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Pênaltis fizeram justiça ao melhor time da Copa América e a uma geração histórica do Chile

Na Copa do Mundo, a vitória histórica bateu na trave. Pinilla não eliminou o Brasil quando teve a chance, e os pênaltis foram cruéis com o Chile, que havia jogado melhor. Neste sábado, a história estava parecida. Sampaoli mais uma vez conseguiu dominar um gigante sul-americano, mas não conseguiu vencer com bola rolando. A consagração do técnico argentino, da sua filosofia, de uma geração de ouro do futebol chileno e de um trabalho muito bem feito nos últimos anos foi para a marca do cal. E desta vez, as cobranças fizeram justiça ao time que jogou melhor durante toda a Copa América, inclusive na final. Enfim, os chilenos podem gritar que são campeões.

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Enquanto se esperava um grande futebol da seleção argentina, vice-campeã do mundo, com Messi, Agüero, Di María e companhia, quem brilhou desde o começo de junho foi o Chile. Com intensidade, pressão, marcação alta e muita movimentação, todos desempenharam bem o seu papel. Tata Martino teve os talentos para chegar à decisão, com boas partidas também, mas não teve o ótimo coletivo construído por Sampaoli. Acabou fazendo a diferença nos 120 minutos da decisão, nos quais o Chile foi superior desde o apito inicial.

A equipe da casa entrou em campo com uma grande responsabilidade sobre as costas. O lotado estádio Nacional de Santiago poderia até reconhecer o excelente trabalho que os comandados de Sampaoli já haviam feito, mas a frustração seria irrestrita caso o resultado fosse qualquer coisa que não o primeiro título da Copa América. Ainda mais contra a rival Argentina, negando-lhe também a quebra de um longo jejum sem troféus.

Ao contrário de sentir a pressão, os chilenos se impuseram. Praticamente dominaram os primeiros 15 minutos, com alta marcação e muita intensidade. Faltou criar boas chances. A única escapada foi com Valdivia, que teve a bola de frente com Romero, mas preferiu passar a chutar. Decisão errada. O time adiantado deixou campo para os argentinos contra-atacarem, e um toque de Messi passou a milímetros da chuteira de Agüero, livre na grande área.

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Aos poucos, Martino conseguiu equilibrar as ações mandando seus jogadores também marcarem o Chile mais à frente. Serviu para anular o ímpeto dos donos da casa e para arrumar uma falta na ponta direita, que Messi cobrou na cabeça de Agüero. A cabeçada de Kun à queima-roupa exigiu uma defesa absurda de Bravo para evitar a abertura de placar. O Chile respondeu com um longo contra-ataque que deixou Vargas na cara do gol, mas o chute saiu por cima. Foi um primeiro tempo de poucas chances e muitas faltas. Valdivia, aguerrido e participativo como sempre neste Copa América, foi um dos mais caçados. O outro foi Messi, principalmente por Medel, um pouco duro demais.

Di María saiu machucado para a entrada de Lavezzi, que teve a outra grande chance da etapa inicial, depois de jogada Pastore pela ponta esquerda, que rolou para trás e permitiu ao jogador do Paris Saint-Germain arrematar de frente para o gol. Mas nas mãos de Bravo, que espalmou sem problemas.

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O começo do segundo tempo do Chile foi parecido com o do primeiro. Só que desta vez o domínio prevaleceu até o apito final. A marcação de Sampaoli pelo meio encaixotava os argentinos, que insistiam em criar as jogadas por ali. Poderiam ter tentado usar um pouco mais as pontas, mas sem Di María, e com Lavezzi mal no jogo, faltava alguém com essas características. Martino também foi conservador nas substituições, com Higuaín no lugar de Agüero e Banega na vaga de Pastore. Tevez ficou no banco.

O pecado chileno foi não criar chances claras de gol. Quase nenhuma. O nível de Valdivia, o principal armador, caiu um pouco na etapa final e ele foi substituído por Fernández. O Chile usava os lados, mas não conseguia deixar ninguém na cara do gol e sempre hesitava muito na hora de chutar. Tudo isso resultou em quase nenhuma chance. Quase. Até Aranguíz aparecer.

A oito minutos do final, o meia do Internacional pegou um rebote de primeira e, com um tapa por cobertura, deixou Alexis Sánchez na cara de Romero. O craque chileno virou pegando de primeira e chutou bem. Era a chance do jogo, o momento do título, a consagração. Tudo isso passou a alguns centímetros da do gol argentino.

O castigo poderia ter vindo no último ato da partida. Messi apareceu, finalmente, depois de uma final muito apagada, e arrancou pelo meio. Abriu com Lavezzi pela esquerda, que poderia ter chutado, mas preferiu passar para Higuaín, na outra trave. O atacante do Napoli ainda chegou na bola, mas sem equilíbrio não conseguiu mirar direito. Acertou o lado de fora das redes, e como na final da Copa do Mundo, perdeu a chance de decidir o título, embora a responsabilidade de chutar ao gol fosse mais do seu companheiro nesse lance.

Principalmente pelo que jogou no segundo tempo, o Chile poderia muito bem ter resolvido a parada no tempo regulamentar, mas ao contrário da excelente marcação, faltou eficiência no ataque. A prorrogação não foi uma perda de tempo apenas porque Mascherano furou um lançamento e permitiu que Sánchez avançasse livre pela ponta direita. Esse chute passou por cima.

O futebol nem sempre faz justiça ao melhor time, e os pênaltis são o principal instrumento dessa falta de lógica. Mas os chilenos estavam cansados de se frustrarem. Cansados de decepcionarem suas torcidas. Havia chegado a hora. Fernández, confiante, acertou um míssil no ângulo. Messi converteu o seu. Vidal bateu forte e fez gol. Higuaín, sempre ele, isolou por cima do travessão. Aranguíz acertou. Banega cobrou mal, para boa defesa de Bravo.

Como se fosse de propósito, como se o destino tivesse vida própria, a chance de decidir o jogo voltou aos pés de Sánchez, que havia perdido a principal chance do tempo regulamentar. Era ele contra Romero, a uma distância de 11 metros. Bastava acertar a rede para consagrar os seus companheiros, o seu técnico, o seu país. Muito nervosismo, certo? Errado. Sánchez teve a frieza para bater com uma cavadinha o pênalti que garantiu o título ao melhor time da decisão, da história do Chile e, até a próxima Copa América, da América do Sul.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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