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O estádio de futebol que será palco de competições de esqui nas Olimpíadas de Inverno

A identidade de um clube não se resume apenas ao seu escudo, à sua camisa e à sua torcida. O estádio também é parte fundamental da construção da imagem. Especialmente se ele tiver um caráter único, que seja logo associado com seu dono. Neste sentido, poucas praças esportivas no mundo são tão particulares quanto a casa do Gangwon FC, time recém-promovido à K-League, a primeira divisão do Campeonato Sul-Coreano. Nesta temporada, o clube do nordeste do país tem jogado em um estádio multifuncional. Enquanto serve ao futebol de março a novembro, o local vira uma pista de salto de esqui durante o inverno. Inclusive, receberá competições dos Jogos Olímpicos de Inverno em fevereiro de 2018.

A história peculiar do Estádio Alpensia Ski Jumping é contada pela página These Football Times. Inaugurado em 2008, o local foi reformado pensando nas Olimpíadas de Inverno. E, com o trecho da aterrissagem da pista de salto de esqui regulando com a largura de um campo de futebol, as autoridades sul-coreanas acharam conveniente aproveitar o espaço para a dupla função. As arquibancadas comportam 11 mil torcedores, com vista à enorme rampa atrás de um dos gols. Cenário um tanto quanto insólito, também entre os rochedos dos Montes Taebaek, principal cordilheira da península coreana e que atravessa toda a costa leste.

O acesso do Gangwon no último ano trouxe um novo uso ao Estádio Alpensia Ski Jumping. Gerido pela província de mesmo nome, o clube passou por diferentes cidades a partir de sua fundação, em 2008. A inexistência de um grande município local que concentrasse a população dificultou o estabelecimento da equipe, em trajetória nomádica por quatro cidade. Isso até Pyeongchang, a pequena estância turística de 50 mil habitantes que receberá os Jogos Olímpicos de Inverno, se transformar em uma nova opção aos Ursos. Assim, depois de algumas partidas no local, mudaram-se de vez para lá na atual temporada.

O problema é que o Resort Alpensia, onde fica o estádio, não facilita o acesso dos torcedores. Como se espera de um espaço para a prática de esqui, há certo isolamento em relação ao restante da cidade, o que transforma cada jogo em uma epopeia para quem frequenta as arquibancadas. Os perseverantes precisam pegar um ônibus e ainda fazer uma caminhada árdua, antes de adentrarem nas tribunas, ao preço do ingresso mais caro da K-League. Sem surpreender, a média de público do Gangwon é baixíssima. Não passa dos 2,6 mil presentes por partida – em números ainda impulsionados pelos 5,1 mil que assistiram à estreia na competição. Isso sem contar outro entrave um tanto quanto óbvio aos times: as condições do campo, castigado pela neve durante o inverno. A grama estava judiada nas primeiras rodadas do campeonato.

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Apesar de tudo, o Gangwon continuará jogando no Estádio Alpensia. Afinal, os donos do clube também são os políticos que gastam alto para a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno. E, para eles, faz mais sentido justificar a existência de sua obra pública do que facilitar a vida dos torcedores – como escreve o These Football Times, “o público está sendo solicitado para pintar o elefante branco de cinza”. Aliás, a Coreia do Sul não costuma ser exemplo de boa gestão em grandes eventos esportivos. O Estádio de Jeju é um dos principais exemplos de praça esportiva mal utilizada das últimas Copas do Mundo.

Além do mais, o retorno do Gangwon à elite resultou em um grande investimento no próprio elenco. Entre os reforços estão o meia Lee Keun-ho, que soma 75 jogos pela seleção sul-coreana; o atacante Jung Jo-gook, melhor jogador da última K-League; o goleiro Lee Bum-young, reserva na Copa de 2014; e o brasileiro Diego Maurício, o popular Drogbinha, formado nas categorias de base do Flamengo. Tudo se encaminha para deixar a província em evidência, por mais que a campanha dos Ursos seja modestíssima, com apenas 12 pontos conquistados em 10 rodadas. A primeira vitória no Estádio Alpensia, inclusive, só aconteceu neste domingo, no quinto jogo como mandante. Cortesia de Drogbinha, que decretou a virada por 2 a 1 sobre o Incheon United aos 49 do segundo tempo.

Enquanto as Olimpíadas de Inverno seguem na vitrine, ficam apenas os questionamentos. Eles só devem incomodar mesmo após os Jogos, diante da sustentação do Estádio Alpensia Ski Jumping dentro da realidade do Gangwon. Resta acompanhar qual será o malabarismo da administração, entre um time potencialmente sem torcida ou um estádio potencialmente sem utilidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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