Ásia/Oceaniaespeciais

Chamusca: “É preciso aliar dinâmica tática ao talento”

Motivado pela possibilidade de um projeto a longo prazo, Péricles Chamusca trocou o Brasil pelo Qatar em 2010, mais precisamente o Avaí pelo Al-Arabi, e posteriormente o El Jaish, que saiu da segunda divisão nacional no ano passado e atualmente, faltando uma rodada para o fim do campeonato, ocupa a vice-liderança da Stars League.

Comandante de todo esse processo, o brasileiro ganhou prestígio por lá, a ponto de ser cogitado para a seleção nacional, o que coroaria uma carreira de 17 anos que já soma conquistas importantes, como o título da Copa do Brasil pelo Santo André em 2004, ou o vice da mesma competição em 2002, com o Brasiliense. Em entrevista exclusiva à Trivela, ele fala sobre assuntos como a perspectiva de uma oportunidade boa no Brasil, a falta de perspectiva de um trabalho a longo prazo por aqui, a diferença tática entre times brasileiros e europeus, além, é claro, da preparação do Qatar para a Copa do Mundo de 2022. Confira:

– Você passou quatro anos trabalhando no Japão e, depois de uma rápida passagem no Brasil, foi para o Qatar, onde já está há dois anos. Como você avalia esse período fora do país?

Vem sendo positivo. No Japão, fiquei quatro anos no Oita Trinita, consegui ter um trabalho longo e pude contribuir na formação de alguns jogadores que hoje atuam na seleção japonesa. No Qatar, cheguei em 2010 para comandar o Al-Arabi, e no ano passado fui para o El Jaish, que jamais havia disputado a primeira divisão nacional. Nesta primeira temporada, tivemos muitos problemas, só conseguimos jogar com o time completo em 2012, o Anderson Martins passou seis meses sem jogar por um problema na inscrição, outros jogadores também. Mas ainda assim podemos ser vice-campeões.

– Muitos técnicos escolhem trabalhar fora do país pela questão financeira, ou pela pressão menor que existe em outros centros. Mas vários deles voltam ao Brasil por sentir saudades da pressão, dos holofotes, e da própria casa. Como você analisa essa questão?

A questão financeira deixou de ser determinante para a saída dos técnicos, porque hoje se paga tão bem no Brasil quanto aqui. O que me atrai é a possibilidade de fazer parte de um projeto de desenvolvimento do futebol no Qatar para a Copa de 2022, acho importante participar desse processo de crescimento. Além disso, a possibilidade de fazer um trabalho longo, ter uma continuidade, é outro fator que pesa muito. Mas ainda assim trabalhamos com uma perspectiva de retorno. Acompanho bastante o futebol brasileiro, me preparo para quando uma boa oportunidade chegar.

– E como seria essa boa oportunidade?

Quero ter a chance de treinar um clube forte, com perspectivas de lutar por vaga em Copa Libertadores ou ser campeão brasileiro. Fui vice-campeão da Copa do Brasil em 2002 com o Brasiliense, campeão em 2004 com o Santo André, mas quero buscar um título do Campeonato Nacional. A única chance que tive na carreira nesse sentido foi no São Caetano em 2004, quando lutamos quase até o fim pelo título, mas o episódio da morte do Serginho e possibilidade da perda de pontos, que se concretizou, acabaram complicando a situação.

– Você falou sobre o título do Santo André na Copa do Brasil de 2004. Ainda mantém contato com alguém daquele grupo?

Aquela campanha foi maravilhosa, fortaleceu a amizade de todos na época, e sempre que encontro alguém daquele time é uma alegria. Mantive contato com o Sérgio Soares, que foi meu auxiliar, começou uma carreira de treinador depois e atualmente faz um grande trabalho no Cerezo Osaka, no Japão. Cheguei a indicá-lo ao Avaí quando saí de lá, mas as negociações acabaram não dando certo.

