Libertadores

Como a renovação de John Kennedy prova a vitória do projeto de futebol do Fluminense

Fluminense nunca desistiu de John Kennedy mesmo com problemas fora de campo, agora, colherá os frutos até 2026 após renovação de contrato

O Fluminense anunciou na quinta-feira (11) a renovação de John Kennedy até 2026. O camisa 9 já tinha vínculo até 2025 e ganhou uma valorização salarial para ampliar o vínculo por mais uma temporada — o que também aumenta sua multa rescisória.

Mais do que importante esportivamente, entretanto, a notícia é uma vitória do projeto de futebol do clube, há tempos voltado também ao lado humano dos atletas.

O CT do Vale das Laranjeiras, em Xerém, na Baixada Fluminense, é reconhecido mundialmente como uma fábrica de talentos para o futebol. Além das quatro linhas, seu propósito está exposto em uma parede nas instalações administrativas.

Faça uma melhor pessoa que teremos um melhor jogador

Muitas vezes tratado de maneira jocosa por opositores e críticos, o lema das divisões de base do clube interfere mais uma vez nos resultados do clube. Acostumado a perder suas joias muito cedo, antes mesmo do retorno esportivo pelo time principal, o torcedor por muitas vezes duvidou e diminuiu o projeto de futebol do Flu. Não deveria.

— O homem John Kennedy é uma linda transformação — resumiu Paulo Angioni à Trivela, em agosto.

John Kennedy foi de problema à solução no Fluminense

John Kennedy, nas palavras de Fernando Diniz, é um talento raro — mas que o Brasil se acostumou a perder. De infância pobre, JK chegou a Xerém aos 14 anos e logo se destacou. Não era raro ouvir de funcionários, companheiros e até adversários o quanto o menino era “diferente” em campo.

Carrasco do Flamengo e decisivo em jogos de mata-mata, exibia o estilo “marrento”, típico de jovens de sua idade. O que era apenas “coisa de menino”, entretanto, virou problema na transição para os profissionais.

 

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O camisa 9 se envolveu em polêmicas em sequência: uma live na madrugada com uma dançarina, fratura no pé disputando uma pelada, fotos em um baile funk em Itaboraí, mesma cidade onde teve seu carro apreendido pela Polícia Militar com drogas e sem carteira de habilitação do motorista — ele não estava no veículo.

Um empréstimo para a Ferroviária, para o Campeonato Paulista de 2023, entretanto, mudou tudo. Em Araraquara, o jovem se encontrou e voltou ao Rio de Janeiro disposto a ser visto de outro jeito.

Decisivo, John Kennedy premia Fluminense em 2023

O Fluminense não tinha desistido de John Kennedy. Nem Fernando Diniz. O treinador tratou o camisa 9 como um projeto pessoal, com a ajuda do diretor Paulo Angioni e do presidente Mário Bittencourt, que lhe deram muito carinho e o tornaram símbolo do clube que desejam. O Urso tinha saído da jaula.

John Kennedy se envolveu com problemas extracampo, mas vive 2023 diferente no Fluminense - Foto: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.
John Kennedy se envolveu com problemas extracampo, mas vive 2023 diferente no Fluminense – Foto: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.

Sempre preocupado com o lado humano dos atletas, Diniz falou sobre isso em 2022.

— Vou fazer o máximo que puder por ele. É um grande talento e mais um daqueles jogadores, que, por trás, tem uma história de vida que, no futebol, ao invés da gente acolher a pessoa como um todo, a gente acolhe só o jogador. Essa é uma falha gigantesca que tem no futebol brasileiro — disse.

E voltou a falar no assunto na coletiva após a classificação do Fluminense para a final da Libertadores. No Beira-Rio, John Kennedy saiu do banco para mudar o jogo, apertar as mãos em sua comemoração característica de Urso e ser fundamental na virada tricolor sobre o Inter.

— Esse menino é um grande vencedor, está se tornando um homem cada vez mais íntegro. Cada vez mais bonito. O futebol perde a rodo talentos como esse no Brasil. Espero de todo o meu coração que ele consiga ter cada vez mais os pés no chão. Pés do tamanho do talento dele. Merece todos os elogios, todos os aplausos. Não é fácil ter a vida que ele teve e se tornar o que está se tornando. O jogador é reflexo do que se tornou como pessoa. Esse menino vale ouro. Além de extremamente talentoso, está se tornando um homem de bem — opinou o técnico, ao lado do camisa 9.

Ao lado do amigo Alexsander, John Kennedy chora copiosamente no gramado do Beira-Rio após virada do Fluminense - Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC
Com Alexsander, John Kennedy chora após classificação do Fluminense à final da Libertadores – Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC

Deu certo. E todos podem se orgulhar: John Kennedy é o símbolo de um Fluminense que olha além das quatro linhas, valoriza suas divisões de base e, não à toa, colhe frutos.

Amuleto na Libertadores, John Kennedy pede passagem no Fluminense

Já são oito gols e quatro assistências de John Kennedy em 31 jogos pelo Fluminense em 2023 — sendo seis das 12 participações em gol na Libertadores. Sua importância, entretanto, vai além dos números.

Foi tão bem que Fernando Diniz mudou o 4-3-3 que dava certo por um 4-2-4 que muita gente torce o nariz. É para que John Kennedy esteja em campo que o sistema do Flu mudou. Também, pudera. O camisa 9 marcou em todas as fases de mata-mata da competição que é obsessão nas Laranjeiras.

Agora de contrato renovado, ele tem tudo para ser o herdeiro de Germán Cano, autor de assombrosos 80 gols em duas temporadas pelo Flu. Não que o argentino esteja perto de se despedir do clube. Mas aos 21 anos e com mais três pela frente no Tricolor, ele deve seguir a linhagem de centroavantes do clube.

Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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