Ásia/Oceania

Catar, a liga das estrelas em decadência

Em 6 abril de 2013, o Al Gharaffa, sete vezes campeão nacional, anunciou a contratação do veterano Harry Kewell, australiano de 34 anos. O atleta, que já defendeu Leeds United (1996-03), Liverpool (2003-08) e Galatasaray (2008-11), jogou a temporada de 2011-12 pelo Melbourne Victory, marcando oito vezes em 25 jogos, mas se viu obrigado a deixar a equipe em junho de 2012, a fim de apoiar a esposa, cuja mãe estava bastante doente.

Desde então, Kewell não entrava em campo, o que veio a acontecer somente em 6 de abril de 2013, quando participou dos nove minutos derradeiros do confronto diante do Al Sadd. No último dia 13 do mesmo mês, o australiano, com a camisa número 99, jogou toda a partida, mas o Al Gharaffa foi humilhado pelo lanterna Al Sailiya, por 4 a 1, fora de casa, apenas a segunda vitória do adversário em 21 rodadas.

Faltando um jogo para o fim do campeonato catariano, parece equivocada a decisão do Al Gharaffa de apostar suas fichas num jogador de 34 anos, que não atuava há mais de seis meses, em pleno fim de temporada. E Kewell nem é tão famoso a ponto de atrair público e investimentos…

Cifras

A partir de 2009-10, a federação nacional decidiu aumentar o número de equipes na primeira divisão de dez para 12 participantes, numa intenção de retomar o bom monento da primeira metade da década de 2000, quando estrelas internacionais, como Batistuta, os irmãos Frank e Ronald de Boer e Pep Guardiola, futuro treinador do Bayern Munique, abrilhantaram as partidas da liga local, para ficar em alguns nomes. Na época, o dinheiro do petróleo permitiu que cada equipe tivesse U$$ 10 milhões para contratar jogadores.

Em 2012-13, apenas dois dos 12 clubes da principal divisão do país não têm estrangeiros – não se levou em conta os naturalizados catarianos. Do total de 470 jogadores, 120 são do exterior, ou 25,5%, bem abaixo dos dados da Premier League, por exemplo, que possui 65,6% de “forasteiros”, de acordo com o Transfermarkt.

O Brasil é a nação que mais exporta atletas para o Catar, com 22 nomes, destaques para Nilmar, Alex (meia ex-Inter e Corinthians), Nenê, Madson, Bruno Mineiro e até Domingos, zagueiro de avantajado físico, além de Afonso Alves e Rodrigo Tabata. Nenê, um dos poucos que vivia bom momento no passado recente, com 21 gols na Ligue 1 pelo PSG em 2011-12, estava machucado e preterido diante das recentes estreladas contratações do clube francês, motivo de sua mudança para o Catar em janeiro de 2013.

Da França, o estiloso atacante Djibril Cissé, 31 anos, que já teve seus momentos de sucesso, vestia a camisa do pequeno Queens Park Rangers, quando surgiu a oportunidade de empréstimo ao Al Gharaffa, negócio prontamente aceito. Outro veterano é o australiano Mark Bresciano, 33 anos, que se machucou no fim da atual temporada, motivando a contratação de Kewell.

A lista de experientes continua com o meia iraniano Andranik Teymourian, 30, que passou pelo futebol inglês (Bolton e Fulham) na segunda metade dos anos 2000, e decidiu deixar seu país em busca de mais alguns milhares de dólares do Catar – ele é um dos destaques da seleção iraniana, que busca vaga no Mundial 2014.

Entretanto, o mais famoso estrangeiro é o atacante espanhol Raúl González, 35 anos, ex-Real Madrid, Schalke 04 e seleção espanhola. Com 21 partidas disputadas, o jogador marcou nove gols e ajudou o Al Sadd a vencer a liga nacional depois de cinco anos de jejum, logo em sua primeira temporada – o artilheiro foi Sebástian Soria, uruguaio naturalizado catariano, com 17 gols.

