Libertadores

O Inter extrapolou as expectativas e conquistou uma merecida vitória na Bombonera, o que não bastou com a queda nos pênaltis

Por aquilo que o Internacional vinha jogando nas últimas semanas, parecia inimaginável uma reação contra o Boca Juniors nas oitavas de final da Copa Libertadores. Os colorados fizeram uma partida morna no Beira-Rio e tinham a dura missão de tentar a reviravolta dentro da Bombonera. Pois a equipe de Abel Braga calou os críticos, com uma senhora atuação na temida casa xeneize. O Inter dominou grande parte do jogo, sobretudo durante o primeiro tempo, e criou bem mais chances de gol. Mais do que isso, os gaúchos seriam impecáveis para controlar o ataque do Boca. Mereceram a vitória por 1 a 0, alcançada muito graças à partidaça de Patrick. Entretanto, o resultado era suficiente apenas para chegar aos pênaltis. E, na marca da cal, os boquenses foram melhores. De virada, o time de Miguel Ángel Russo venceu por 5 a 4 e avançou às quartas de final.

O Internacional entrou com uma equipe bastante modificada em relação à partida de ida no Beira-Rio. Apenas cinco titulares seguiam, embora os colorados também contassem com voltas importantes, como de Victor Cuesta e Edenílson. Abel Braga optava por uma equipe de mais presença física, com destaque à velocidade garantida nos lados por Patrick e Marcos Guilherme. Já o Boca Juniors repetia a formação, com Carlos Tevez no comando de ataque, municiado pelo trio formado por Edwin Cardona, Eduardo Salvio e Sebastián Villa.

Desde o princípio, o Internacional deixou expressa a sua intensidade dentro de campo, chegando firme nas divididas e compactado para não dar espaços às costas da defesa. A formação no 4-1-4-1 ajudava os colorados a preencherem o campo. Os lados eram reforçados com a estratégia, especialmente a ala esquerda, onde Moisés e Patrick se combinavam com muito vigor. Depois de primeiros minutos travados pelas faltas, os visitantes logo ganharam confiança e cresceram. Neste sentido, Thiago Galhardo seria importante na etapa inicial, mesmo sem balançar as redes. Aos 17, Patrick fez uma jogadaça e entregou para o artilheiro, que acertou o travessão de Esteban Andrada.

O lance perigoso não seria mero acaso, numa noite na qual o Inter se mostrava mais ligado e bem estruturado. Os colorados não concediam brechas ao Boca Juniors, nulo ofensivamente. Além disso, organizados por Praxedes, os visitantes eram mais diretos em suas chegadas e conseguiam explorar melhor a defesa adversária. Aos 25, Moisés cruzou e a cabeçada de Praxedes não saiu com força, facilitando a defesa de Andrada. Pouco depois, em novo cruzamento de Moisés, Galhardo exigiu mais do goleiro xeneize. Andrada voltaria a aparecer aos 31, agora em tentativa de Marcos Guilherme.

Não era o mesmo Internacional que se via com Eduardo Coudet no início do Brasileirão, mas nenhum colorado poderia reclamar da maneira como o time se portava. Com sobras, era a melhor partida desde a chegada de Abel Braga. A equipe mantinha a firmeza na defesa e, com mais posse de bola, trabalhava bem no ataque – aproveitando o escape pelos lados. O gol ainda não tinha vindo, mas oportunidades não faltavam. Do outro lado, Tevez não tinha respiro para recuar e abrir a marcação, como no Beira-Rio. Além disso, os pontas Villa e Salvio não criavam.

Logo na volta ao segundo tempo, o Inter conseguiu o merecido gol para premiar sua atuação até ali. De novo, Patrick e Moisés se combinaram pela esquerda. O ponta acionou o lateral na passagem e o cruzamento rasteiro chegou ao segundo pau. Marcos Guilherme tentou completar, mas Frank Fabra chegou antes e acabou mandando contra as próprias redes. O resultado forçou o Boca Juniors a sair, mas sem muita qualidade na construção. Quando Tevez apareceu aos 12, com mais espaço na entrada da área, arriscou o chute e forçou uma defesa excelente de Lomba.

A sequência do segundo tempo seria um pouco mais nervosa. O Internacional não conseguia repetir sua imposição e recuava. Enquanto isso, o Boca Juniors avançava mais, mesmo que sem finalizar tanto. Miguel Ángel Russo realizou duas alterações necessárias, ao tirar o apagado Villa e também Julio Buffarini, que tomava um baile de Patrick na lateral direita. Com isso, a marcação xeneize se acertou. Abel Braga trocou Marcos Guilherme por Yuri Alberto, tentando renovar as energias aos contragolpes.

O Inter baixou o ritmo, mas o Boca Juniors não apresentava recursos quando tinha a bola. As tentativas xeneizes se limitavam a bolas alçadas. Os colorados davam mais calor quando conseguiam sair em velocidade e ganharam novo vigor aos 35, com as entradas de Peglow e Rodrigo Dourado nas vagas de Galhardo e Praxedes. O maior lamento viria aos 37, depois de um escanteio arranjado pelos gaúchos. Quando a bola foi levantada na área, Andrada não achou nada e deixou a bola escapar. Cuesta ficou com a sobra, mas pegou mal e mandou por cima. O Boca demorava a tentar e só fez algo aos 44, numa pancada de Cardona que seguiu para fora com muito perigo. Já nos acréscimos, os boquenses ainda ficariam com um a menos, por solada de Agustín Obando em Edenílson que resultou na punição após revisão no monitor.

A definição acabou nos pênaltis. Tevez iniciou a contagem ao Boca Juniors, e deu sorte, com Lomba espanando para dentro o tiro no meio do gol. Rodinei converteu na sequência para empatar, antes que Lomba permitisse ao Inter passar à frente, espalmando o arremate de Cardona. Edenílson e Salvio bateram bem na sequência, mas Lindoso desperdiçou a vantagem colorada, mandando para fora. Fabra recolocou o Boca na dianteira e Yuri Alberto igualou novamente, assim como fizeram Carlos Izquierdoz e Leandro Fernández no fim da série normal. Por fim, nas alternadas, Leonardo Jara deslocou Lomba e o erro cabal acabou sendo do garoto Peglow, que mandou por cima do travessão. Entregou a classificação ao Boca, com a vitória por 5 a 4.

O Inter sai de cabeça erguida, até pelo momento que vive o clube e pelos resultados recentes. O jejum de sete partidas sem vitórias foi quebrado justamente na Bombonera. De qualquer maneira, faltou um pouco mais para garantir a classificação e os colorados até poderiam ter assegurado isso no tempo normal. No fim, os pênaltis marcam a infelicidade de uma noite que parecia um sonho até então. Fica a lição sobre aquilo que os gaúchos ainda podem fazer no Brasileiro, caso mantenham a postura e a própria formação vista em Buenos Aires. Já o Boca Juniors sai devendo. Esteve muito aquém de competir e não encontrou soluções ao longo da noite. Depois da boa impressão no Beira-Rio, perde um pouco o moral para encarar o Racing nas quartas de final.

 

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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