Ásia/Oceania

Quanto vale um conselho? O de Tite fez ex-Corinthians apostar na carreira de técnico

Gabriel Magalhães, hoje técnico no futebol tailandês, conta à Trivela como Tite teve papel essencial na trajetória à beira do campo

O quanto a palavra de incentivo de um ídolo pode mudar os rumos da carreira profissional de uma pessoa? O técnico Gabriel Magalhães, ex-analista do Corinthians e atualmente treinando o Chiangrai United, da Tailândia, teve a honrar de ouvir de Tite, então na Seleção Brasileira, as palavras que faltavam para apostar na vida à beira do campo, conforme contou à Trivela em conversa exclusiva nesta semana via videoconferência.

O ano era 2018. Magalhães integrava o CIFUT (Centro de Inteligência do Futebol do Corinthians) e estava completando a licença Pro de treinador na CBF Academy. Por lá, dividiu a turma com nomes grandes do futebol brasileiro, como Dorival Júnior, Rogério Ceni e o próprio Tite. Naquele momento, mesmo sendo analista de um clube gigante, queria migrar de volta para o campo, onde já tinha construído trajetória como auxiliar em clubes de Brasília, sua cidade natal.

Eis que em uma das conversas na classe da CBF, o jovem analista, questionado pelo agora treinador do Flamengo se queria ser técnico, ouviu um conselho que mudou os rumos da sua carreira.

— Em 2018 e 2019 foi o ápice, o boom da CBF Academy e eu estava nessas turmas. Nessa época, estava trabalhando no CIFUT e fazendo as licenças porque queria voltar a trabalhar no campo. Tem uma história que eu gosto muito, que foi a mudança de chave na minha carreira. No intervalo de uma turma, eu sentava na frente do Tite e César Sampaio. E o Tite virou e me perguntou ‘Gabriel, tu vai continuar na análise, ser sempre analista, ou vai ser treinador?’ e eu disse que meu sonho era voltar para o campo. Aí ele deu um tapa na mesa e falou: “Por**, é isso, aí, cara. Você ta se formando como ‘engenheiro’ e não vai construir um prédio?“. — contou Magalhães, aos risos e orgulhoso do conselho com metáfora do professor.

Tite, um ídolo daquele analista, fez a diferença para a mudança que viria meses depois, quando Gabriel saiu do Corinthians, onde esteve entre 2016 e 2020, e voltou ao campo para ser auxiliar técnico do Gama, depois passando também por Sampaio Corrêa, Fortaleza e Buriram United, também da Tailândia.

— Aquilo ali foi um ‘start’ na minha vida. Pensei, ‘caramba, se ele acredita em mim, me deu esse ânimo de acreditar, quem sou para não acreditar’. É a história que mais me marcou na vida porque foi uma injeção de ânimo daquele que é meu ídolo como treinador.

Mas Magalhães ainda demorou para ser comandante principal de um time. Inicialmente, foram apenas trabalhos como auxiliar, inclusive no Chiangrai como treinador do time B e auxiliar, iniciando no meio de 2022. Cerca de seis meses depois, com a saída do técnico do profissional, assumiu finalmente o cargo e segue por lá até hoje.

No primeiro Campeonato Tailandês sob comando de Magalhães, a equipe fez boa campanha, terminando em quinto entre 16 times. Na atual temporada, com o clube sofrendo de problemas financeiros, o time ocupa apenas a oitava colocação após 25 rodadas.

O contrato de Gabriel Magalhães com o Chiangrai vai até fim de maio, quando acaba a Thai League. Apesar do interesse de clubes brasileiros em dezembro do ano passado, o técnico de 40 anos optou por cumprir seu vínculo e agora crê que continuará na Ásia ao invés de voltar ao Brasil.

— Acredito que eu devo continuar por aqui. O trabalho vem sendo bem feito. Na passada a gente terminou na quinta posição. Esse ano a gente teve muitos problemas financeiros do clube e assim ainda estamos competindo. […] Devo ter uma oportunidade. Não sei se na Tailândia, talvez na Indonésia, Singapura, Malásia, o mundo árabe, enfim. Tem muito lugar por aqui que a gente pode trabalhar.

Gabriel Magalhães tem contrato com Chiangrai até maio (Foto: Divulgação)

Segurança, roupeiro e até árbitro! Gabriel Magalhães lutou para chegar no futebol

De Brasília, uma cidade que não é das maiores vitrines para o futebol, Magalhães tentou e conseguiu um lugar no esporte. Sem ter sido jogador, assumiu que já se sentiu diminuído no vestiário por não ser boleiro, mas que superou essa desconfiança com o conhecimento no futebol.

Para alcançar construir a trajetória que tem hoje, foi segurança, manobrista, vendeu perfume e, dentro do futebol, até foi árbitro e roupeiro de um time local, além de treinar em uma escolinha. Foi no Gama, clube que sempre torceu e tem relação até familiar por ser sobrinho do ex-presidente Weber Magalhães, que começou a trilhar o caminho no futebol.

— Eu comecei num lugar [Brasília] onde praticamente não tem futebol, né? E assim, meu sonho era só trabalhar com futebol, e eu fui para o Gama, que era o clube que eu sempre torci.

‘Crescimento muito rápido’: jovem técnico fala de curto período no Fortaleza

Foram apenas três meses no Leão do Pici, o outro gigante da carreira de Gabriel, entre abril e julho de 2022, mas deu tempo dele perceber o que tem de interessante no clube que ganhou protagonismo no Brasil dos últimos anos.

— O que vi no Fortaleza é um clube que está propondo crescimento muito rápido, cara. São muitas ideias para frente, é um presidente [Marcelo Paz] que pensa muito no clube para frente, que defende muitas ideias do clube. […] É um time que tem tudo para ser muito grande, e o principal de tudo, é muito gostosa a cidade e a torcida é fantástica.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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