecida no Japão agora seria uma desculpa plausível para que a JFA deixasse a Copa América e não entrasse em um atrito maior com a entidade-mor do futebol mundial.

Solidariedade

Em todo o mundo, manifestações de solidariedade foram dadas nos estádios de futebol. Assim como fez a AFC, a UEFA determinou o cumprimento de um minuto de silêncio antes da rodada de meio de semana na Liga dos Campeões e na Liga Europa. O procedimento foi repetido na final da A-League, no sábado.

Jogadores japoneses ou que atuaram no país também prestaram suas homenagens particulares às vítimas da tragédia. O atacante Hulk, do Porto, que jogou três anos no país, dedicou o gol marcado na segunda-feira, na vitória sobre o Leiria, ao Japão. Na vitória da Inter sobre o Bayern Munique, nesta terça-feira, Yuto Nagatomo comemorou a classificação enrolado em uma bandeira japonesa.

Rodada de abertura com clássico

Enquanto no Brasil, a CBF marca os clássicos regionais todos – ou quase todos – para o final do campeonato, a J-League optou por abrir a competição no dia 5 com um jogo reunindo as duas equipes de Osaka. O Gamba venceu o Cerezo por 2 a 1, com Adriano marcando o primeiro gol do jogo para o Gamba.

Na partida de maior público da rodada (27.153 torcedores), o campeão Nagoya Grampus ficou no 1 a 1 com o Yokohama F-Marinos. As vitórias mais expressivas da rodada foram por 3 a 0, com o Albirex Niigata passando fora de casa pelo Avispa Fukuoka; e com o Kashiwa Reysol, de volta à J-League 1, derrotando o Shimizu S-Pulse. O Ventforet Kofu, estreante na primeira divisão, perdeu em casa para o Jubilo Iwata, 1 a 0.

Um jogo para a história

A imprensa australiana já está tratando a decisão da temporada 2010/11 da A-League, realizada no sábado passado, como “o maior jogo de futebol já visto no país”, superando, inclusive, para alguns, a histórica partida entre Austrália e Uruguai, em novembro de 2005, quando, nos pênaltis, os australianos garantiram a ida à Copa do Mundo da Alemanha.

A torcida do Brisbane Roar fez a sua parte. O time estava invicto há 27 partidas e os pouco mais de 50 mil ingressos colocados à venda no Suncorp Stadium foram vendidos rapidamente para o jogo contra o Central Coast Mariners, no que é chamado por lá de “Grand Final” do campeonato.

No tempo normal, empate sem gols que colocou em apreensão a torcida local. Os 15 primeiros minutos da prorrogação foram catastróficos para o Brisbane Roar. Aos 6 minutos, Adam Kwasnik fez 1 a 0 para os visitantes. Oliver Bozanic ampliou para os Mariners aos 13 minutos.

O cenário de tragédia parecia montado até que, nos minutos finais do tempo extra, surgiu uma inacreditável reação. O brasileiro Henrique, revelado pelo América/MG, há três temporadas no clube, fez 2 a 1 aos 12 minutos da etapa final. Literalmente no último lance da prorrogação, Erik Paartalu deu uma cabeçada certeira e empatou o jogo, levando a decisão do título para os pênaltis.

Na disputa de pênaltis, foi a vez do goleiro Michael Theoklitos brilhar. Dos quatro pênaltis cobrados pelo Central Coast Mariners, Theoklitos acertou o canto em três. Melhor ainda: ele defendeu os chutes de Daniel McBreen e Pedi Bojic. Sobrou para Henrique cobrar e converter o quarto pênalti e dar o título ao Brisbane, que só perdeu um jogo em todo o campeonato (0 a 3 diante do Melboune Victory, em 12 de setembro do ano passado, pela 6ª rodada).

O vídeo com os melhores momentos está, claro, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=SSoX5jr8-tA). Assista, quando puder. É difícil não se emocionar com a vibração da torcida no gol de empate aos 16 minutos do segundo tempo da prorrogação – e depois, claro, com a conquista do Roar.

Fórmulas e formulismos

A fórmula de disputa da A-League e da K-League, por exemplo, é bem parecida (com a diferença que na Coreia do Sul, são 15 clubes, contra 11 na Austrália): uma fase preliminar em pontos corridos que classifica seis equipes para os playoffs.

Na Coreia, o campeão da fase regular já vai direto para a finalíssima e o segundo colocado espera na semifinal. Na Austrália, os dois primeiros colocados se enfrentam em dois jogos e quem vencer o confronto vai para a final, com o perdedor esperando na semifinal. Em ambas as ligas, há os confrontos entre 3º e 6º colocado e 4º e 5º colocado, com os vencedores jogando pela outra vaga na semifinal.

Na A-League, como vem acontecendo há algumas temporadas, as duas melhores equipes fizeram a decisão nesta temporada – o Central Coast Mariners, segundo colocado na fase regular, bateu o Gold Coast United, vencedor do playoff, por 1 a 0. Na Coreia do Sul, onde o nível das equipes é mais equilibrado, já houve casos do segundo colocado na fase regular perder a semifinal, como em 2009.

Desta forma, a decisão da A-League, de forma tão sintomática, reacendeu em alguns fóruns a eterna discussão sobre “campeonato com pontos corridos x campeonato com final”. Os defensores da fórmula “com final” usam o jogo para enfatizar o aspecto emocional da conquista e da partida. Enquanto isso, quem é adepto da fórmula de pontos corridos alega para o fato que, mesmo com a melhor campanha disparada no torneio (28 jogos de invencibilidade, 72% de aproveitamento na fase regular e oito pontos à frente do próprio Central Coast Mariners em 30 jogos), o Brisbane Roar ficou a uma bola de perder o título – e ainda correu o risco de perdê-lo nos pênaltis. A discussão entre os dois lados nunca vai terminar, pelo menos por aqui.

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Equipe Trivela

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