Sul-Americana

Dida Domínguez honrou seus mestres e amarrou sua história como herói da Sul-Americana

Domínguez pegou três pênaltis numa final continental, tal qual Cevallos e Dida, para reconquistar a Copa Sul-Americana depois de 14 anos

As disputas por pênaltis deveriam ser consideradas um esporte à parte, diferente do futebol. Sim, você precisa saber chutar bem uma bola. O mais importante, no entanto, está dentro da cabeça. Da cabeça dos batedores, para manter os nervos frios. E também da cabeça dos goleiros, para devorar a mente dos adversários. Alexander Domínguez passa longe de ser o goleiro mais confiável sob os paus, embora seja uma figura histórica da LDU Quito e do futebol equatoriano como um todo. Aos 36 anos, já viveu muita coisa dentro de campo. Nada como o que se passou neste sábado, no Uruguai. Qualquer limitação de Dida Domínguez esteve de lado. Ele se transformou em herói, se agigantou numa decisão por pênaltis. Barrou três cobranças do Fortaleza, levou a Liga ao topo da Copa Sul-Americana e deu um motivo indiscutível para se lembrado por todo o sempre no clube.

Domínguez deve se sentir lisonjeado por alguns paralelos que podem ser feitos. O primeiro deles é com José Francisco Cevallos, goleiro mais reconhecido da história do Equador e seu mestre. Domínguez aprendeu muito ao lado do veterano quando chegou às categorias de base da LDU, em 2006. Pôde ver de perto o alto de sua glória, em 2008, na conquista da Copa Libertadores. Cevallos já tinha 37 anos quando defendeu três pênaltis do Fluminense na final continental. A história se reescreve de maneira parecida, 15 anos depois, com o pupilo conseguindo fazer o mesmo após tanto tempo.

Curiosamente, Cevallos não estaria no gol da LDU durante a conquista da Copa Sul-Americana de 2009. O veterano perdeu a posição exatamente para Domínguez, que se mostrava bastante promissor aos 22 anos. O garoto assumiu a posição da Liga e disputou todas as partidas daquela campanha continental. Estava em campo nos dois jogos contra o Fluminense, entre os 5 a 1 que encaminharam o título dos equatorianos em Quito e os 3 a 0 do Flu que não evitaram a decepção no Rio de Janeiro. Naquele momento, o jovem arqueiro escrevia seu nome na história, mas tinha muito mais tempo para se consolidar.

Domínguez é um goleiro bastante alto e arrojado. Consegue se diferenciar na história do futebol equatoriano exatamente por isso, quando o próprio Cevallos não era tão alto e nem exatamente um primor. Contudo, o pupilo tem seus defeitos que não corrigiu com o tempo. Por vezes se mostra estabanado demais. Também não é tão confiável quanto se pensava que a maturidade poderia garantir. Mesmo assim, por anos permaneceu como o camisa 1 da LDU. Teve inclusive a chance de reconquistar a Copa Sul-Americana em 2011, mas foi derrotado pela Universidad de Chile na decisão.

A fama de Domínguez, ainda assim, abriu portas. Era o principal goleiro do Equador e capitalizou com isso. Virou o titular de La Tri no início da década passada e disputou a Copa do Mundo de 2014 como titular, assim como a Copa América em 2015 e 2016. Nesta mesma época, também foi se provar no exterior – algo raro para um arqueiro equatoriano. Não chegou a deixar saudades, mas recheou seu currículo com clubes do calibre de Monterrey e Vélez Sarsfield, além de passar por menores como Colón, Cerro Largo e Deportes Tolima. Isso até que resolvesse voltar para casa em 2022.

Ainda presente nas convocações do Equador e por vezes até capitão, Domínguez retornou à LDU Quito. Poderia recobrar um pouco de sua história vitoriosa no clube, marcado ainda pelos momentos mágicos além das fronteiras na virada da década. O veterano se manteve em forma, a ponto de ser reserva de Hernán Galíndez (mais confiável) na Copa do Mundo de 2022. Já pela Liga de Quito, se ainda não conquistou o Campeonato Equatoriano, voltou a figurar nas competições continentais. Era a deixa para que amarrasse as duas pontas de sua própria história.

Domínguez disputou todos os 14 jogos da LDU Quito na Copa Sul-Americana de 2023. Não perdeu um minuto sequer da campanha. Não é um goleiro infalível e por vezes esteve sujeito aos erros, como no confronto com o Ñublense. Também está propenso a fazer seus milagres, algo que aconteceu inclusive para garantir a tranquilidade nas semifinais diante do Defensa y Justicia. E foi herói nos pênaltis. Contra o Ñublense, contra o qual se redimiu, pegou dois penais nas oitavas de final. Já diante do São Paulo, deu sorte quando James Rodríguez mandou seu tiro para fora nas quartas.

O apelido de Dida pode ser exagerado, mas Domínguez também possui seus paralelos com um dos maiores goleiros da história. O equatoriano sabe aproveitar sua envergadura em tantas defesas. Sabe intimidar os adversários na marca da cal, para defender pênaltis. É algo que se eterniza na final da Copa Sul-Americana. Pegar três penais numa decisão desse calibre é realmente algo para um Dida. É para um Cevallos. É para Domínguez, um digno herdeiro de toda essa história, por mais que sua carreira já se encaminhe ao final.

Durante os 120 minutos, o Fortaleza deu trabalho a Domínguez. O goleiro não precisou realizar nenhuma defesa tão impressionante, mas mostrou serviço em diferentes momentos. Evitou que a pressão do Leão do Pici se transformasse em gols durante momentos cruciais da partida. Frustrou os adversários, antes que tudo se resolvesse na marca da cal. E, então, travou uma batalha mental com João Ricardo. O goleiro tricolor pôde inflar o peito quando defendeu o pênalti de Paolo Guerrero. Porém, o gigante do outro lado foi a diferença para que a LDU Quito se desse melhor na vitória por 4 a 3.

Sergio Goycochea costumava dizer que só pegava os pênaltis mal batidos, porque os bem batidos não conseguia defender nem se acertasse o canto. Dida Domínguez também pareceu fazer uma ode ao argentino, ao respeitar essa máxima. Preferiu esperar um pouco mais alguns dos chutes e tapou aqueles que não foram tão bem colocados. A defesa contra Silvio Romero foi importante, para igualar a disputa na terceira série de cobranças. Já contra Pedro Augusto, no quinto chute, Domínguez foi responsável por manter a LDU viva. Ali, o Fortaleza poderia ser campeão. Não foi porque o arqueiro cresceu. Piovi logo depois converteu e Domínguez reapareceu no final. Negou o gol de Brítez e o sonho do Leão do Pici. Depois de 14 anos, se recolocou no lugar mais alto da Copa Sul-Americana.

A comemoração emocionada de Alexander Domínguez é bastante simbólica. O goleiro escancarava a importância daquela façanha para a sua torcida, para o seu clube, para a sua própria história. Não são os três penais defendidos que transformam a percepção e os poréns de Domínguez como goleiro. A eternidade, contudo, não é feita para os perfeitos, mas sim para aqueles que correspondem nos momentos decisivos. Foi o que o veterano conseguiu fazer, num complemento dourado a tudo o que já conseguiu. Nunca vai ser colocado no mesmo patamar de Dida, com sorte apenas no de Cevallos. Mas está na estante de ídolos da LDU, na lista de protagonistas da Sul-Americana. Sua memória se torna mais reluzente.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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