– Você teve sua primeira oportunidade como técnico de uma equipe profissional aos 28 anos no Vitória, comandando às vezes jogadores mais velhos do que você, como, na ocasião, o meia-atacante Adoílson e o goleiro Borges. Como foi esse desafio?

Foi uma experiência boa. Na época, vínhamos de um trabalho com a base, surgiram jogadores como Vampeta, Dida, Rodrigo, Paulo Isidoro, Alex Alves… Eu era jovem, mas me sentia preparado para o desafio.

– Você já teve alguma proposta para trabalhar na Europa?

Sim. Tive uma proposta do Nacional da Ilha da Madeira, mas as coisas acabaram não evoluindo. Em Portugal, eles gostam muito dos técnicos brasileiros, sobretudo na Ilha da Madeira, Nacional e Marítimo já tiveram muitos brasileiros no comando.

– Em Portugal sim, mas no resto da Europa há poucos técnicos brasileiros trabalhando. Na sua opinião, há alguma explicação para que isso ocorra?

Creio que haja uma diferença de metodologia. É necessário ter uma visão tática diferente para trabalhar no futebol europeu, pois os conceitos que eles utilizam lá são pouco aplicados aqui. No Brasil, agora é que estamos começando a marcar linha de passe, usar linha de pressão, trabalhar com defesa alta, times mais agrupados com menos espaços entre os setores, com meias fechando os espaços. Isso tudo faz a diferença, e enquanto não nos adaptarmos a essa dinâmica, vamos sofrer um pouco em termos de resultados internacionais.

– Na sua opinião, essa questão tática pode prejudicar a seleção brasileira em termos de resultados?

Na seleção, não, porque a maioria dos jogadores atua na Europa e está acostumada com essa dinâmica de jogo diferente, até conversei sobre isso com o Mano Menezes quando ele esteve aqui no Qatar para o amistoso contra o Egito. O  talento do jogador brasileiro ainda faz a diferença, e creio que, quando conseguirmos juntar o nosso talento com essa dinâmica, poderemos crescer muito.

– Quando saiu do Brasil, o Anderson Martins já começava a ser cogitado para a seleção brasileira. Pensas que ele pode ser convocado?

O Anderson ficou um tempo sem jogar aqui por causa de problemas em sua inscrição, mas voltou em 2012 e está muito bem. O Mano perguntou por ele quando esteve aqui, e creio que ele está entre os jogadores observados pela comissão técnica da Seleção.

Na sua opinião, o fato dele jogar em uma liga em tese mais fraca, com exigência física inferior, não diminui as chances dele?

– Quem quiser uma exigência física inferior terá que ir para outro clube (risos). Aqui, trabalhamos em dois períodos, com muita intensidade, logicamente respeitando o clima aqui, que é muito quente, mas em condições bem semelhantes às do Brasil.

– Como é a preparação do Qatar como país para a Copa do Mundo de 2022?

A parte física, estrutural, é muito bonita. A cidade do Qatar tem um projeto para ser o principal centro do Oriente Médio em 2030 (atualmente Dubai ocupa esse posto). O problema durante a Copa do Mundo será o clima no país, mas eles já pensam em resolver esse problema com a tecnologia disponível. Fala-se até na construção de uma cidade subterrânea, e creio que eles conseguirão fazer um belo torneio.

– Recentemente, a seleção do Qatar passou por uma troca de comando (Em fevereiro, Paulo Autuori substituiu Sebastião Lazaroni). Você pensa em comandar a seleção nacional no momento?

A imprensa daqui chegou a especular meu nome quando o Lazaroni saiu, mas não houve nenhum contato oficial. E nem era o momento. Primeiro, quero executar esse projeto com o El Jaish, ser campeão nacional e consolidar a equipe, para, aí sim pensar em comandar uma seleção. Mas, como todo profissional, tenho o sonho de participar de uma Copa do Mundo.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo