Libertadores

Os primeiros duelos do Palmeiras contra equatorianos tiveram Edmundo na versão Animal e Roberto Carlos voando baixo

Palmeiras e Delfín se cruzaram pela primeira vez na história para definir o classificado às quartas de final da Copa Libertadores. E o próprio cartel dos alviverdes contra clubes equatorianos é relativamente magro: são apenas dez partidas contra times locais, o país com o qual os palmeirenses menos jogaram por competições continentais. Ainda assim, há capítulos interessantes. A Libertadores de 1995 não rendeu o título ao Palmeiras, mas deixou lembranças inexoráveis com os históricos embates contra o Grêmio. E, em tempos nos quais a fase de grupos se dividia em duelos regionais, brasileiros mediram forças com equatorianos na primeira etapa da competição. Foi, inclusive, a primeira vez que os palestrinos encararam adversários do Equador de maneira oficial.

Bicampeão brasileiro, o Palmeiras disputou seu primeiro jogo com o Grêmio, campeão da Copa do Brasil, naquela edição da Libertadores. Além deles, também compunham a chave Emelec e El Nacional, campeão e vice do Campeonato Equatoriano. Eram tempos relevantes do futebol local, que recebeu a Copa América de 1993 e via sua seleção iniciar um salto que culminaria na primeira classificação a uma Copa do Mundo em 2002. La Tri fez bonito naquela campanha continental dentro de casa, batendo Uruguai e Paraguai, antes da queda nas semifinais contra o México.

O Palmeiras estreou na Libertadores de 1995 contra o Grêmio, com a vitória por 3 a 2 dentro de casa. Então, realizaria sua turnê pelo Equador, com os dois compromissos num intervalo de três dias. Vanderlei Luxemburgo havia saído e Valdir Espinosa treinava os alviverdes. Dentro de campo, sobrava qualidade na equipe que ainda contava com Velloso, Antônio Carlos, Roberto Carlos, Flávio Conceição, Rivaldo, Edmundo e outros grandes nomes. Em entrevista à Folha, Espinosa mirava dois triunfos na viagem e minimizava a questão da altitude, dizendo que seus jogadores não a sentiram em certa viagem com o Grêmio a La Paz. Não seria tão simples, porém.

A primeira parada do Palmeiras aconteceu em Quito, contra o El Nacional. A grande figura do clube naqueles tempos era o centroavante Agustín Delgado, ainda iniciando a carreira, antes de se transformar em um dos jogadores mais significativos da história da seleção equatoriana. Além dele, outras peças esporádicas em La Tri. Todavia, os oponentes trariam mais dificuldades que o esperado. Apesar de um bom início, os palmeirenses se perderam na partida e tomaram sufoco, saindo com a derrota por 1 a 0.

Delgado era o principal alvo das jogadas do El Nacional e chegou a carimbar a trave aos oito minutos. A grande chance do Palmeiras veio aos 24, num pênalti à equipe. Edmundo soltou uma pancada no meio do gol e o goleiro Hector Chiriboga deu um leve desvio, em tiro que ainda bateu no travessão. O jogo permaneceu travado durante grande parte do tempo e sem muitas chances, até que um toque de mão de Flávio Conceição aos 40 do segundo tempo concedesse um pênalti aos equatorianos. Joffre Arroyo cobrou, determinando o triunfo dos anfitriões.

Edmundo teria mais problemas além do pênalti perdido. Na saída do campo, o atacante agrediu um cinegrafista, empurrando-o e chutando a câmera caída no gramado. Segundo o Animal, o equatoriano havia o provocado. Ainda assim, precisou pedir desculpas em uma coletiva de imprensa, diante da pressão pública. O cinegrafista registrou boletim de ocorrência e o Palmeiras se comprometeu a pagar uma câmera nova ao canal Telesistema.

O Palmeiras tentaria se reerguer três dias depois, encarando o Emelec em Guayaquil. Os Eléctricos contavam com vários destaques da seleção equatoriana na Copa América de 1993 – como o goleiro Jacinto Espinoza, o lateral Luis Capurro e o atacante Ángel Fernández. Também tinham opções como Iván Hurtado e Eduardo Hurtado, outros a despontarem por La Tri. Apesar da força expressa e da ausência de Edmundo, poupado depois da confusão, os alviverdes conseguiriam lidar melhor com o desafio no George Capwell e venceram por 3 a 1.

Roberto Carlos seria o grande nome naquela partida. O lateral abriu o placar aos 31 minutos, com um pouco de sorte. Arrancou à linha de fundo e arriscou o chute potente. A bola passou rente à trave e, quando o goleiro Espinoza tentou defender, acabou jogando para dentro. A imagem dá a impressão de que a pelota não passou totalmente, mas a arbitragem validou o tento. Na volta ao segundo tempo, o Emelec empatou, em cabeçada livre do argentino Vidal González.

Ao menos, o susto não durou tanto. Rivaldo retomou a vantagem com um golaço aos 12 minutos. Deu um corte seco no marcador e finalizou de direita, mandando a bola no ângulo de Espinoza, num chute indefensável. Por fim, Roberto Carlos fecharia a conta aos 34, em uma daquelas faltas potentes. O tiro passou ao lado da barreira e deu um leve desvio, sem dar tempo de reação a Espinoza.

O único problema ao Palmeiras aconteceria na volta do Equador. Edmundo não ganhou permissão para sair do país, em decisão emitida pela justiça local, enquanto se averiguava a agressão. Com isso, o craque virou desfalque no clássico disputado contra o São Paulo três dias depois e vencido pelos alviverdes. A embaixada brasileira em Quito precisou se envolver no imbróglio, com o atacante permanecendo no hotel. O caso só chegou ao fim quando o Palmeiras entrou em acordo com a Telesistema para pagar US$10 mil, valor da câmera danificada pelo jogador.

“Sempre me passaram que a coisa não seria tão difícil de ser resolvida. Passei um fim de semana tranquilo, esperando o final dos acontecimentos. Procurei refletir, vendo o que foi certo e o que estava errado, para quando chegar ao Brasil fazer as coisas da melhor forma possível”, diria Edmundo, de volta ao Brasil. Germán Veras, o cinegrafista, não chegou a pedir indenização. Ele comentaria à Folha: “Já fui para o front cobrir guerra e não tenho medo de um jogo de futebol. O Palmeiras ganharia por 10 a 0 se o jogo fosse disputado de novo. Edmundo é um fenômeno, admiro muito seu futebol”.

Palmeiras e Grêmio voltaram a se enfrentar pela quarta rodada, com o empate por 0 a 0 no Estádio Olímpico. Assim, a classificação alviverde seria consumada na quinta rodada. Dependendo apenas de um empate para confirmar a terceira colocação, os palmeirenses cumpriram sua parte com a vitória por 2 a 1 sobre o Emelec no Parque Antárctica. Depois de todos os imbróglios, Edmundo voltaria ao ataque – em tempos nos quais Valdir Espinosa pedia a contratação de Renato Gaúcho, então no Fluminense. Já os Eléctricos tinham como novidade em relação à primeira partida a presença do goleiro Alex Cevallos na meta, irmão mais velho do célebre José Francisco.

A presença de Edmundo seria sentida aos 42 minutos, com o primeiro gol do Palmeiras, enfim quebrando a forte marcação adversária. Rivaldo deu um passe cinematográfico que abriu a defesa e pegou o atacante livre no lado direito da área. O Animal invadiu com liberdade e fuzilou no alto. Antes do intervalo, Mancuso ainda acertou o travessão e Edmundo teve o gol no rebote anulado por impedimento. No início do segundo tempo, os alviverdes ganharam um pênalti. O próprio Edmundo cobrou para ampliar. Os palestrinos poderiam até aplicar uma goleada, mas perderam boas chances. O Emelec só descontou no final, numa bobeira da zaga adversária, com Eduardo Hurtado invadindo a área para bater na saída de Velloso. Com o triunfo, os paulistas carimbavam seu lugar nas oitavas e dependiam de um empate no último compromisso para assegurar a primeira colocação.

No fim das contas, o Palmeiras foi muito além da igualdade no reencontro com o El Nacional. Depois da derrota para o Corinthians no final de semana anterior, os alviverdes golearam os equatorianos por impiedosos 7 a 0 no Parque Antárctica. Edmundo parecia mesmo disposto a uma revanche, com dois gols e uma assistência. Quem também gastou a bola foi Válber, antigo companheiro de Rivaldo no Mogi Mirim, que vestia a 10 alviverde. O meia também fez dois e participou de mais um, saindo ovacionado pela torcida que antes o vaiava. Já Roberto Carlos deu show com quatro assistências. Além disso, a expulsão do goleiro Hector Chiriboga logo aos 17 minutos seria determinante à diferença estabelecida pelos paulistas.

O primeiro gol saiu aos 13, num cruzamento de Roberto Carlos para Edmundo completar de cabeça. Aos 17, ocorreu a expulsão de Chiriboga, por um toque de mão fora da área. A porteira, de qualquer forma, se abriu mesmo aos 30, com mais quatro tentos em nove minutos. Rivaldo anotou o segundo ao bater de fora da área e vencer o substituto Giovanny Ibarra. O terceiro surgiu a partir de uma linda inversão de Mancuso. Roberto Carlos cruzou e Válber escorou na saída do goleiro. Roberto Carlos daria sua terceira assistência ao quarto tento, deixando Edmundo na cara do gol para concluir. Já o quinto teria outra participação de Válber, recebendo o passe rasteiro de Roberto Carlos após cobrança de escanteio e soltando uma bomba que beijou o travessão antes de entrar.

Na volta ao segundo tempo, o Palmeiras tirou o pé do acelerador e até foi preciosista demais na definição de alguns lances. Ainda caberia o sexto gol aos 25, com Paulo Isidoro aproveitando um rebote do goleiro após arremate de Edmundo. Por fim, Rivaldo anotou o sétimo. Edmundo passou em velocidade para o companheiro arriscar o chute forte de fora da área, tirando do alcance de Giovanny Ibarra. Com a vitória, o Palmeiras terminou a fase de grupos com 13 pontos, dois à frente do Grêmio, ocupando a liderança.

O Palmeiras eliminou o Bolívar nas oitavas de final, com derrota em La Paz por 1 a 0 e triunfo por 3 a 0 em São Paulo. Então, aconteceriam os apoteóticos jogos contra o Grêmio, com os 5 a 0 da ida em Porto Alegre e os 5 a 1 da volta em São Paulo. Ficou a história, com aqueles embates diante dos equatorianos servindo de pano de fundo a um dos maiores confrontos que a Libertadores já viu.

*O jornalista pede desculpas pela falta de um timing melhor na publicação do texto. Ele deveria entrar no ar durante a última quarta, em decorrência da viagem do Palmeiras ao Equador, mas acabou engavetado por conta da cobertura da morte de Maradona. Conto com sua compreensão.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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