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Noriega: Primavera árabe chega e Arábia Saudita abala estruturas do futebol

Arábia Saudita começa a mudar para sempre o futebol com seus milhões e projeto que vai além do futebol

A monarquia saudita está propondo uma revolução no esporte mundial. Com o objetivo de suavizar a imagem do país para o mundo, tem avançado sobre propriedades do esporte profissional de alto rendimento, principalmente o futebol. A iniciativa faz parte de um plano chamado Vision 2030. Um dos objetivos mais ousados é organizar a Copa do Mundo de 2030 em parceria com Egito e Grécia.

Os monarcas sauditas sabem que o petróleo acabará um dia. Com os cofres abarrotados pelo lucro proporcionado pela segunda maior reserva de óleo do planeta, pensam adiante. Há números que apontam para uma reserva petrolífera mundial que dure mais 50 anos. Mas a data de 2030 tem simbologia, pois é uma proposta para o fim do uso dos combustíveis fósseis – que não será cumprida, é óbvio, mas cria pressão econômica e política.

Arábia Saudita tem trilhões de reais para investir na sua imagem

Por ser um regime ditatorial extremamente duro e fechado, o árabe saudita chegou atrasado a essa remodelação de matriz econômica. Os Emirados Árabes Unidos e o Catar estão mais avançados. Para ganhar terreno e recuperar tempo os sauditas decidiram investir pesado no esporte. O Fundo Soberano Saudita (PIF na sigla em inglês) tem cerca de R$ 3 trilhões para investir. Obviamente não será apenas no esporte, mas esse ramo seduz pela visibilidade, que serve para a propaganda oficial e tem impacto imediato.

O fundo saudita já causou reboliço no golfe internacional. Após criar uma liga poderosíssima economicamente, que seduziu muitos dos grandes golfistas internacionais, a LIV, o PIF forçou uma fusão com o PGA Tour, o maior circuito profissional do golfe mundial, que controla os circuitos dos EUA, Canadá, México, América Latina e China. O caso chegou até ao Congresso dos Estados Unidos. O PIF comprou o Grande Prêmio da Arábia Saudita de Fórmula 1 e uma fatia da equipe Aston Martin. O avanço sobre o futebol incluiu a aquisição do Newcastle, da Inglaterra, ações milionárias de patrocínio e, por fim, a injeção fenomenal de capital na Liga Profissional de Futebol da Arábia Saudita.

Como PIF da Arábia Saudita atua no futebol?

O PIF comprou os quatro times mais populares do país: Al-Nassr, Al-Ittihad, Al-Ahli e Al-Hilal. O modelo de negócio está atrelado ao projeto Vision 2030. A ideia é investir nos clubes para que eles sejam valorizados e posteriormente vendidos com lucros para o próprio governo.

Inicialmente pode parecer um novo Eldorado para o futebol. O problema está na regulamentação – no caso a falta dela. O conceito de fair-play financeiro é inexistente. Os investimentos nas contratações de superestrelas como Cristiano Ronaldo, Benzema, Mané e Neymar estão completamente fora da realidade mundial, inclusive da europeia. Em um regime ditatorial, no qual o Estado é proprietário dos quatro times mais poderosos, realisticamente, quais seriam as chances das outras 14 equipes da Liga?

Dinheiro tem, mas polêmica também não falta na Arábia Saudita

Uma polêmica inicial foi criada quando Cristiano Ronaldo fez o sinal da cruz para comemorar um gol na vitória sobre o Al-Shorta. A Arábia Saudita é uma monarquia absoluta islâmica. Embora oficialmente não exista uma lei que proíba professar outra fé, o assunto ganhou corpo. Assim como o francês Benzema declarou que escolheu a Liga Saudita por ser um país muçulmano e ele ter o desejo de morar em uma nação que professe sua fé.

Fato é que a Liga Saudita está abalando os pilares tradicionais do futebol. Caso obtenha sucesso esportiva e economicamente, não vai demorar a atrair craques jovens e não apenas atletas consagrados acima de 30 anos. Houve uma tentativa com Mbappé que não frutificou.

Investimento saudita é preocupação para o futebol brasileiro

Para o futebol brasileiro os ventos que sopram do Deserto da Arábia são preocupantes. Nosso futebol, que tinha pouco poder de barganha ante a ofensiva de europeus e asiáticos, agora entra na mira do dinheiro saudita. Jogadores conversam entre eles, e o poder econômico do futebol está concentrado nas mãos de um grupo pequeno de empresários. Houve um tempo em que o mandarim ameaçava tornar-se o idioma predominante sobre o inglês. Agora as matrículas em cursos expressos de árabe estão valorizadas.

Por enquanto, fica a curiosidade sobre a atração esportiva que a Liga Saudita representará. Qual será o nível dos jogos e como o produto vai ser recebido? Numa segunda etapa, cabe aguardar o posicionamento da FIFA como entidade reguladora. Principalmente porque o Fundo Soberano Saudita projetou adquirir a Copa do Mundo da FIFA como um de seus ativos há alguns anos. O assunto arrefeceu, mas para um regime que imprime dinheiro e tenta impor sua propaganda ao mundo, é bom ficar de olho nos próximos movimentos. A ideia é comprar muito mais que Mil e Uma Noites de futebol.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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