Como Corinthians x Universitario virou questão de honra após caso de racismo
Confronto válido pela Sul-Americana ganhou elementos para além do campo
O Corinthians joga pela sobrevivência na Copa Sul-Americana a partir das 21h30 (de Brasília) desta terça-feira (18), em Lima, no Peru, onde o jogo de volta contra o Universitario virou uma questão de honra. Os dois elencos estão, de alguma forma, envolvidos com a denúncia de racismo e a prisão do preparador físico do time peruano na partida da semana passada.
A detenção de Sebastian Avellino Vargas foi tomada como uma ofensa pelo Universitario. Ainda na Neo Química Arena, após a derrota por 1 a 0, jogadores se irritaram e prometeram algum tipo de vingança no jogo de volta. “Vocês vão ver no próximo, lá nós seremos locais”, teriam dito, segundo corintianos contaram à Trivela.
Em nota oficial, o clube usou a palavra “denegrir” e defendeu que a prisão em flagrante “passou dos limites e está sendo conduzida de maneira desproporcional”. O principal dirigente do clube tratou o caso como “incrível” pois, na versão dele, Vargas apenas reagiu a insultos da torcida do Corinthians. No sábado (15), o time entrou em campo com uma faixa de apoio a Vargas.
O Corinthians enviou ofício à Conmebol porque está preocupado com o que pode acontecer no jogo desta terça, segundo publicado pelo ge. A prisão de Vargas causou comoção no Peru, extensa cobertura nos meios de comunicação e alguma revolta com o caso, ainda que imagens mostrem claramente os supostos gestos racistas. Cerca de 80 mil ingressos foram vendidos para a decisão, e o Alvinegro joga com o time majoritariamente reserva.
“Se ele fez mesmo, não preciso nem dizer que é horrível. A Polícia vai ver, e ele será punido, é o normal”, falou o goleiro Carlos Miguel ainda na terça, depois do jogo de ida.
O caso virou assunto também dentro no vestiário do Corinthians, ainda que em um tom abaixo. A conversa foi sobre “mais um” caso lamentável deste tipo, afinal já havia acontecido algo semelhante no ano passado, quando um torcedor do Boca Juniors imitou um macaco durante um jogo da Libertadores e foi preso na arquibancada.
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— Corinthians (@Corinthians) July 17, 2023
Universitario dá apoio irrestrito e tem histórico preocupante
O clube peruano decidiu se envolver até o pescoço na denúncia a seu funcionário. Além da faixa de apoio ainda houve duas notas oficiais para dizer que “a honra de um profissional do clube foi manchada” e que a prisão foi algo “inadmissível, degradante e indignante”. Neste comunicado de sete parágrafos, o clube usou o adjetivo “denigrante”, que não tem tradução perfeita para a língua portuguesa mas que seria “o ato de denegrir”, um termo que por si só levanta discussões sobre o racismo.
Jean Ferrari, o administrador do Universitario, reclamou em entrevistas e nas redes sociais. “Assim será difícil que qualquer time queira jogar como visitante no Brasil”, arriscou, invertendo a lógica da denúncia. Ele próprio é acusado de imitar um macaco em direção à torcida do Alianza Lima durante um jogo do ano 2000, quando era jogador do Sporting Cristal.
Em 2022, um jogo da liga peruana contra o Melgar foi interrompido após um torcedor do Universitario arremessar uma banana no atacante Kevin Quevedo. O clube foi punido no equivalente a R$ 60 mil e teve um setor fechado do estádio Monumental por um jogo. Além disso, a Comissão Disciplinar da Federação Peruana de Futebol obrigou o clube a “fazer campanha contra o racismo”.
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— Universitario (@Universitario) July 15, 2023
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Conmebol tem investigação em curso
A Unidade Disciplinar da Conmebol abriu apuração preliminar no âmbito esportivo, que avança paralelamente à investigação criminal da Polícia Civil de São Paulo. A entidade colheu as imagens disponíveis sobre o suposto ato racista, desde vídeos publicados nas redes sociais até as imagens do circuito de segurança da Arena. É um procedimento padrão para denúncias de discriminação.
Esta investigação preliminar colhe os elementos iniciais para a Conmebol decidir ou não abrir um Expediente Disciplinar. Se aberto o expediente, o preparador físico e o Universitario (PER) terão prazo de cinco dias para se pronunciar e pode haver uma audiência sobre o caso. É só ao final desta apuração mais cuidadosa que a entidade vai punir ou não o suspeito e o clube. Nos casos recentes na Libertadores e Sul-Americana, as punições costumam ser publicadas duas semanas após os fatos.
Peru tem surto de síndrome rara
O governo peruano declarou emergência nacional por causa de um surto da síndrome de Guillain-Barré. A doença já afetou 191 pessoas e matou quatro, mas o Ministério da Saúde do país declarou em comunicado que os jogadores “não correm risco de contágio”, pois ”não há restrição de reuniões, eventos, viagens nacionais ou internacionais”.
“Um surto é um surto, e qualquer país com isso, se há um decreto, tem que ser respeitado. Nós não somos cobaias. Quem é o responsável por nós viajarmos para lá e nos contaminarmos? Quem permitiu o jogo? É um problema muito sério”, argumentou Luxemburgo depois do jogo de ida. “Se minha mulher ficar viúva, quem vai ser o responsável?”, completou.
A síndrome de Guillain-Barré é uma condição neurológica rara, mas grave, que faz o sistema imunológico atacar o sistema nervoso. O paciente então tem uma inflamação dos nervos, fraqueza muscular e outros sintomas. Nos casos graves, há paralisia. A causa exata é desconhecida, mas a síndrome muitas vezes está associada a infecções virais prévias. Não há transmissão de pessoa para pessoa.
Como foi o caso de racismo
Sebastian Avellino Vargas teria imitado um macaco na direção de torcedores do Corinthians durante o aquecimento do Universitario no gramado da Neo Química Arena, na terça-feira passada (11). A investigação da Polícia Civil teve acesso a imagens que mostram o suspeito mexendo os braços como em um gesto racista. Torcedores foram ouvidos como testemunhas no estádio e, depois, também na delegacia.
A delegação do Universitario voltou ao Peru durante a madrugada de quarta-feira (12), mas Vargas ficou preso. Ele foi levado ao 65° Distrito Policial, nas imediações do estádio, e teve a companhia de representantes do Consulado do Peru em São Paulo. Durante a tarde, o suspeito passou por audiência no Fórum Criminal da Barra Funda, onde teve a prisão em flagrante convertida para preventiva.
A defesa entrou com pedido de habeas corpus para que Vargas possa responder em liberdade, mas o desembargador Roberto Porto, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), negou na quinta-feira (13). A decisão considera “presença de fortes indícios de autoria e de periculosidade social”, por isso o suspeito está preso há uma semana. Ele é uruguaio e está com o passaporte apreendido.
A Trivela procurou o escritório de advocacia que defende Sebastian Avellino Vargas, mas não teve resposta até a publicação.
*De todos as pessoas citados neste texto, só o goleiro Carlos Miguel é um homem negro. O suspeito, seus dois advogados, o desembargador, o dirigente do Universitario e o torcedor do Boca Juniors são pessoas brancas, assim como o repórter.
Treino finalizado! #PartiuLima ??️
? Bruno Granja e Hugo Rodrigues#VaiCorinthians pic.twitter.com/bYW9eus2ei
— Corinthians (@Corinthians) July 17, 2023



