Sul-Americana

Paulo Junior: Lucas, cinco jogos, parece um time inteiro em campo pelo São Paulo

De volta ao São Paulo, o agora experiente Lucas Moura tem efeito imediato no Tricolor de Dorival Júnior

Do nível técnico ninguém duvidaria, afinal Lucas Moura passou uma década num cenário relevante da Europa. Da capacidade física também não, visto o biotipo privilegiado e um perfil de quem não chegaria aos 31 fora do peso ou sem cuidados. Sobre a identificação, nenhuma objeção, afinal é cria da casa, a cara e o cheiro de Morumbi, menino que levantou a última taça internacional do clube em noite de despedida lá atrás. Quanto ao estilo de jogo, sempre foi de fácil adaptação, voluntarioso, solidário, jogador esperto para se associar em tabelas e escolher o certo entre o chute, o passe e um drible a mais. Também era natural que, mais experiente e num jogo com mais espaços, pudesse ser a calma, o respiro de um time bem armado como o de Dorival Júnior.

O que então chama a atenção é que o velho e novo camisa 7 do São Paulo tenha sido capaz de sintetizar todas essas questões em tão pouco tempo, refletindo em desempenho, resultado e expectativa, parecendo um time inteiro em campo. Lucas, cinco jogos nesse retorno, três como titular e dois apenas entrando no intervalo, já fez gol contra o Flamengo no Maracanã, decidiu uma classificação contra o Corinthians e deu sobrevida, correndo 90 minutos na altitude de Quito, ao buscar o gol que diminuiu o placar diante da LDU, 2 a 1 no jogo de ida no Equador.

E buscar não é força de expressão. Num jogo difícil, provavelmente o pior numa longa sequência tricolor, o time não deu conta de segurar a pressão dos locais. O primeiro tempo foi horrível, espaçado, sem gás para o combate e até de certa forma ingênuo, protegendo mal a área e permitindo a Jhojan Julio, numa jornada de Lionel Messi, deitar e rolar. A vantagem de dois gols até o intervalo era até pequena, e o time brasileiro na volta do vestiário ainda melhorou seu combate – vale dizer também que piorar seria impossível.

E aí Lucas buscou. Foi receber no pé do zagueiro Alan Franco e num tapa clareou o ataque, abrindo uma praça Roberto Gomes Pedrosa entre Luciano e a defesa equatoriana. Numa aceleração que pouca gente vai alcançar num fim de jogo a quase 3 mil metros de altura, o mesmo Lucas atravessou o campo para completar o passe na medida e garantir um gol insuficiente para empatar ou virar o jogo, mas que muda completamente a equação e o astral para a volta semana que vem.

Dorival, que quem viu jogar às vezes ainda chama de Júnior, acertou demais ao entender rapidamente que Lucas precisa ter essa liberdade de circulação, diferentemente de seu posicionamento europeu de ponteiro veloz aberto, explorando as costas das laterais. Num jogo de abril contra o Liverpool, um de seus últimos pelo Tottenham, chegou a entrar de ala-direito, confirmando uma dificuldade desse fim de ciclo em se firmar na Inglaterra onde gosta de jogar. Aqui, pode variar entre meia ou segundo atacante, rondando Calleri na referência e sentindo o espaço do jogo para num só movimento encontrar campo, como no gol da noite de quinta-feira.

Não quer dizer que, necessariamente, isso represente apenas a diferença de nível entre o futebol que os brasileiros encontram na Europa e a bola rolando aqui. Jogadores como Douglas Costa, Taison e Willian, vindos de Copa do Mundo, não circularam com essa excelência inicial de Lucas. Se a qualidade com a bola no pé está posta, há muitos méritos no são-paulino (com apoio do treinador) em encurtar caminhos, entender os colegas rapidamente e comprar as brigas certas no campo, mediando ao seu gosto seja um jogo inteiro de altitude ou a pressão dum Majestoso em desvantagem.

Ao técnico, fica o desafio de formular esse novo encaixe. Contra o Corinthians, com Luciano suspenso, Lucas fez essa chegada centralizada; diante da LDU, Luciano ficou no banco, mas sua meia hora na vaga de Wellington Rato mostrou seu poder de fogo com o passe de gol. Alisson se encontrou como oito, apesar do jogo abaixo pela Sul-Americana, Nestor vem cuidando bem da bola, e Rato desbloqueou a tensão no clássico ao acertar um pombo no ângulo de Cássio. Para não falar de James Rodríguez, ainda num degrau abaixo, mas com certeza em perspectiva pessoal de ser mais importante nessa reta final da temporada.

O São Paulo era um bom time, mas que talvez fosse insuficiente para voltar mais vivo de Quito depois de uma etapa inicial tão permissiva. Com Lucas, garante que o Morumbi em chamas na próxima quinta-feira não dependa apenas do jogo coletivo e da mística das noites copeiras em seu estádio histórico, mas de um reforço providencial, único, que preencheu todos os requisitos para ganhar jogos grandes a qualquer momento.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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