Ásia/Oceania

China: as duras etapas necessárias à evolução

Nas últimas temporadas, ampla gama de jogadores vem decidindo desembarcar na outrora obscura liga chinesa, especialmente a partir de 2004, quando a federação nacional promoveu a primeira edição da Chinese Super League, que nasceu com o objetivo de cobrar mais profissionalismo e organização fora de campo das equipes – o Campeonato Chinês profissional existe desde 1994.

Dito feito, atletas consagrados internacionalmente, como o marfinense Didier Drogba, 34 anos, o francês Nicolas Anelka, 33, o zambiano Christopher Katongo, 30, estrela da última Copa Africana de Nações, o malinês Fréderic Kanouté, 35, entre muitos outros, aceitaram os milhares de dólares mensais, além da possibilidade de esticar em mais algumas temporadas suas vitoriosas carreiras.

Entretanto, assim como fizeram os Estados Unidos há duas décadas – e que hoje colhem os frutos do longo investimento –, a China atravessa apenas a primeira etapa de um projeto de prazo extenso: evoluir o futebol nacional e consequentemente melhorar a qualidade da seleção. Mas esse percurso apresenta inúmeros percalços e provações…

Coadjuvantes

Ao se analisar a primeira divisão chinesa desde 2004, percebe-se que em apenas duas oportunidades o artilheiro geral da competição foi um atleta chinês. Em 2006 e 2007, o atacante Li Jinyu desbancou seus compatriotas e terminou no topo da tabela de marcadores. Naquela época, ainda no início da importação de estrangeiros, os chineses dominavam o quesito “bola na rede”, com quatro atletas dentre os sete primeiros em 2006, e seis num universo de nove jogadores na temporada seguinte.

Porém, a partir de 2008, a história mudou radicalmente. Os estrangeiros passaram a fazer mais gols e consequentemente garantir a bola de ouro ao final do ano, prêmio concedido ao melhor marcador. Além disso, o número de chineses entre os principais goleadores foi caindo a cada temporada, chegando a apenas um em 2012, entre os oito melhores da liga, o meia Wang Yongpo, 25 anos, do Shandong Luneng. 11 atletas ficaram à frente dele, sendo quatro brasileiros. O domínio estrangeiro ficou tão perturbador, que a federação local decidiu instituir em 2011 o prêmio para o artilheiro chinês da temporada.

O mais perto que um nativo ficou do melhor marcador geral ocorreu em 2009, quando Han Peng, do Shandong Luneng, marcou 17 vezes, três a menos que o colombiano Duvier Riascos, 26, que hoje defende o Tijuana (México) – veja matéria sobre o inédito título nacional da equipe. Pode-se afirmar que os nativos são os que mais atuaram na edição 2012 da liga chinesa (apenas dez atletas, todos chineses, jogaram as 30 partidas da temporada), mas estes marcaram apenas 21 gols, sendo substituídos 19 vezes.

Escassez

Como as regras da federação chinesa permitem que até cinco estrangeiros (quatro ao mesmo tempo) disputem jogos, os técnicos, a maioria de fora do país, preferem escalá-los em detrimento dos locais, sempre que possível – quem joga a Liga dos Campeões da Ásia ainda pode adicionar dois atletas de fora, aumentando o número para sete.

Em levantamento exclusivo realizado pela Trivela – veja-o na íntegra ao final do texto –, apenas cinco equipes não ocuparam todas as vagas de estrangeiros a que têm direito, logicamente as de menor poder aquisitivo. Por exemplo, enquanto a média de valor de mercado dos cinco atletas de fora do Shanghai Shenhua, time de Drogba, alcança € 2,250 milhões, a conta dos quatro forasteiros no modesto Qingdao Jonoon é de apenas € 287,5 mil.

É também do Qingdao Jonoon a proeza de ser o único da elite em que um chinês é mais valorizado que um estrangeiro. O meia Jian Liu, 28 anos, da seleção e capitão do time, vale € 500 mil, contra € 400 mil do brasileiro Bruno Meneghel, contratado junto ao América Mineiro no meio da temporada. Em todos os outros times, os “intrusos” valem mais, o que é normal.

Por esta razão, o principal prejudicado pela invasão de forasteiros em detrimento dos locais é o espanhol José Camacho, atual técnico da seleção chinesa. Em 2002, na única participação do país numa Copa do Mundo, apenas três chineses atuavam no exterior, e quem jogava na liga nacional encontrava espaço e oportunidades.

Na convocação de Camacho para o último compromisso chinês, um amistoso diante da Nova Zelândia (empate de 1 a 1), todos os atletas chamados atuavam no próprio país, até porque as atuais opções do treinador no exterior não agradam muito. Dos 19 jogadores que tentam evoluir fora da China, 12 defendem clubes de Hong Kong, uma liga inferior, dois as divisões inferiores de Portugal, além do “craque” Zizao, do Corinthians.

O mais promissor é o atacante Zheng Chengdong, 23, do Eintracht Braunschweig, da segunda divisão alemã, que já recebeu suas chances – há ainda um atleta na segundona da França e outro na Major League Soccer. A atual dificuldade por que passa o futebol da China, que sequer chegou à fase final das eliminatórias 2014, caindo diante de Jordânia e Iraque, não quer dizer que estão havendo erros na caminhada. Até que os nativos possam brigar de igual para igual com os estrangeiros que jogam na China e, por que não, sonhar com uma carreira no exterior, longos anos discorrerão. Aí está o exemplo dos estadunidenses…

Valores: estrangeiros versus locais

Clube

Estrangeiros/Locais (valores em €)

Estrangeiros/Locais

média (total atletas)

Jogador mais caro

(em €)

Posição liga

(2012)

Guangzhou Evergrande

10,250 milhões

6 milhões

1,464 milhão (7)

214 mil (28)

Lucas Barrios (PAR)

5 milhões

1º colocado (Liga dos Campeões Ásia)

Shanghai Shenhua

11,250 milhões

2,1 milhões

2,250 milhões (5)

70 mil (27)

Didier Drogba (CMA)  3,5 milhões

9º colocado

Shandong Luneng

5,750 milhões

4 milhões

1,150 milhão (5)

133 mil (30)

Simão (MOÇ)

1,5 milhão

12º colocado

Dalian Aerbin

6,3 milhões

1,7 milhão

1,260 milhão (5)

58,6 mil (29)

Seydou Keita (MAL)  2,5 milhões

5º colocado

Guangzhou R&F

4,750 milhões

1,950 milhão

950 mil (5)

69,6 mil (28)

Yakubu Aiyegbeni (NIG) – 3 milhões

7º colocado

Guizhou Moutai

4 milhões

2,475 milhões

800 mil (5)

103,1 mil (24)

Rubén Suárez (ESP)  1,5 milhão

4º colocado (Liga dos Campeões Ásia)

Jiangsu Sainty

3,8 milhões

2 milhões

760 mil (5)

66,6 mil (30)

Cristian Danalache (ROM) – 1,5 milhão

2º colocado (Liga dos Campeões Ásia)

Beinjing Guoan

2 milhões

2,925 milhões

500 mil (4)

97,5 mil (30)

Fréderic Kanouté (MAL) – 1 milhão

3º colocado (Liga dos Campeões Ásia)

Henan Construction

2,725 milhões

2,075 milhões

545 mil (5)

71,5 mil (29)

Adailton (BRA)

1,5 milhão

16º colocado (rebaixado)

Changchun Yatai

2,7 milhões

1,475 milhão

540 mil (5)

61,4 mil (24)

Marquinhos (BRA)

 800 mil

6º colocado

Liaoning Whowin

2 milhões

1,725 milhão

500 mil (4)

66,3 mil (26)

Pablo Brandán (ARG)

 1 milhão

10º colocado

Dalian Shide

1,475 milhão

2,2 milhões

368 mil (4)

84,6 mil (26)

Adriano Cruz (BRA)  500 mil

14º colocado (extinto)

Hangzhou Greentown

2,1 milhões

1,450 milhão

420 mil (5)

51,7 mil (28)

Renatinho (BRA)

750 mil

11º colocado

Shanghai Shenxin

2,050 milhões

1,4 milhão

410 mil (5)

53,8 mil (26)

Anselmo (BRA)

750 mil

15º colocado (rebaixado)

Tianjin Teda

1,350 milhão

1,725 milhão

450 mil (3)

63,8mil (27)

Vladimir Jovancic (SER) 650 mil

8º colocado

Qingdao Jonoon

1,150 milhão

2,350 milhões

287,5 mil (4)

78,3 mil (30)

Jian Liu (CHI)

500 mil

13º colocado

 

 Curtas

– A menor média de valor de mercado dos atletas da casa pertence ao Hangzhou Greentown, 11º colocado na liga: apenas € 51,7 mil por cada um dos 28 atletas. No outro extremo, cada um dos 28 jogadores chineses do Guangzhou Evergrande vale € 214 mil.

– O atacante argentino Lucas Barrios, do Guangzhou Evergrande, é o atleta mais valioso na China, valendo € 5 milhões. Mas é do Shanghai Shenhua o maior montante total dos estrangeiros, € 11,250 milhões, € 1 milhão a mais que o time de Barrios. Por outro lado, o Qingdao Jonoon tem os quatro estrangeiros avaliados em apenas € 1,150 milhão.

– O romeno Cristian Danalache, do Jiangsu Sainty, quebrou recorde em 2012. Além de ser artilheiro da temporada, o atleta se tornou o estrangeiro que mais marcou em um ano, desde 2004, com seus 23 gols. No entanto, o chinês Li Jinyu tem 26 gols, o dono da melhor marca.

– Um ponto positivo do projeto de evolução do futebol chinês é o público. Em 2012, exatos 4,497.578 torcedores estiveram presentes nos estádios durante a temporada, acréscimo de 6,2% em relação à 2011, o então recorde, desde 1994. Pelo segundo ano consecutivo a liga nacional tem mais de quatro milhões de pessoas.

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