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Não importa quem vença a final, o ideal de Bielsa já triunfou na Copa América

Marcelo Bielsa atravessou uma década no comando de seleções nacionais. Entre o período em que dirigiu a Argentina e o que treinou o Chile, após três anos sabáticos, o técnico não teve grandes conquistas com as equipes principais. Venceu, sim, a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2004, quando o desgaste de seu trabalho na Albiceleste já era grande – especialmente após a decepção na Copa de 2002. No entanto, El Loco pode ser considerado também um pouco campeão da Copa América 2015, qualquer que seja o resultado final. Afinal, um de seus discípulos ficará com o troféu na final disputada em Santiago.

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A quantidade de treinadores no mundo que seguem o “bielsismo” é respeitável. Uma filosofia de jogo (e, por que não, também de vida) que pode não conseguir as vitórias sempre, mas que preza pelo jogo ofensivo, pela intensidade e pelo perfeccionismo – que, não à toa, conquistou as devotas torcidas de Athletic Bilbao e Olympique de Marseille. Em níveis diferentes, tanto Jorge Sampaoli quanto Tata Martino rezam na cartilha de seu mentor. Uma influência importante, que ajuda a explicar um pouco do sucesso de Argentina e Chile, as duas seleções que tiveram El Loco como seu gênio indomável.

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Sampaoli é quem leva a mentalidade de jogo de Bielsa mais à risca. Jogador frustrado por uma lesão, o argentino se manteve próximo do futebol graças às ideias. E, vivendo na região de Rosário, passou a ser seguidor fiel do Newell’s Old Boys de Marcelo Bielsa. Não só acompanhando os jogos dos leprosos, mas até mesmo vendo os treinos e ouvindo as coletivas de imprensa em fitas cassetes. Aulas que serviram desde seus primeiros trabalhos, nas categorias de base do Alumni, clube de sua cidade natal. A partir de então, os ideais e a obsessão com que Sampaoli trabalhava fizeram sua fama. Passou pelo futebol peruano e pelo equatoriano até se estabelecer em Santiago. Na Universidad de Chile, apresentou uma das equipes mais encantadoras do continente nos últimos anos. E, mesmo com a própria carreira decolando, manteve o seu fanatismo a Bielsa, com visitas esporádicas às equipes do mestre.

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O sucesso em La U gabaritou Sampaoli para assumir a seleção chilena. Herdou justamente o legado de Bielsa, adorado no país especialmente pela campanha nas Eliminatórias para a Copa de 2010, que terminou com La Roja em segundo lugar. Escolhido também para recuperar o tempo perdido com Claudio Borghi, de maus resultados na campanha para o Mundial de 2014. Mais do recuperar o moral do time, Sampaoli reaplicou os ideais de jogo e até mesmo táticos de El Loco, eventualmente com o seu famoso esquema 3-1-3-3. Porém, de uma maneira bem mais equilibrada, ajudado também pelo amadurecimento e pelo surgimento de bons nomes ao elenco. Fez uma campanha histórica na Copa de 2014 e pode conquistar a inédita Copa América desta vez.

martino

Já Tata Martino é velho conhecido de Bielsa, assim como do próprio Sampaoli, que certamente o assistiu muito dentro de campo. O meia talentoso era justamente o cérebro do Newell’s de Bielsa, assim também como a voz que orientava o time dentro de campo. Sob as ordens do treinador, conquistou três campeonatos argentinos, assim como foi vice-campeão da Libertadores em duas oportunidades. Aposentado em 1996, o rosarino seguiu os passos como técnico. Teve uma carreira consistente principalmente no futebol paraguaio, quatro vezes campeão nacional e vice da Copa América com a seleção. Depois, voltou ao Newell’s para reviver os sucessos dos tempos de jogador, antes da passagem sem tanto brilho pelo Barcelona. De qualquer forma, já estava gabaritado para a seleção de seu país.

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Dentro de campo, Tata Martino está bem mais distante de representar os traços do bielsismo. Nem sempre suas equipes são tão agressivas – vide o Paraguai, que chegou à final do torneio continental apenas com empates. Mas o técnico preza bastante pelo controle da bola e, quando tem as peças certas, não se priva de partir para cima. Como fez em seus tempos no Newell’s e como é praticamente obrigado a trabalhar em uma seleção argentina com tantos talentos no ataque. Dificuldade maior é saber como encaixar as peças. Entretanto, Martino tem seus acertos, como a opção de Pastore na armação, o que vem dando bastante resultado. Nos dois últimos jogos da Copa América, surgiu uma equipe incisiva e com a individualidade se sobressaindo. Como era nos tempos de Bielsa durante as Eliminatórias da Copa de 2002, época de melhor futebol da seleção nestes 23 anos sem títulos.

Ainda assim, na final da Copa América, o bielsismo deve falar mais alto para Sampaoli. A concentração do time e as decisões táticas do Chile serão mais importantes, em uma partida que pode ser mais decidida pelo talento individual do lado argentino. Ter equilíbrio, a virtude de Sampaoli sobre o seu legado de Bielsa, será fundamental para brecar o ataque de Martino e continuar pressionando no campo de ataque, como manda o mestre. De qualquer maneira, a expectativa de um jogaço é evidente: pela vocação ofensiva dos dois times – com movimentações constantes e imposição no campo adversário – por aquilo que apresentaram ao longo da competição, ainda que o nervosismo chileno e a acomodação argentina também tenham atrapalhado. Embora as decisões tradicionalmente contem com times cautelosos pela derrota, a deste sábado prevê dois adversários com sede da vitória. Como manda El Loco, desta vez para a filosofia triunfar de um jeito ou de outro.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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