Velhos desconhecidos

O projeto de evolução dos atletas locais também resulta em contratações de jogadores menos famosos, mas igualmente experientes em se tratando de futebol internacional. Um exemplo é o burquinense Moumouni Dagano, 32. Ex-Sochaux, Guingamp (substituiu Didier Drogba, contratado pelo Olympique de Marseille) e Genk, Dagano tem seis copas africanas no currículo e 31 gols por Burkina Fasso.

O argelino Nadir Belhadi, lateral esquerdo de 30 anos, permaneceu no Al Sadd mesmo com as propostas de Celtic, Wigan e Wolverhampton. Outros nomes ainda mais desconhecidos, mas que já mostraram qualidade em suas seleções, são os do omani Ahmed Al-Mukhaini (El Jaish), do guineense Ismael Bangoura (Umm Salal), emprestado pelo Nantes, e do iraquiano Younis Mahmoud (Al Sadd), dono de seis gols desde 8 de fevereiro de 2013.

Exceção positiva

Além de apostar nos velhinhos, de vez em quando o futebol do Catar investe corretamente, como na contratação do atacante tunisiano Youssef Msakni, 22 anos. Especulado em meados de 2012 por Arsenal, PSG, Lille e Montpellier, o então jogador do Espérance de Tunis preferiu assinar por quatro anos com o Lekhwiya, antes de fazer sucesso na Copa Africana de Nações 2013 – o valor da transferência alcançou €11,5 milhões, um recorde no futebol da Tunísia. Habilidoso, não vai demorar muito para a estrela africana rumar para o velho continente.

Entretanto, já sem muito poderio para atrair estrelas da envergadura de Batistuta, o futebol do Catar deverá se contentar em trazer jogadores de médio escalão, mais baratos e com qualidade, que podem ajudar os locais a evoluir, com o único objetivo de não fazer feio na Copa do Mundo de 2022.

Curtas

– Ainda de acordo com o Transfermarkt, o Iraque é o segundo país com mais estrangeiros no Catar, com oito atletas. Em seguida aparecem Argélia e Sudão (ambos com sete), além de Bahrein e Marrocos (com seis). Tem até um somaliano, o meia Ali Aden Quilnela, de 24 anos, que tem 53 jogos pelo Umm Salal.

– Desde 2006, a federação nacional premia os melhores atleta e técnico da temporada, mas somente uma vez um catariano de nascimento recebeu a honraria: em 2010-11, com o técnico Abdullah Mubarak, do lanterna Al Ahli (15 pontos em 22 jogos). Nos dois primeiros anos, Sebastián Soria e Emerson Sheik levaram o troféu de melhor jogador – Juninho Pernambucano (2010) e Rodrigo Tabata (2012), além dos técnicos Marcos Paquetá (2008), Sebastião Lazaroni (2009) e Caio Júnior (2010), foram os brasileiros presenteados.

– 16 dos 22 jogadores brasileiros no Catar tiveram a honra de balançar as redes adversárias na temporada 2012-13 – não se computam os naturalizados. O melhor marcador foi Nilmar, com 14 gols, seguido de Julio César, revelado no Sport e desde 2009 no país, com 12. No total, 92 gols tiveram a assinatura tupiniquim.

– Mesmo com uma rodada por disputar, as vagas catarianas na Liga dos Campeões da Ásia 2014 estão definidas. Além do campeão Al Sadd (50 pontos), Lekhwiya (45) e El Jaish (40) vão jogar o mais importante torneio do continente. Já o Al Sailiya (dez pontos) ficou na lanterna e terá de disputar a obscura segunda divisão nacional. A vaga nos playoffs de despromoção está entre Al Arabi e Al Kharitiyath, que tem 20 pontos, três a mais que o adversário. Na segundona, o Al Ahli foi o vencedor e retorna à elite, enquanto o Muaither aguarda a definição de seu oponente nos playoffs.

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