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Erchim tem o papel de mostrar Mongólia ao mundo

Um país de quase três milhões de pessoas tem o que comemorar. Acostumados a torneios de arco e flecha, corrida de cavalos e luta, os mongóis agora podem ver um time de futebol fazendo sucesso em uma competição internacional. Não que a AFC Presidents Cup, espécie de terceira divisão dos torneios do continente, seja digna de final de Copa do Mundo, mas de fato é histórica a campanha do modesto Erchim, que acaba de levantar a taça da liga nacional pela oitava vez (maior campeão).

O futebol na Mongólia nunca havia alcançado tamanha envergadura em nível internacional, apesar de a única divisão do país ser disputada desde 1964, praticamente sem interrupções. Os times dos primeiros anos eram diretamente ligados a departamentos estaduais, como os da polícia, do exército e da ferrovia – ainda hoje existe a equipe da universidade da capital, o Ulaanbaatar University.

O Erchim foi fundado em 1994 e é o único time do país a ter jogado partidas internacionais. Criada em 2005, a Presidents Cup só passou a contar com times da Mongólia em 2012, quando o Erchim fez a estreia, em 8 de maio, com empate contra o KRL, do Paquistão. A equipe foi lanterna, como se esperava, após mas só o fato de ter participado do torneio já foi um marco para o futebol da Mongólia.

Na AFC Presidents Cup 2013, mais uma vez a expectativa era ficar na fase de grupos, mas não foi o que aconteceu. Apesar do empate sem gols com o Taiwan Power Company e da derrota de 2 a 0 para o Three Star Club, do Nepal, o Erchim se recuperou na última rodada e venceu por 1 a 0 o Abahani, de Bangladesh, ficando com o segundo lugar da chave.

É a primeira vez que um time do país vai tão longe em um torneio internacional. Na fase final, disputada na Malásia, o Erchim tem como principal adversário pela vaga na decisão o Balkan, do Turcomenistão, mas conta com um ótimo reforço.

Um brasileiro na Mongólia

Talvez o primeiro atleta do Brasil a atuar na Mongólia, Ernani Cândido tem 26 anos e foi descoberto por Emerson Ávila, que lhe abriu as portas no Cruzeiro. Após sete anos, ele foi emprestado para times mineiros, como América, Guarani, Formiga e Itaúna. O atleta atuou ainda por Nacional de Uberaba e União Luziense, até aparecer a oportunidade na Mongólia:

“Um amigo me indicou para um empresário japonês que tinha contato com o clube e decidi ir para lá”, afirma Ernani em entrevista exclusiva à coluna. Desde julho de 2012 no Erchim, com interrupção entre setembro/2012 e abril/2013, o atleta vem gostando da experiência num país tão distante, apesar das dificuldades iniciais, como alimentação.

“As pessoas me tratam muito bem, principalmente os atletas, que querem ajudar a me adaptar o mais rápido possível. O que ainda é complicado de se acostumar é o frio, mas é tranquilo viver em Ulaanbaatar, apesar da grande diferença para o Brasil”, contou.

Ernani tem contrato até 3 de outubro, mas espera ajudar na conquista do título. “Sabemos que a segunda fase é bem difícil, pois ficaram os melhores do torneio. Somos um time jovem e com pouca experiência internacional, mas podemos surpreender novamente. Estou confiante e com pensamento de disputar o título”, disse.

Pelo menos, o fato de o futebol começar a ganhar espaço no país já é digno de comemoração. “A Presidents Cup repercutiu muito na Mongólia. A imprensa está cobrindo com afinco e até enviou um repórter junto com a delegação na Malásia para registrar tudo de perto. Os torcedores também estão acompanhando e os jogos são transmitidos para todo o país”, explicou Ernani.

“Apesar de o futebol ainda não ser o principal esporte nacional, a Mongólia tem atletas de qualidade, que bem trabalhados podem ter destaque maior”, acrescentou. Quem sabe o Erchim não plantou a semente inicial da evolução do futebol mongol?

