Ásia/Oceania

A 1ª impressão é a que fica?

No sábado, foi dado o pontapé inicial para a Copa da Ásia, competição continental que reúne 16 seleções no Catar. O torneio passou a ter mais atenção da imprensa mundial já que é disputada pouco mais de um mês depois do anúncio da Fifa de que o emirado será sede da Copa do Mundo de 2022.

Obviamente que não há como se comparar o nível de interesse que gira em torno de um Mundial e de um torneio continental na Ásia. Mas apesar de todos os esforços da comissão organizadora e da QFA, a associação de futebol do Qatar, os estádios seguem vazios – nem mesmo na estreia da seleção local, no sábado, o Khalifa International Stadium, que tem capacidade para 50 mil torcedores, esteve lotado. O público de 37.143 espectadores foi, de longe, o maior do torneio até na primeira rodada, mas é sintomático que nem mesmo o time da casa tenha enchido as arquibancadas.

Em campo, os oito jogos disputados mostraram o que já se previa: a diferença de nível entre as seleções chega a ser, em alguns momentos, constrangedora. O retrato disso foi o jogo entre Austrália e Índia, pelo grupo C. Os Socceroos dominaram inteiramente o jogo e o placar de 4 a 0 acabou sendo até baixo diante da superioridade demonstrada em campo. No mesmo grupo, a Coreia do Sul, outra das favoritas, venceu Bahrein por 2 a 1, mesmo sem empolgar. O capitão da equipe sul-coreana, Park Ji-Sung, que está se despedindo da equipe no torneio, avaliou a atuação como “positiva”, apesar do susto com o gol barenita no fim do jogo.

A grande surpresa da rodada foi o Japão. Contando com um time que tem vários jogadores que estão no futebol europeu e que disputaram a Copa do Mundo, há seis meses, o time dirigido por Alberto Zaccheroni achou um gol aos 47 minutos do segundo tempo, através do zagueiro Maya Yoshida, para empatar em 1 a 1 um jogo contra a modesta seleção da Jordânia. No grupo B, os japoneses terão pela frente Síria, nesta quinta (13) e Arábia Saudita, na segunda-feira (17), e ao que tudo indica, não terão vida fácil pela frente – a Síria venceu a Arábia Saudita por 2 a 1.

No grupo A, a seleção da casa decepcionou. O time é uma espécie de filial da ONU: tem jogadores nascidos no Quênia, no Kuwait, no Uruguai, na Arábia Saudita, no Brasil (o meia Montezine, revelado pelo São Paulo, lá chamado de Fábio César) e até mesmo no Catar. O treinador é o francês Bruno Metsu. Não tinha muito jeito desta Torre de Babel dar certo: o time perdeu para o Uzbequistão por 2 a 0. Também por 2 a 0, a China venceu o Kuwait.

No grupo D, Coreia do Norte e Emirados Árabes empataram sem gols diante de apenas 3.639 torcedores – o menor público do torneio. Em um confronto emblemático, o Irã venceu o Iraque por 2 a 1, de virada, e confirmou o favoritismo para ser a primeira colocada do grupo. Com um futebol que vem subindo de nível para os padrões continentais, uma base que atua quase toda no país (as exceções são os meio-campistas Javad Nekounam e Masoud Shojaei, do Osasuna, da Espanha), o time tem boas chances de lutar pelo título, principalmente se conseguir passar por Austrália ou Coreia do Sul nas quartas de final – não acredito que Bahrein ou Índia incomodem.

Apesar do tropeço, o nível de futebol de japoneses, sul-coreanos e australianos está ainda muito acima dos demais concorrentes continentais. Os três países são os mais bem colocados no ranking da Fifa, e os que reúnem mais jogadores atuando em ligas de mais expressão na Europa. Apesar da última edição do torneio, em 2007, ter sido vencida pelo Iraque, o Japão foi campeão nos dois campeonatos imediatamente anteriores (2000 e 2004). Na Liga dos Campeões, principal competição interclubes, o predomínio se repete: as últimas cinco edições foram vencidas por clubes do Japão ou da Coreia do Sul (a Austrália começou efetivamente a participar dos torneios da AFC em 2007).

O Irã é quem mais tem se aproximado deste trio – basta lembrar que o Mes Kerman decidiu a Liga dos Campeões contra o Seongnam Ilhwa Chunma – seguido de perto pela China, que está, a cada temporada, reforçando sua liga nacional, patrocinada pela multinacional Pirelli.

Tão badalado por essas bandas pelo poder econômico de contratação de jogadores e treinadores brasileiros, o “mundo árabe” não vem apresentando o mesmo rendimento nas competições continentais. No grupo A, Kuwait e Catar devem ficar de fora, classificando-se uzbeques e chineses. No grupo B, o empate contra o Japão coloca a Jordânia em boa condição para garantir uma vaga, em um confronto direto contra a Síria. A outrora poderosa Arábia Saudita deve ser eliminada.

No grupo C, o único representante dos petrodólares é o Bahrein, que, se pontuar, deverá fazê-lo contra a Índia. No grupo D, o Iraque deve ficar com a segunda vaga do grupo, sobrando Emirados Árabes e Coreia do Norte.

Alias, cada vez menos é possível entender como os norte-coreanos conseguiram a classificação para a Copa do Mundo. O time apresentou um futebol muito fraco – até para os padrões asiáticos – contra os Emirados Árabes e se mostrou a segunda equipe mais frágil do torneio, superando apenas a Índia. Não é de se estranhar, aliás, que norte-coreanos e indianos só estejam na fase final da Copa da Ásia por terem vencido as duas últimas edições da Challenge Cup, que é realizada a cada dois anos, reunindo seleções das federações qualificadas como “emergentes” pela AFC – um eufemismo criado pela confederação asiática, que tem uma classificação não-formal de três “divisões” de seus filiados: desenvolvidos, em desenvolvimento e emergentes.

Com 46 associações nacionais filiadas, fica ainda mais fácil entender o abismo no nível do futebol asiático. Apesar de todo o dinheiro dos petrodólares, ligas nacionais como Catar, Emirados Árabes e Arábia Saudita estão longe de alcançar o desenvolvimento técnico das ligas “JKA” (Japão, Coreia do Sul e Austrália). China e Irã se aproximaram, mas a distância ainda é considerável. E destas ligas para as demais, apesar do trabalho da AFC para profissionalizar o futebol do continente, o abismo ainda é do tamanho do Himalaia.

Tenho visto os jogos da Copa da Ásia – alguns até por streaming (a oferta na rede é farta e variada, com narrações originais, que deixam o jogo até mais divertido). A gente se acostumou com o glamour de uma Copa do Mundo ou de grandes confrontos de Libertadores e da Champions League, e tem sempre o parâmetro de que se não for um jogo no Camp Nou, não presta, é ruim. Bobagem: jogos bons e ruins acontecem em qualquer parte. Obviamente que Coreia do Norte x Emirados Árabes não foi uma partida agradável de ver – pelo contrário, foi ruim demais o jogo. Mas haverá jogos bons nesta Copa da Ásia.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo