Em pleno Século XXI, capital do Nepal bane o futsal por “distúrbios e deteriorar jovens”

Houve um tempo em que o futebol era considerado como um crime. Praticar o “jogo ímpio” era passível de prisão, diante dos “muitos males que podem surgir e dos quais Deus nos livres”. Tempo em que a Idade Média ainda imperava. Há mais de 700 anos, o Rei Eduardo II resolveu banir em Londres o jogo bruto, que envolvia centenas de jogadores e muitas vezes acabava em mortes, por conta das reclamações de comerciantes pelos prejuízos causados. Afinal, além de tudo, o futebol também atrapalhava a máquina bélica dos ingleses, com muitos dos praticantes preferindo o jogo aos treinos com arco e flecha. Não à toa, a medida proibitiva se repetiu na época também em outros países, como a França e a Escócia.
Dentro do contexto histórico, dá para entender a decisão. O que não dá para entender muito é a postura da prefeitura de Katmandu, capital do Nepal, repetindo Londres em pleno Século XXI. A pedido da polícia, a prefeitura local mandou fechar todas as quadras de futebol da cidade de 975 mil habitantes. Segundo a explicação da oficial, a decisão de banir a modalidade vem por conta do alto número de quadras operando na clandestinidade, sem os certificados de segurança exigidos, gerando “distúrbios entre a população e deteriorando a juventude”.
“Há queixas de muitos moradores sobre a perturbação da vizinhança, tornando-se uma fonte para atividades ilegais, evasão fiscal, apostas, abuso de drogas e consumo excessivo de álcool”, afirmou o superintendente da polícia local, em entrevista ao jornal The Himalayan Times. Segundo a publicação, os guardas também estavam sendo repetidamente acionados por pais de estudantes que vinham faltando nas aulas apenas para frequentar as quadras.
Segundo o jornal Katmandu Post, há cerca de 50 centros de futsal na capital, com mais de 200 quadras. O esporte chegou ao Nepal há seis anos e se tornou extremamente popular, crescendo bastante entre diferentes camadas da população. “O futsal traz qualidade de vida e lazer, mas as quadras na capital não estavam fazendo exatamente o que propunham. Os operadores das quadras só terão permissão de retomar os negócios quando forem regulados e ganharem o status legal”, completou o representante da polícia.
Em resposta, os donos de quadras já formaram uma comissão para debater o assunto. “Isso chegou como uma surpresa. Fazemos o que o governo deveria fazer na área de esportes e saúde. Neste momento, quando o governo não está apto para investir, as quadras de futsal ajudam as pessoas em um modo de vida saudável”, afirma Hari Khadka, maior artilheiro da história da seleção nepalesa, que faz parte da comissão.
E a população em geral tem se colocado contra a postura. “A decisão é uma atrocidade. Opressiva, ultrajante e um típico caso de policiamento tradicional. É inaceitável que se faça isso em nome de regular o jogo. Se houve problemas em alguns lugares, a polícia deveria ter lidado com isso caso a caso”, declarou Bisham Ghimire, praticante do esporte, em entrevista ao Katmandu Post. O jornal ainda afirma que as quadras tiveram um papel importante no terremoto do Nepal de 2015, que deixou mais de 8 mil mortos, servindo de abrigo aos desabrigados na capital.
Pode até ser que a medida extrema resolva paliativamente as reclamações de parte da população. Contudo, o método de atuação contra o crime deveria ser outro, e não suspendendo uma alternativa de lazer. Neste momento, a decisão passa a impressão que o poder público está mais preocupado em lucrar com o sucesso do futsal do que propriamente melhorar as suas condições. Até porque o custo da suspensão, acima de qualquer ação de prevenção ao crime, é o cerceamento da liberdade da população. O futsal, que deveria ser visto como inclusivo, é posto à marginalidade.



