Tim Vickery: Chelsea x PSG conta também a história da ascensão do Equador
No confronto, William Pacho e Moisés Caicedo representam a geração que transformou o país em potência emergente do futebol sul-americano
Eles se encontram de novo. Será que, desta vez, vai ser diferente? Há quase exatamente oito meses, o Chelsea venceu o Paris Saint-Germain na final da Copa do Mundo de Clubes.
Agora, as equipes se enfrentam em duas partidas — ida e volta, em Paris e Londres — para definir uma vaga nas quartas de final da Champions League. Desta vez, o time francês poderá contar com um jogador que fez muita falta em julho passado, em Nova Jersey.

O zagueiro canhoto William Pacho ficou fora daquela final por suspensão. Na sua ausência, o Chelsea “fez a festa” pelo lado esquerdo da defesa adversária. Seu substituto, Lucas Beraldo, teve uma tarde infeliz, enquanto Cole Palmer brilhou, comandando uma vitória inesperada.
O técnico Luis Enrique confessa que o PSG não atravessa uma boa fase, mas, com Pacho em campo, a maioria verá seu time como favorito.
Que peso tem um jogador do Equador hoje em dia!
A Revolução Equatoriana
Trinta anos atrás, ninguém imaginaria uma situação assim: Pacho sendo vital de um lado e seu compatriota Moisés Caicedo sendo o pilar do outro. Naquela época, o Equador mal sonhava em ser um exportador de talentos. O país nunca havia participado de uma Copa do Mundo, mas agora se prepara para disputar seu quinto Mundial.
E não se classificou apenas pela expansão do torneio. O Equador iniciou as Eliminatórias com uma punição de três pontos (fruto de problemas administrativos na campanha anterior). Isso foi um problema? Nem um pouco. Classificou-se em segundo lugar, encerrando a tabela com uma vitória sobre a Argentina.

Pode não ganhar a Copa do Mundo, mas será um “osso duro de roer”. É difícil marcar gols no Equador: a equipe sofreu apenas cinco em 18 rodadas — nenhum nas últimas cinco e apenas um nas últimas onze. Uma verdadeira fortaleza.
Adversários nas próximas duas semanas, Caicedo protege a defesa enquanto Pacho comanda a zaga, contando com o apoio de Piero Hincapié (do Arsenal) e do jovem Joel Ordóñez (atualmente no Club Brugge, mas que logo deve defender um clube maior).
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O selo Independiente del Valle
Esses jogadores, e vários outros no elenco do Equador, têm algo em comum: são frutos da base do Independiente del Valle. Em vinte anos, esse clube extraordinário virou referência na formação de atletas e, para sua própria surpresa, passou a empilhar títulos domésticos e continentais.
Fica claro que o crescimento do futebol equatoriano deve muito ao projeto estruturado do Independiente, um clube pequeno dos arredores de Quito. Mas a história tem outro lado, um dilema de “quem veio primeiro”. O clube foi fundado em 1958, mas o projeto atual focado na formação só começou em 2007 — ou seja, após a seleção já ter disputado dois Mundiais (incluindo o de 2006, sua melhor campanha).
Portanto, o sucesso atual não é apenas consequência do Del Valle; o desempenho da seleção também serviu de inspiração para o projeto. A seleção já demonstrava o potencial do jogador equatoriano.
O marco de 1996

A raiz dessa evolução está ligada a uma mudança que completa trinta anos no próximo mês. Em abril de 1996, iniciou-se o novo formato das Eliminatórias Sul-Americanas (todos contra todos, em turno e returno). Esse momento foi crucial. Proporcionou o calendário que os europeus já tinham: jogos competitivos frequentes, renda garantida e a possibilidade de atrair técnicos melhores e investir no Sub-20.
Não foi só o Equador que se beneficiou. Desde então, Colômbia e Paraguai registraram as melhores Copas de suas histórias; o Chile viveu seu auge (exceto por 1962, quando foi sede) e o Uruguai voltou a ser uma força temida.
Embora o formato seja frequentemente criticado no Brasil, vale a pena refletir sobre ele ao assistir ao duelo entre Pacho e Caicedo: ele prova a importância de dar oportunidades e competitividade aos menos tradicionais.