Seleção inexpressiva

A estreia oficial da seleção mongol ocorreu em 10 de agosto de 1942, derrota humilhante de 12 a 0 para o Japão, num torneio regional. E demorou mais de 18 anos para o segundo jogo, em outubro de 1960 – revés de 3 a 1 para o Vietnã do Norte. Naquela época, a equipe era completamente desconhecida do mundo, um retrato do próprio país.

Em uma rápida comparação, os atuais 169 países que possuem relações diplomáticas com a Mongólia eram apenas 29 na década de 1960. Nem os Estados Unidos mantinham contato, o que só ocorreu em 1987, mesmo ano do Brasil. Em 1960, houve mais dois jogos (6 a 1 para a China e 10 a 1 a favor da Coreia do Sul), mas parou por aí.

A seleção da Mongólia só voltaria a entrar em campo em 1º de dezembro de 1998, incríveis 38 anos sem partidas oficiais. A Copa da Ásia de 2000 foi o primeiro torneio importante do qual o país participou, com derrotas de 2 a 0 para Mianmar, 9 a 0 a favor da Coreia do Sul e 2 a 1 contra Laos. Um ano depois, foi a vez de disputar as Eliminatórias da Copa do Mundo 2002.

É óbvio que a Mongólia nada pôde fazer diante de Arábia Saudita (6 a 0) e Vietnã (1 a 0), mas o empate contra Bangladesh (2 a 2), com gol aos 49 minutos do segundo tempo, foi importante. Desde o classificatório para o Mundial da Coreia do Sul e do Japão, apenas mais oito seleções estrearam, metade delas do continente asiático. O primeiro triunfo na história só ocorreu em 2003, 2 a 0 sobre Guam, nas eliminatórias para a Copa do Leste Asiático (East Asian Cup).

Isso não quis dizer muita coisa. Nas Eliminatórias para a Copa da Alemanha de 2006, a Mongólia perdeu apenas de 1 a 0 para Ilhas Maldivas, em casa, um ótimo resultado. Na volta, o desastre: 12 a 0 para o adversário. É claro que os mongóis ainda não tiveram o gostinho de avançar além da fase preliminar – caíram diante de Coreia do Norte, em 2010, e Mianmar, quatro anos depois, quando conseguiram a primeira vitória na competição, 1 a 0 sobre os birmaneses. Por que não sonhar com algo melhor em 2018?

Curtas

– Sete times disputaram o Campeonato Mongol 2013, com os quatro primeiros indo para as semifinais, depois de jogos de ida e volta. O Erchim foi à final e venceu o Khangarid nos pênaltis, por 4 a 1, após empate sem gols no tempo normal.

– Até hoje a seleção mongol foi treinada por locais, que conseguiram apenas nove vitórias na história, em 45 partidas. Foram cinco empates e 31 derrotas, com 38 gols marcados e 161 sofridos. Todos os atletas atuam no próprio país.

– No Ranking da Fifa, a Mongólia está no 185º lugar, o quarto pior da Ásia, à frente apenas de Camboja, Macau e Butão. A melhor posição na história foi um 160º lugar (agosto de 2011) e a pior, em fevereiro de 2000, foi a 200ª. Para se ter uma ideia, a equipe está atrás Vanuatu, Ilhas Faröe e Timor Leste.

– A última competição disputada pela equipe foram as eliminatórias para a AFC Challenge Cup 2014. A Mongólia encarou Afeganistão, Laos e Sri Lanka e ficou na lanterna. O campeão do torneio ganha vaga na Copa da Ásia 2015.

– Na AFC Presidents Cup 2013, o Dordoi Bishkek, do Quirguistão, duas vezes campeão, foi eliminado no Grupo B. A vaga da chave na final está entre KRL e Al Hilal Quds, da Palestina, que se enfrentam na última rodada, em 27 de setembro. No grupo do Erchim, a equipe mongol empatou com o Three Star Club em 1 a 1, mas ainda tem chances. Vai precisar vencer o Balkan, num jogo difícil a ser disputado em 27 de setembro.

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