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Ao mestre, com carinho: Entre tantos bons jogadores, Sampaoli fez o destaque ser o conjunto

Bravo liderou o time a partir das traves e salvou nos pênaltis. Medel se comportou como um leão na zaga, perfeito em um sistema muito criticado. Isla voou na ala direita. Marcelo Díaz ditou o ritmo da máquina. Aránguiz fez as engrenagens rodarem. Vidal não teve sempre cabeça, mas sempre coração. Valdívia chamou a responsabilidade como garçom. Eduardo Vargas, como matador. Sánchez serviu à intensidade do time e teve a honra de garantir a taça, com a genial cavadinha. E mesmo outros coadjuvantes tiveram seu papel na conquista do Chile na Copa América. Difícil escolher apenas um destaque. Ou até fácil: o conjunto, personificado no trabalho de Jorge Sampaoli.

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Em dois anos e meio, o treinador conduziu um trabalho excepcional à frente da seleção chilena. Já tinha feito muito com a Universidad de Chile que encantou o continente, e manteve muitas peças de seu elenco. Meus assim, o seu desempenho com La Roja transcende. Porque soube aproveitar da melhor forma uma geração talentosa, que vivia em crise tanto pela falta de resultados após a Copa de 2010 quanto pelas recorrentes crises internas. Entendeu o potencial de seus jogadores, alguns rendendo muito mais na seleção do que nos clubes. Com eles, formou um time de verdade.

O Chile de Sampaoli já começou com bons resultados, a começar pela ascensão nas Eliminatórias da Copa de 2014, onde o time estava ameaçado enquanto era comandado por Claudio Borghi. Depois, vieram as grandes atuações nos amistosos internacionais, mesmo não vencendo sempre, diante de potências como Alemanha, Espanha e Inglaterra. Para, no Mundial do Brasil, La Roja se impor em um temido “grupo da morte”, eliminar os campeões mundiais e ficar a uma bola na trave de derrubar também os anfitriões. E, ainda que durante a Copa América a equipe tenha sido mais burocrática do que em seus melhores momentos, rodando mais a bola ao invés de agredir, novamente teve um grande desempenho. Merecendo mais do que qualquer adversário a taça, pela consistência que demonstrou.

A geração abençoada do Chile arranca o grito da garganta que nunca havia se soltado. Preso mesmo nas vozes eloquentes de craques como Livingstone, Leonel Sánchez, Figueroa, Caszely, Zamorano, Marcelo Salas. A diferença fundamental veio não somente pela qualidade mais bem distribuída em diversos setores. Mas, principalmente, pela forma como o coletivo funcionou. Uma orquestra não é nada se os seus músicos tocarem no mesmo ritmo.

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E há também uma diferença de atitude neste Chile. Ele não olha de baixo para os seus adversários. Ele olha nos olhos. Mesmo que o maior craque em campo não seja seu, são os 11 que o fazem temível. Durante os tempos de Marcelo Bielsa, os chilenos até tinham essa ousadia. Mas não o equilíbrio que Sampaoli atingiu, bem menos suicida que seu mentor. Na final contra a Argentina, La Roja se postou no campo de ataque e adiantou a marcação. Mas à medida que a Albiceleste avançava, também sabia se controlar próximo a sua área. Não sobraram os espaços às costas da zaga e Bravo se manteve soberano no jogo aéreo, os dois grandes temores próprios. E Messi, o medo alheio, não teve espaço para se criar.

O Chile pode não ter sido perfeito ao longo da Copa América. Não começou também, e também teve problemas nos vestiários. Sampaoli soube contornar até isso, um entrave sério em outras oportunidades. Preponderou. Honrou o favoritismo que a equipe ganhou desde antes de a bola rolar, ainda que sem um jogo tão bonito quanto se esperava. Valeu o conjunto.

Eternizado na Copa América, o Chile terá a chance também de disputar a Copa das Confederações. E vem entre as forças do continente para voltar à Copa do Mundo de 2018. O time tem gás para brilhar por mais algum tempo, com a maioria de seus titulares abaixo dos 28 anos. E, especialmente, um treinador que sabe fazer os chilenos se orgulharem de sua seleção. Uma nação que se une em torno de La Roja. E que será eternamente grata a Sampaoli.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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