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Sampaoli: “A melhor versão do futebol se encontra olhando para o passado”

Jorge Sampaoli vive um momento delicado da carreira. Após levar o Chile ao primeiro título de sua história e ficar entre os três melhores treinadores do mundo (segundo a Fifa), o argentino sofre com os insultos no país que o consagrou. Diante das denúncias de corrupção na Conmebol, o técnico não quer permanecer com La Roja – se diz atingido pelas desconfianças criadas também sobre a comissão técnica. Ao que tudo indica, se tornará um dos nomes mais cobiçados do mercado em breve.

Em meio do turbilhão, Sampaoli resolveu falar. E nem tanto sobre o seu futuro, mas sobre o futebol em si. Durante entrevista ao jornal espanhol El País, o técnico da seleção chilena abordou diversos assuntos. Desde o seu trabalho na equipe nacional até a influência de Bielsa na sua visão. E, mais além, sobre os seus próprios conceitos de futebol e o equilíbrio de forças na Espanha, entre Barcelona e Real Madrid. De certa forma, parecia um treinador moderno pensando um jogo de antigamente.

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“O individualismo cresceu tanto no mundo que se faz muito difícil conviver coletivamente e envolver um sentido de permanência. Ao jogador, se faz muito complicado se sentir parte de um clube, e é preciso voltar para trás. A melhor versão do futebol se encontra olhando para trás, quando se sentia o escudo e o respeitava, quando nenhum jogar estava acima da camisa. Diego viajava 20 horas com o tornozelo destroçado para jogar com sua seleção. Não se sabe como, mas chegava e jogava. É preciso retomar isso”, declarou, quando perguntada da involução coletiva do futebol, que sempre reclama.

Questionado sobre a força que Pep Guardiola exerce sobre técnicos como ele e Zidane, Sampaoli analisou as virtudes humanas do espanhol em seu trabalho: “Guardiola é um revolucionário, um valente, que trata de instalar sua ideia em qualquer lugar, inclusive na Alemanha, algo antinatural. Esse é o grande triunfo de Pep, não ter medo de nada. Não há muitos valentes nem no futebol e nem na vida. Para mim, é um exemplo de vida; mais além de sua maneira de sentir o futebol, por sua valentia”.

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Além disso, Sampaoli também comentou como trabalhou os conceitos de Bielsa e Guardiola sobre sua passagem na seleção chilena: “São os dois melhores do mundo, porque conseguem que o jogador creia neles. São ideias distintas: um aposta na verticalidade e no jogo direto. E o outro de submete desde a posse de bola. Mas os dois pensam o mesmo: atacar. Tenho ensinamentos de ambos. Com o Chile, entendi que éramos tão diretos que, ao atacar muito rápido, eles voltavam igualmente rápido. Não tínhamos grandes especialistas defensivos, assim que tratamos de nos defender com a bola, como faz Pep, e mesclamos o bielsismo com o guardiolismo. Entendi que o time não devia viajar em um trem, mas em um vagão. E ganhamos da melhor Argentina dos últimos 15 anos”.

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Campeão da Copa América com o Chile, Sampaoli ainda viveu um sentimento oposto. O de derrotar o próprio país em uma decisão e ampliar para 22 anos o jejum da Argentina em competições com a seleção principal. O que não foi tão bem aceito por ele mesmo, quanto mais por amigos e familiares na volta para casa.

“Não me senti um traidor, mas vivi um momento muito difícil, porque sabia que havia gente no meu país que estava sofrendo. Entendi a alegria dos meus jogadores, que mudaram a história e ganharam o primeiro título de seu país, a alegria do povo. Foi estranho ouvir o hino no começo da partida, porque nunca havia enfrentado a Argentina. Mas o pior foi depois, ao voltar para casa. Os meus amigos e minha família me insultavam no primeiro churrasco em casa. Eu dava a carne para eles provarem antes”, afirmou. “Não sei se um dia terei a chance, mas é o sonho de qualquer treinador argentino dirigir a seleção, esteja onde estiver, no Barcelona ou no Bayern. Por cultura, a seleção é o melhor”.

Torcedor do River Plate, Sampaoli comentou que sentiu bastante a derrota de seu time na final do Mundial de Clubes. E, em tom de brincadeira, analisou o alto nível do Barcelona, comparando também com o Real Madrid: “A Fifa deve intervir. A amizade entre Leo, Neymar e Suárez é o pior que já se passou no futebol. Leo, sozinho, ganha uma partida. Se ainda se potencializa com Suárez e Neymar, isso não vale. Devem proibir. A diferença com o Real Madrid é que seu tridente não só não se potencializa, como se neutraliza entre ele. Joga Cristiano e termina Cristiano. Joga Bale e termina Bale. Benzema agarra as chances que sobram, por ser goleador, mas não geram coisas juntos. É questão de pele, de sensibilidade. Alexis nunca teve essa sensibilidade para jogar com Leo, mas é um grande jogador. E o treinador deve ter a sensibilidade de saber quem se complementa com quem”. Visões que podem não ser unânimes, mas representam alguém que vive o futebol por dentro, e de maneira intensa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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