Libertadores

Tim Vickery: O dia em que meu neto torcedor do Flamengo pediu uma camisa do Palmeiras

'Tradição não se trata de uma coisa estática. Se faz todo dia. Jogo deste sábado parece marcar um momento significativo para o futebol brasileiro'

Tenho um neto de oito anos, flamenguista de estádio, frequentador do Maracanã desde os três.

Acordou hoje pedindo uma camisa do Palmeiras. Por quê? Quer colocar no chão no dia da final da Libertadores! Pergunto para ele quem é o seu maior rival. Resposta — Palmeiras. Só cita o Vasco quando pergunta sobre o maior rival no Rio.

Seria chocante para muitos, mas é o mundo que ele conhece. 

Flamengo x Palmeiras é a ‘nova’ grande rivalidade do futebol brasileiro

Esse processo começou antes de ele nascer, já em 2016. Desde então, incluindo esse ano, Flamengo e Palmeiras juntos ganharam sete dos dez últimos títulos do Brasileirão. E, incluindo sábado, cinco dos últimos sete títulos da Libertadores.

Tradição não se trata de uma coisa estática. Se faz todo dia. 

Imagina, por exemplo, uma rivalidade forte entre Flamengo e Atlético Mineiro em 1979. Será? Aí vem os jogos polêmicos do Brasileirão de 1980 e da Libertadores no ano seguinte, e, de repente, se tem uma grande rivalidade. Flamengo e Palmeiras estão no processo de construir uma coisa parecida agora.

O seu confronto é a maior rivalidade atual? Claro que não. O maior jogo? Não existe a menor dúvida. E com o tempo, o grau de rivalidade cresce. Nunca vai apagar as décadas da história do derby paulista ou do clássico carioca dos milhões. Mas circunstâncias novas criam relações novas.

O pai do meu neto cresceu num outro mundo. Enxerga o Vasco como o seu maior rival. Mas a história do futebol brasileiro e da transição de um enfoque regional para um olhar nacional, abriu espaço para novas disputas.

Um duelo de alto nível de Flamengo x Palmeiras
Um duelo de alto nível de Flamengo x Palmeiras. Fotos: Imago

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Flamengo e Palmeiras grandes demais para a Libertadores?

E o futuro? Tenho a sensação de que estamos na beira de tempos interessantes. Esses gigantes brasileiros quase cresceram demais para a Libertadores. O Mundial de Clubes já é um torneio aparentemente consolidado no calendário do futebol. 

Nova visibilidade, novas oportunidades. Quem sabe, um eventual filho ou filha do meu neto possa crescer enxergando um time dos Estados Unidos como um rival de peso. Pode ser uma viagem, mas pelo andamento das coisas, pode ser uma viagem possível.

De qualquer maneira, o jogo deste sábado parece marcar um momento significativo para o futebol brasileiro. 

Rossi celebra classificação contra o Racing
Rossi celebra classificação contra o Racing (Foto: Imago)

Trata-se de uma final de Libertadores com potencial de atrair uma grande audiência mundial — não somente por motivos da curiosidade cultural, mas também para ver uma disputa entre os melhores times da América do Sul, com elencos recheados de nomes conhecidos fora do continente.

Tanto Flamengo quanto Palmeiras já desfrutam de mais reconhecimento fora do país, e de mais respeito — uma consequência das suas participações no Mundial de Clubes, especialmente os jogos contra o Chelsea.

Tenho a alegria, e privilégio, de fazer parte do elenco transmitindo o jogo ao vivo na televisão da BBC. Desconfio que, na mídia que vou fazer nos próximos dias, vou esbarrar com algum jornalista inglês que ainda vai chamar o finalista carioca de “Flamenco”. Sempre acontece. 

O Mundial de Clubes infelizmente não foi suficiente para botar fim nessa falha grave. Mas estamos ganhando, e um grande jogo no sábado vai ajudar a divulgar mais o nome dos grandes clubes brasileiros. Tomara, então, que a qualidade do espetáculo seja à altura da importância da ocasião.

Vitor Roque comemora gol pelo Palmeiras
Vitor Roque comemora gol pelo Palmeiras. Foto: Imago
Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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