Libertadores

Prova final

Agora que o confronto com o Santos já está decidido, o corintiano, por marra ou alívio, pode estar pensando: “Foi menos complicado do que eu pensava”. E foi mesmo. Mantendo a serenidade da disputa contra o Vasco (muito mais parelha, vale lembrar), inédita para o clube em sua trajetória na Libertadores e raramente vista em brasileiros que disputam o torneio, o Corinthians confortavelmente se valeu do que faz de melhor: tirar o conforto do adversário. Ainda que sem grande volume ofensivo, “achou” os gols que precisava e varreu do caminho o melhor jogador do continente, que, resignado, até veio com o papinho furado de que torcerá para o rival na final. A aposta na individualidade não resistiu à força de um grupo.

Se Muricy Ramalho acompanhasse este blog, já estaria avisado (e eu seria xingado nos comentários com muito mais assiduidade). Na verdade, ele nem precisa ler o que escrevo, basta prestar mais atenção no próprio serviço. Levou a campo no Pacaembu a mesma formação que mal fez cócegas no Corinthians no jogo da Vila Belmiro. Desta vez, é verdade, Alan Kardec e Borges não se embolaram com os zagueiros adversários dentro da área, já que o primeiro tentou agir como um legítimo meia avançado pela direita no esquema da moda, o 4-2-3-1. E mesmo sem característica para isso, fez parte do lance onde a ideia deu certo. O problema é que este foi o único.

Circulando pelo meio e partindo de trás, Neymar serviu Kardec, que avançou pela ponta e cruzou para Borges, exercendo o papel de referência no ataque: Santos 1 a 0. Se a dinâmica se repetisse mais vezes, o Peixe teria assustado mais. O lance só aconteceu graças a um lampejo de Neymar, algo que vem rareando nos jogos difíceis da equipe santista. E também graças a um vacilo pouco comentado da defesa corintiana, que apenas assistiu aquele moicano cruzando toda a área para que o corpo a ele anexado completasse a jogada para as redes. Fora isso, o time de azul-viagra apresentou o mesmo defeito grave da semana passada: Neymar muito longe da área, encaixotado na região onde o oponente tem sua maior força.

O gol do time do litoral saiu no momento em que a equipe da capital era superior. Quando comentei isso no Twitter, muitos retrucaram, dizendo que o Santos procurava mais o ataque e mantinha a maior parte da posse de bola. Não deixa de ser verdade, mas nos leva à pergunta: e em que isso resultou? O Corinthians, bem mais recuado do que o aconselhável, era quem criava mais perigo quando atacava. Os números mostram que o Santos pouco ficou com a bola no último terço do campo. A “equipe que parte para o ataque” citada por Muricy na aborrecida coletiva pós-jogo se portou como um time incapaz sequer de equilibrar a luta no meio de campo. Que dirá de afirmar que o adversário se retrancou.

Para reconhecer a superioridade do Corinthians nas duas partidas, bem como sua efetividade em toda a Libertadores, ninguém precisa gostar do seu estilo de jogo. Eu, por exemplo, não gosto. Quase sempre, as partidas que envolvem o alvinegro são cansativas ao espectador, pois poucas chances de gol surgem. Prendem a atenção muito mais pela tensão eterna de que algo está sempre prestes a acontecer. Esqueça pelejas “cheias de alternativas”, como diz o clichê. De forma legítima e com grande mérito, os corintianos se destacam por travar os planos do oponente, conduzindo o embate a seu gosto. Por outro lado, não consigo ver o time de Tite como retranqueiro. Ele apenas defende e ataca de forma ordenada e solidária. É a tal da equipe compacta, que muitos pregam, outros tantos pedem e poucos conseguem colocar em prática.

E no outro lado do ringue…

O Corinthians de 2012 tem cara, jeito e cheiro de Libertadores. Mas terá pela frente um adversário de história marcante na competição, um hexacampeão que chega à sua sexta final em um período de 13 anos, sendo a décima no total. O Boca não cheira a Libertadores, ele fede a Libertadores. A camisa já sabe o caminho para a final sozinha, mas se engana quem pensa que ela chegou lá por conta própria. Mesmo longe de serem brilhantes como foram no começo da década passada, os Xeneizes têm um time cascudo, excelente nos desarmes, cujas peças se encaixam muito bem e onde cada um tem a exata noção do que tem de fazer para sair com a vitória. Lembra muito um tal de Corinthians, não?

A diferença básica entre eles é que o time brasileiro funciona quase como um organismo vivo. É difícil saber onde acabam seus setores, todos dividem responsabilidades. O Boca é menos sólido, seus jogadores têm funções melhor definidas. Na defesa, isso é ruim para os portenhos, que se mostram mais suscetíveis que os corintianos. No ataque, as individualidades podem desequilibrar. A começar por Riquelme, evidente. Maestro da equipe, mesmo sem a saúde de outrora, é capaz de desmanchar uma defesa com um simples toque na bola. No ataque, Mouche é o homem da velocidade (contra a Universidad de Chile, foi também o cara dos gols perdidos) e Santiago Silva se encarrega de romper a zaga com força física e, por mais que muitos se neguem a enxergar, bom posicionamento.

Se não der na base da individualidade, os argentinos têm a experiência e a tradicional catimba (tá aí um clichê que nunca sai de moda). Nas vitórias recorrentes sobre equipes brasileiras na década passada, o Boca se notabilizou por desestabilizar o adversário na Bombonera e amarrar os jogos em solo brasileiro. O sangue frio que tem marcado o Corinthians será essencial para não deixar o time de Buenos Aires muito à vontade. Se não conseguirem tirar os alvinegros do sério, é bem possível que os próprios boquenses comecem a perder a paciência. A tendência é de uma final de poucos gols, adequada ao surgimento de grandes heróis e vilões. Uma disputa que mobilizará olhares no Brasil e na Argentina. Todos estarão ligados, seja para torcer ou para secar.

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Equipe Trivela

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