Felipão chega a um Guangzhou Evergrande sedento por títulos
O técnico Luiz Felipe Scolari, 66 anos, entrou para a história das Copas do Mundo ao comandar o time que levou de 7 a 1 da Alemanha dentro de casa, em plena semifinal. Evidentemente, o pífio resultado abreviou a segunda passagem do treinador gaúcho na seleção brasileira, que terminou exatamente em 14 de julho de 2014. Era hora de Felipão descansar, pensar nas causas da goleada acachapante, sumir um pouco da mídia a fim de esfriar os ânimos de jornalistas e torcedores. Mas o experiente técnico teve seus motivos para aceitar proposta do Grêmio após menos de um mês. Na altura da 12ª rodada da Série A, Felipão tentou levar o time até a Libertadores, mas acabou em sétimo lugar, um ponto atrás do objetivo.
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Mantido em 2015, veio a crise financeira e o Grêmio foi obrigado a se desfazer dos jogadores de salários mais altos, como Hernán Barcos e Marcelo Moreno. No Campeonato Gaúcho, a equipe foi se reconstruindo e conviveu com maus resultados e duas rodadas aquém da oitava posição, que levava ao mata-mata. No fim, o Grêmio foi segundo colocado, mas perdeu o título para o rival Inter, algo que sempre contribui para uma crise.
O começo ruim na Série A 2015 e as críticas de Felipão à qualidade dos jogadores irritaram a diretoria, que não titubeou em aceitar o pedido de demissão do treinador. Tudo isso apesar do aproveitamento de 60,3% (26v, 12e, 13d). Aí sim se pensou que Felipão iria descansar e reavaliar a carreira, talvez buscando rever conceitos. Entretanto, menos de um mês depois, o treinador vai trabalhar no Guangzhou Evergrande, atual tetracampeão chinês.
Pressão em cima de Scolari
É verdade que Fabio Cannavaro, campeão mundial de 2006 e responsável por erguer a taça para a Itália, não teve mau desempenho no Guangzhou Evergrande. Foram 23 jogos (11v, 7e, 5d), quase 50% de aproveitamento nos oito meses à frente do clube. Pelo contrário, o técnico novato deixa a equipe na liderança do Campeonato Chinês (26 pontos em 13 jogos), ao lado do Shandong Luneng, de Aloísio Boi Bandido, Diego Tardelli e Montillo, com apenas uma derrota.
Mas a melhor performance de Cannavaro é na Liga dos Campeões da Ásia 2015: o time foi líder de sua chave, que tinha o atual campeão Western Sydney Wanderers (Austrália) e o vice-campeão de 2013 Seoul (Coreia do Sul), que perdeu a final para a equipe chinesa. O Guangzhou Evergrande ainda passou pelo Seongnam (Coreia do Sul) nas oitavas de final, revertendo derrota de 2 a 1, e está nas quartas de final, com adversário indefinido (sorteio em 18 de junho). O momento do time é bom nos dois campeonatos, mas é inegável que Scolari, que assinou contato por dois anos e meio, terá de avançar no torneio continental, seja qual for o adversário.
Pelo menos o técnico brasileiro terá tempo para conhecer o elenco. O jogo de ida das quartas de final da Liga dos Campeões da Ásia será em 25 de agosto e até lá haverá pelo menos dez partidas no Campeonato Chinês. Mas há outros motivos a favor de Felipão.
Ricardo Goulart. O ex-atacante do Cruzeiro vive grande fase no time chinês, sendo o atual artilheiro da Liga dos Campeões da Ásia 2015 (marcou duas vezes no último após passar quatro partidas em branco, atingindo oito gols) e segundo colocado no quesito na liga local, com nove gols, um atrás de Aloísio Boi Bandido. São 12 jogos no torneio, dez como titular, certamente o atleta mais importante do time no momento.
Gao Lin. O companheiro de Goulart no ataque é realmente muito bom, ao contrário do que normalmente se espera de um chinês. São oito gols do jogador de 29 anos em 13 jogos, 11 como titular, sempre um apoio no setor ofensivo.
Elkeson e Alan. Machucado e sem jogar desde 1º de maio, o ex-atacante do Botafogo terá bastante tempo para se recuperar e voltar a formar o trio ofensivo ao lado de Goulart e Gao Lin, o que será muito importante para o Guangzhou Evergrande na Liga dos Campeões da Ásia 2015. O brasileiro Alan, revelado no Fluminense e que foi artilheiro no Red Bull Salzburg (Áustria) – 26 gols em 29 jogos na liga austríaca de 2013/14 –, também está machucado e tem previsão de volta na primeira semana de agosto, tendo tempo de estar apto a defender a equipe no torneio continental – ele ainda nem estreou.
Cannavaro fez um bom trabalho no Guangzhou Evergrande e caberá a Felipão dar continuidade à temporada. Mas engana-se quem pensa que a diretoria quer apenas o título da Liga dos Campeões da Ásia 2015.
Atual tetracampeão nacional (2011, 2012, 2013 e 2014), o técnico brasileiro terá de terminar no topo da tabela do Campeonato Chinês, cuja última rodada acontece em 31 de outubro, sete dias antes do primeiro jogo da final da Liga dos Campeões da Ásia 2015 – a volta está marcada para 21 de novembro. Será que Felipão fez bem em aceitar treinar um time de ponta na Ásia e ávido por resultados expressivos? Ou terá sido melhor descansar e dar um tempo de futebol?
Curtas
– Para fins de registro, a pior derrota do Guangzhou Evergrande em jogos oficiais dentro de casa ocorreu em 8 de maio de 1994: 5 a 2 para o Shanghai Shenhua, na primeira edição da liga profissional. O revés mais acachapante fora de casa foi um 6 a 0 a favor do Changchun Yatai, em 11 de outubro de 2008. Que Felipão não venha com outro 7 a 1 no currículo…
– Scolari será o terceiro técnico brasileiro (segundo treinador campeão mundial, ao lado de Marcelo Lippi) na história do Guangzhou Evergrande. Entre janeiro e abril de 2000, Gildo Rodrigues comandou a equipe. Ele foi treinador entre 1974 e 2007, passando por Portuguesa Carioca, Sampaio Corrêa, mundo árabe e seleções (Gana, Libéria e Kuwait), falecendo em 2009, aos 69 anos. Por quase um mês no fim de 2000, Edson Tavares, que também trabalhou no Rio de Janeiro e no mundo árabe, treinando as seleções de Vietnã, Jordânia, Omã e Haiti, foi interino no time chinês.



